A salvaguarda da memória iconográfica constitui um pilar fundamental para a manutenção da identidade de um povo, transformando o registro fotográfico em um documento histórico capaz de dialogar com o passado, interpretar o presente e projetar o futuro e é sob essa perspectiva que se ergue a monumental obra "Álbum de Fotos do Acari", organizada pelo historiador Adriano Campelo da Silva, que transcende a mera compilação de imagens para se estabelecer como um denso inventário visual e analítico do município de Acari, no coração da Ribeira da Acauã. 

A obra, fruto de uma meticulosa pesquisa iniciada em 2003 e amadurecida ao longo de duas décadas, propõe-se a ser guardiã da história local, abrangendo desde o final do século XVIII até meados do século XX, capturando a evolução urbana, as dinâmicas sociais e as transformações arquitetônicas daquela que é reconhecida como a "vedete do Seridó".

A gênese deste projeto confunde-se com a própria trajetória de seu autor, nascido em Acari em 03 de março de 1985. Filho de agricultores, Adriano Campelo — historiador, artista plástico, artesão e condutor local de turismo com pós-graduação em Patrimônio e Arqueologia — canalizou seu sentimento de pertencimento e sua atuação profissional, que inclui a coordenação cultural do Museu Histórico de Acari, para a concretização deste desejo antigo de eternizar imagens raras em um único compêndio. 

O álbum não opera apenas no campo da objetividade científica; conforme observa o historiador Helder Macedo na apresentação da obra, há uma tensão dialética entre o rigor do pesquisador e a sensibilidade evocada pelas imagens, onde a fotografia atua como um testemunho que interroga o espectador e o convida a perscrutar as subjetividades dos sujeitos retratados e dos cenários transformados pelo tempo.

Para compreender a profundidade dos registros visuais, faz-se necessário recuar às origens do território, palco milenar de ocupação humana. Antes da chegada do colonizador europeu, a região era habitada pelos indígenas Tarairiú, autodenominados Ots-Chikayaynoe, cujos vestígios arqueológicos no entorno do açude Gargalheiras atestam uma presença de até nove mil anos. 

A colonização, impulsionada pela expansão da pecuária, foi marcada pelo enfrentamento, dado a resistência dos aborígenes, que abriu caminho para a instalação das fazendas. 

A fundação do povoado, nesse passo, ancora-se na fé, com a consagração da capela a Nossa Senhora da Guia em 1738, erguida por Manuel Esteves de Andrade. 

A evolução administrativa seguiu seu curso inexorável, sendo subordinada inicialmente à Vila Nova do Príncipe, Acari emancipou-se politicamente em 11 de abril de 1833, elevando-se à condição de Vila, e viu sua autonomia eclesiástica confirmada em 18 de março de 1835 com a criação da Freguesia.

O contexto social que se formou nessas paragens seridoenses, sustentado pela fertilidade da Várzea do Rio Acauã comparada poeticamente a um "novo Nilo" por Manoel Antônio Dantas Correia em 1847, revela-se em documentos de 1769 que listam a complexa estratificação local. 

Neles, figuram personagens como o Capitão-mor Inácio Mendes da Câmara, o Capitão Damásio da Costa Soares, o Alferes João da Fonseca Borges, a viúva Dona Tereza Lins de Vasconcelos e o ferreiro Gonçalo Esteves, compondo o grupo  que alicerçou a sociedade acariense. É sobre esse substrato histórico que as lentes dos fotógrafos do passado capturaram a metamorfose da cidade, oferecendo janelas para uma realidade muitas vezes suplantada pela modernidade.

Ao adentrar a análise iconográfica, o álbum revela a Rua dos Alpêndres em um registro raro de aproximadamente 1899, onde se destacam sobrados históricos, como os pertencentes aos padres Tomaz e José Modesto, testemunhos de uma arquitetura colonial ainda intacta. 

A dinâmica comercial e civil é evidenciada pelo antigo Mercado Público, outrora considerado o melhor do Seridó com suas sete portas em arco, cuja integridade foi posteriormente fragmentada para dar passagem a uma via comercial, ilustrando o conflito perene entre preservação e funcionalidade urbana. 

Da mesma forma, a Praça Getúlio Vargas, registrada na década de 1940, exibe um cenário de fachadas preservadas, balustradas e o primeiro coreto, elementos que compunham uma estética pública hoje drasticamente alterada.

A religiosidade, força motriz da comunidade, é documentada tanto na imponência da Basílica de Nossa Senhora da Guia cuja construção suscita debates historiográficos sobre a autoria entre os padres Tomás Pereira e Antônio da Silva Pinto quanto nas procissões que percorriam a Rua da Matriz. 

As imagens revelam detalhes preciosos, como o antigo cruzeiro, o rebaixamento do terreno frente à igreja e a estrutura original da Igrejinha do Rosário, que possuía corredores laterais removidos em intervenções de restauro na década de 1940. Essas fotografias não documentam apenas a crença de um povo, mas a própria materialidade da cidade, com suas ruas de lajeiro e casas sem reboco.

O avanço do século XX e a chegada da infraestrutura moderna também encontram espaço na versão visual. A Ponte Juvenal Lamartine, inaugurada em 14 de agosto de 1929 como uma das maiores obras de concreto armado do estado, surge como símbolo de progresso, embora registros de 1950 já denunciassem o desgaste que levaria à sua atual interdição. 

Paralelamente, o Campo de Pouso de Acari revela-se como um equipamento estratégico vital, servindo de base logística para a construção do açude Gargalheiras, da rodovia para Currais Novos e para o correio aéreo da FAB nos anos 1960, conectando o sertão ao mundo. 

A obra de Adriano Campelo, portanto, consolida-se como um esforço coletivo, nutrido pela colaboração de familiares e cidadãos que cederam seus acervos particulares, resultando em um "presente do filho da terra" que não apenas preserva a memória, mas reafirma a identidade cultural de Acari como um patrimônio vivo, dinâmico e resiliente.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

JOSÉ BEZERRA GOMES (1911/1982)

JOSÉ OZILDO DOS SANTOS