JOSÉ BEZERRA GOMES (1911/1982)
José Bezerra Gomes (1911–1982) ocupa lugar singular na literatura e na cultura potiguar, como uma das vozes mais densas e complexas do regionalismo nordestino do século XX. Sua trajetória intelectual articula ficção, memória e crítica social, compondo um testemunho profundo do Seridó em transição, atravessado pelas tensões entre tradição e modernidade, entre o mundo patriarcal rural e as promessas, muitas vezes frustradas, da vida urbana. Inserido no contexto do chamado Regionalismo de 30, ao lado de nomes como José Lins do Rego e Raquel de Queiroz, Bezerra Gomes construiu uma obra que, embora relativamente breve, revela grande densidade humana, estilística e histórica, marcada por uma permanente oscilação entre a memória da terra natal e o sentimento de desenraizamento existencial.
Natural de Currais Novos, filho de Napoleão Bezerra de Araújo Galvão e de Veneranda Bezerra de Araújo Galvão, descendia de uma das famílias tradicionais do Seridó. A infância vivida no sertão, em meio à economia algodoeira, às secas periódicas e às rígidas hierarquias sociais, moldou de forma decisiva sua sensibilidade literária. Essa experiência primeira jamais o abandonaria, reaparecendo em sua obra como lembrança afetiva, mas também como denúncia das contradições de uma sociedade marcada pela concentração de terras, pelo mando patriarcal e pela frágil mobilidade social. Formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais, em 1936, exerceu brevemente a advocacia, chegando a viajar a Portugal por motivos profissionais. Contudo, sua verdadeira vocação encontrou expressão na literatura, no ensaio e na vida cultural.
A biografia de Bezerra Gomes é atravessada por uma dimensão trágica. Contemporâneos o descrevem como homem melancólico, temperamental e profundamente sensível, cuja genialidade conviveu com um persistente desequilíbrio mental. Ao longo da vida, alternou períodos de relativa estabilidade com internações em casas de saúde, experiência que acentuou seu isolamento e marcou sua escrita com um tom de inquietação, angústia e indefinição existencial. Longe de silenciá-lo, porém, essa fragilidade tornou-se uma das matrizes mais profundas de sua criação literária, conferindo-lhe densidade psicológica e uma rara capacidade de introspecção.
De volta a Currais Novos, envolveu-se ativamente na vida pública e cultural da cidade. Eleito vereador, foi responsável pela criação da Diretoria de Documentação e Cultura do município, concebida como espaço de preservação da memória histórica e da arte popular do Seridó, prevendo a fundação de uma biblioteca e de um museu. Também participou intensamente da vida esportiva local, dirigindo por uma década o Centro Esportivo Currais-novense. Essa atuação cívica revela um intelectual comprometido não apenas com a escrita, mas com a construção concreta de políticas culturais, numa época em que tais iniciativas eram raras no interior nordestino.
No campo da ficção, estreou com o romance Os Brutos, publicado em 1938, obra que se insere plenamente na estética do regionalismo de 30. A narrativa mergulha na paisagem física e humana do Seridó, retratando a prosperidade e a posterior decadência de uma família sertaneja, esmagada pela seca, pelas dívidas e pela ação predatória do usurário que se beneficia da ruína alheia. Narrado sob o olhar de um menino, o romance funciona como um documento sociológico de grande força, registrando as relações de trabalho, a dependência extrema do clima, a transição tecnológica das bolandeiras e a ascensão de uma aristocracia rural enriquecida pelo chamado “ouro branco”, o algodão. A recepção crítica foi ambígua, oscilando entre leituras severas e elogios que, mais tarde, reconheceriam na obra um dos retratos mais vigorosos do sertão potiguar.
