Pe. JOÃO MEDEIROS FILHO (1941/



A trajetória do Padre João Medeiros Filho configura-se como um painel vivo das confluências históricas do século XX, unindo o rigor do sertão seridoense à sofisticação intelectual das academias europeias e aos corredores do poder eclesiástico e civil. Nascido em Jucurutu, em 16 de março de 1941 — data coincidente com a nomeação de Dom Delgado como bispo de Caicó —, sua existência foi marcada por um contraponto entre as expectativas seculares de sua família e uma vocação que o levaria a ser testemunha ocular de eventos que redefiniram a modernidade.

Sua formação eclesiástica, iniciada aos onze anos, percorreu uma verdadeira geografia espiritual pelo Nordeste, transitando entre os seminários de Caicó, Mossoró, Natal, João Pessoa e Olinda. Foi nesta última cidade que, demonstrando uma argúcia intelectual precoce, conquistou uma bolsa de estudos do governo belga ao redigir um ensaio que conectava a genealogia da família real belga ao Império Brasileiro. Tal oportunidade abriu as portas para cinco anos de estudos doutorais na Europa, posicionando-o estrategicamente para atuar como tradutor e "perito" no Concílio Vaticano II.

No seio do Concílio, o Padre João Medeiros transcendeu a mera função técnica. Fluente em latim e francês, serviu de ponte linguística para o episcopado do Nordeste brasileiro, vivenciando diálogos memoráveis. Entre estes, destaca-se o encontro com o Papa João XXIII, que, ao ser questionado sobre o contingente de trabalhadores do Vaticano, respondeu com fina ironia: "Aqui é como em Brasília: trabalha menos da metade". A vivência conciliar imbuíu-o de um espírito ecumênico e dialógico que, futuramente, o colocaria em oposição intelectual à rigidez pregada por figuras como Frei Damião. Sua jornada europeia permitiu-lhe ainda encontros com figuras de santidade reconhecida, como Paulo VI e o Padre Pio de Pietrelcina, de quem recebeu um ríspido e memorável corretivo ao tentar observar-lhe os estigmas.

Ao retornar ao Brasil e fixar-se no Rio Grande do Norte, o Padre João tornou-se peça fundamental na arquitetura educacional do estado. Sua articulação política, em conjunto com o Senador Dinarte Mariz, logrou a criação do campus da UFRN em Caicó em 1974. Através de um estratagema jurídico e social, garantiram a irreversibilidade do projeto ao realizar exames vestibulares antes mesmo da formalização das vagas, consolidando sua posição como o primeiro diretor daquela unidade acadêmica.

Contudo, foi a iminência da morte, sob o diagnóstico de Síndrome de Hodgkin, que o levou ao Rio de Janeiro. Contrariando o prognóstico médico de apenas seis meses, o sacerdote não apenas sobreviveu, mas construiu uma sólida carreira na administração pública federal. Atuou na Fundação Casa de Rui Barbosa, onde codificou a literatura de cordel, e serviu como Secretário Executivo do Conselho Federal de Cultura. Como Delegado do Ministério da Educação, demonstrou coragem moral ao combater esquemas de corrupção em instituições privadas ligadas à contravenção, mantendo-se fiel aos preceitos de honestidade que atribuía ao convívio com o ministro Marco Maciel. No plano eclesiástico carioca, dividiu-se entre a elite da Paróquia São José da Lagoa e o serviço carismático ao lado do Padre Artêmio Mazotti.

A maturidade trouxe-o de volta às suas raízes potiguares. Em 2011, foi eleito para a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, sucedendo a Dom Nivaldo Monte. Em sua produção intelectual e em seus discursos, Padre João Medeiros Filho dedica-se agora a uma apaixonada exegese da identidade seridoense. Para ele, o Seridó é, antes de tudo, um "estado de espírito" cujas raízes mergulham na herança flamenga. Ele argumenta que a excelência da gastronomia regional — dos queijos de manteiga e coalho aos bordados de Caicó — é fruto de uma simbiose cultural iniciada com as incursões holandesas no século XVII.

Sua vida, portanto, encerra-se como um apelo à preservação do patrimônio imaterial e ao reconhecimento de que a cultura é a essência de um povo. Entre o uísque compartilhado com Vinicius de Moraes em Paris e a celebração da missa no sertão, o Padre João Medeiros Filho permanece como um intelectual universal que nunca permitiu que o mundo o afastasse de sua "aldeia".