Em Por que não se casa, doutor?, publicado em 1944, Bezerra Gomes desloca o espaço narrativo para o ambiente urbano de Belo Horizonte, sem, contudo, abandonar o substrato regionalista. O romance acompanha Flávio, um jovem bacharel em Direito incapaz de corresponder às expectativas sociais de sucesso, casamento e virilidade. Dividido entre os valores herdados da tradição sertaneja e as exigências da modernidade urbana, o protagonista encarna o drama de uma geração deslocada, vivendo o fracasso profissional, a insegurança afetiva e a repressão emocional. A obra expõe, com notável sensibilidade psicológica, os efeitos devastadores das pressões sociais impostas aos homens, revelando como o ideal hegemônico de masculinidade conduz à frustração, ao alcoolismo e à autodestruição.
Essa dimensão existencial e autobiográfica atinge seu ponto mais intenso em A Porta e o Vento, publicado em 1974. Denso e conciso, o romance mescla ficção e memória em uma narrativa fragmentada, próxima da estrutura poética. Alternando espaços simbólicos, como a casa-grande rural e a casa urbana da rua, a obra acompanha personagens que vivem na penumbra entre sonho e realidade, entre o passado que resiste e o presente que se impõe. Aqui, a prosa de Bezerra Gomes parece querer se converter em poema, revelando uma vocação lírica que atravessa toda a sua produção.
Paralelamente à ficção, Bezerra Gomes dedicou-se ao ensaio e à pesquisa folclórica. Sua obra O Teatro de João Redondo, apresentada em 1951 no I Congresso Brasileiro de Folclore, constitui um marco pioneiro nos estudos sobre o teatro popular de bonecos no Nordeste. Ao centrar sua pesquisa no mamulengueiro Sebastião Severino Bastos e levá-lo ao Rio de Janeiro para uma apresentação no próprio congresso, rompeu preconceitos acadêmicos e contribuiu decisivamente para a legitimação do mamulengo como expressão cultural digna de estudo e valorização.
Sua produção poética, reunida na Antologia Poética organizada por Luís Carlos Guimarães, confirma a pluralidade de sua obra e a persistente presença do sertão como espaço de memória afetiva. Nesses poemas breves, por vezes próximos do “poema-minuto”, emergem imagens da infância, da religiosidade popular, do labor rural e do imaginário sertanejo, sempre atravessadas por um lirismo contido e uma melancolia profunda.
No plano historiográfico, Bezerra Gomes também se envolveu em debates sobre a memória fundacional do Seridó, como a polêmica em torno da naturalidade do Capitão-mor Cipriano Lopes Galvão, primeiro povoador do Totoró. Ao filiar-se à corrente que defendia a origem pernambucana do fundador, inseriu-se numa disputa simbólica mais ampla, que ultrapassava a genealogia e refletia a luta pelo controle da narrativa histórica e identitária das cidades sertanejas.
Embora tenha acalentado o projeto de um “Ciclo do Algodão”, à maneira do ciclo da cana-de-açúcar de José Lins do Rego, esse empreendimento permaneceu inacabado, em grande parte em razão da doença que o acompanhou por toda a vida. Ainda assim, seus romances constituem um painel expressivo da sociedade semi-feudal sertaneja, marcada pela decadência do patriarcalismo, pela ruína da casa-grande e pela emergência de indivíduos desterritorializados, incapazes de se ajustar plenamente ao novo mundo que se anunciava.
A morte de José Bezerra Gomes, ocorrida em Natal em 1982, não encerrou sua presença na vida cultural de Currais Novos. A criação da Fundação Cultural que leva seu nome, por meio de lei municipal, atesta o reconhecimento tardio, mas duradouro, de sua importância. Ausente de muitos manuais e dicionários da literatura brasileira, sua obra resiste como testemunho crítico e memorialístico de um sertão em transformação, no qual a ficção se converte em fonte privilegiada para a compreensão das sensibilidades, das angústias e das rupturas de uma sociedade inteira.
Assim, José Bezerra Gomes permanece como figura paradoxal e essencial: cronista do Seridó, intérprete da decadência do mundo patriarcal, poeta latente em permanente conflito com a forma romanesca e intelectual que, entre a terra bruta e o vento lírico, legou à literatura brasileira uma obra marcada pela densidade humana, pela melancolia e pela força da memória.
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