A tese formulada pelo Padre João Medeiros Filho acerca da influência holandesa no Seridó ultrapassa o campo da curiosidade histórica e se projeta como uma instigante reinterpretação antropológica da formação da identidade potiguar. Para o estudioso, o isolamento geográfico do sertão nordestino funcionou como um verdadeiro “preservativo cultural”, permitindo a conservação de hábitos, técnicas e visões de mundo legados por batavos e flamengos que, após a Insurreição Pernambucana do século XVII, não retornaram à Europa e se fixaram no interior do atual Rio Grande do Norte. Esse isolamento teria favorecido a permanência de traços culturais europeus em estado quase fossilizado, protegidos das transformações mais intensas ocorridas no litoral colonial.

Nesse sentido, Padre João estrutura sua análise em alguns pilares fundamentais, por meio dos quais estabelece conexões entre o Norte da Europa e o sertão seridoense. Um dos aspectos centrais de sua argumentação reside na gênese dos queijos regionais, notadamente o queijo de manteiga e o queijo de coalho. Segundo ele, tais produtos não seriam meras criações espontâneas do ambiente sertanejo, mas adaptações diretas de técnicas laticínias oriundas dos Países Baixos. O queijo de manteiga, em particular, seria um parente próximo dos queijos gordos belgas e holandeses, uma vez que o processo de “fritura” da massa e a incorporação de gordura — no caso, a manteiga de garrafa — reproduziriam, em condições tropicais e semiáridas, a cremosidade típica de variedades europeias elaboradas em climas frios. Já o queijo de coalho seria associado aos queijos duros holandeses, concebidos para longa conservação, característica essencial em sociedades que valorizavam o armazenamento e a previsibilidade alimentar. O sacerdote ressalta ainda que o primeiro registro histórico da produção de queijo no Brasil remonta a 1596, na região da Serra do Mel, atribuído a colonos holandeses, antecedendo, portanto, a consolidação das grandes fazendas de gado de matriz luso-brasileira.

Outro eixo relevante de sua tese diz respeito à tradição dos bordados, especialmente os famosos bordados de Caicó e a chamada Renda Renascença, amplamente difundida em Timbaúba dos Batistas. Padre João identifica nesses trabalhos manuais uma matriz técnica vinculada aos bordados de Bruges, na Bélgica, antiga região de Flandres. A evidência dessa filiação estaria não apenas na semelhança formal dos pontos e desenhos, mas também na própria nomenclatura empregada pelas bordadeiras seridoenses, que utilizam termos como “richelieu” e recorrem ao “bilro”, vocábulos e instrumentos de clara origem europeia, com etimologia francesa ou flamenga. Para o pesquisador, esse saber-fazer teria sido transmitido por famílias que permaneceram no sertão após a retirada oficial do exército holandês, perpetuando técnicas artesanais que sobreviveram por gerações.

No campo da linguagem, Padre João sustenta que o Seridó, em virtude de seu relativo isolamento, teria preservado no falar cotidiano cerca de seiscentos vocábulos derivados do neerlandês e do flamengo. Ele aponta, como exemplo, o emprego do verbo “varrer” em determinados contextos e certas construções sintáticas que se afastam do português clássico do litoral, aproximando-se de uma estrutura mais direta, característica das línguas germânicas. Essa herança linguística seria, segundo sua interpretação, um verdadeiro testemunho fóssil da convivência histórica entre populações nativas, colonos ibéricos e remanescentes holandeses, muitos dos quais seriam cristãos-novos ou técnicos especializados que buscaram refúgio no interior após o declínio do domínio batavo no Nordeste.

A própria etimologia do topônimo “Seridó” recebe, nessa perspectiva, uma leitura mística e histórica singular. Padre João aventa a hipótese de que o termo possa derivar do aramaico ou de dialetos semíticos trazidos por colonos criptojudeus que acompanhavam os holandeses, com o significado de “Terra de Deus” ou “Lugar de Refúgio”. Tal interpretação contribuiria para explicar aquilo que ele identifica como um “estado de espírito” seridoense, marcado por resiliência, orgulho de linhagem e um profundo senso de organização comunitária, traços que o autor associa às tradições calvinistas e judaicas do norte da Europa.

A partir desse conjunto de argumentos, o sacerdote conclui com um apelo veemente à preservação desse patrimônio cultural singular. Defende a criação de Selos de Indicação Geográfica que reconheçam oficialmente a especificidade histórica e cultural da chamada “escola seridoense” de gastronomia. Seu temor é que, sem esse reconhecimento, produtos emblemáticos como o queijo de manteiga e a carne de sol acabem diluídos pela produção industrial massificada, perdendo sua identidade e apagando, de forma irreversível, os vestígios dessa colonização atípica que, em sua visão, transformou o Seridó em um enclave europeu cravado no coração do Nordeste brasileiro.

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