NATHÁLIA MARIA MONTENEGRO DINIZ
Filha de João Diniz Fernandes e de Izabel Maria Nóbrega Montenegro Diniz, Nathália Maria Montenegro Diniz insere-se em uma linhagem familiar marcada por sólida tradição cultural e intelectual, sendo irmã de Izabel Maria Montenegro Diniz Macêdo, Hylarina Maria Montenegro Diniz Silva, Adília Maria Montenegro Correia de Aquino, Ana Tereza Montenegro Diniz Mafra, João Diniz Fernandes Júnior, Joaquim Apolinar Nóbrega Diniz, Alexandre Augusto Nóbrega Diniz e Marcus César Nóbrega Montenegro Diniz. No campo acadêmico, legou à historiografia e aos estudos arquitetônicos do Nordeste brasileiro uma obra de valor excepcional e duradouro, a dissertação de mestrado intitulada Velhas Fazendas da Ribeira do Seridó, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, como requisito para a obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo, em 2008.
Nesse trabalho notável, a autora debruça-se sobre a microrregião do Seridó, situada no semiárido do Rio Grande do Norte, caracterizada pela vegetação de caatinga, pelos solos intensamente erodidos e por um regime pluviométrico irregular e escasso. O estudo reconstrói o processo histórico de ocupação do território, iniciado no século XVII, demonstrando como a pecuária extensiva constituiu o principal vetor de interiorização e fixação das famílias no sertão potiguar, sendo posteriormente reforçada pelo cultivo do algodão, sobretudo da variedade mocó, que se revelou atividade econômica altamente rentável e decisiva para a consolidação demográfica e produtiva da região. A autora evidencia que as antigas fazendas de gado e algodão do Seridó, embora marcadas por formas arquitetônicas austeras, despojadas de ornamentação erudita e destituídas da autoria formal de arquitetos, configuram exemplares de extraordinária relevância para o patrimônio arquitetônico brasileiro, por expressarem de maneira autêntica o saber construtivo vernacular, a adaptação ao meio físico adverso e a lógica funcional própria da chamada civilização do couro.
A pesquisa analisa minuciosamente as características construtivas dessas edificações rurais, sobretudo as casas-sede dos séculos XIX e início do XX, descrevendo materiais, técnicas, sistemas estruturais e soluções arquitetônicas adotadas para enfrentar as condições climáticas do semiárido, como a implantação em sítios elevados, a orientação voltada para o nascente, o pé-direito elevado, as paredes espessas de tijolos de barro assentados sobre alicerces de pedra, as coberturas em duas águas com telhas de barro e a organização funcional dos espaços internos e externos. Paralelamente, examina os estabelecimentos de produção associados às fazendas, como engenhos de rapadura, casas de farinha, paióis, currais e armazéns, revelando a estreita articulação entre moradia, trabalho e sociabilidade no universo rural seridoense.
Para além do aspecto arquitetônico, a dissertação aprofunda-se no contexto socioeconômico e cultural da região, abordando a formação da sociedade pastoreia, a estrutura hierárquica das fazendas, o papel central do vaqueiro, as formas específicas de trabalho e remuneração, a presença reduzida, porém significativa, da mão de obra escravizada e a relativa mobilidade social que distinguia o ciclo do gado em relação à economia açucareira do litoral. A autora dedica especial atenção às trajetórias familiares associadas às antigas propriedades rurais, valendo-se de apontamentos genealógicos — com destaque para a família Gorgônio Paes de Bulhões — como instrumento metodológico capaz de iluminar o cotidiano, os costumes, as relações sociais e a permanência histórica dessas paisagens culturais.
O trabalho também traça um panorama crítico da evolução das políticas de preservação do patrimônio rural, tanto em âmbito internacional quanto nacional, demonstrando como a arquitetura civil rural permaneceu por longo tempo à margem das ações de proteção oficial, em razão de sua modéstia formal e de critérios estéticos restritivos. Nesse sentido, a dissertação assume caráter não apenas descritivo, mas também propositivo, ao inventariar edificações tradicionais rurais das ribeiras do Seridó, registrar seu estado de conservação, documentar intervenções e descaracterizações sofridas ao longo do tempo e alertar para o processo acelerado de dilapidação desse acervo, agravado pelo êxodo rural, pelo abandono e por reformas inadequadas.
Ao final, Nathália Maria Montenegro Diniz afirma a necessidade imperiosa de compreender esse patrimônio não como um conjunto de bens isolados, mas como parte indissociável de uma ambiência histórica, social e paisagística que traduz os processos de ocupação, trabalho e vida no sertão nordestino. Sua dissertação configura-se, assim, como um estudo pioneiro, rigoroso e sensível, que ultrapassa os limites da arquitetura para dialogar com a história, a genealogia e a antropologia, constituindo um marco fundamental para a preservação da memória material e imaterial do Seridó e para a valorização de um legado cultural que, embora discreto em suas formas, é profundo em seus significados e essencial para a identidade regional e nacional.
O vasto inventário das edificações rurais tradicionais das ribeiras do Seridó revela, com rara densidade histórica e sensibilidade regional, um patrimônio material profundamente enraizado na formação social, econômica e cultural do sertão nordestino. Trata-se de um levantamento minucioso de antigas fazendas distribuídas pelos municípios de Serra Negra do Norte, Timbaúba dos Batistas, Jardim de Piranhas, São João do Sabugi, Ipueira, Acari, Ouro Branco, Jardim do Seridó, Parelhas, Caicó e Carnaúba dos Dantas, espaços moldados pela pecuária, pela agricultura de subsistência e pela engenhosidade construtiva do homem sertanejo. Organizado por Nathália Diniz em 2008, com apoio de levantamentos anteriores realizados por Paulo Henrique Feijó em 2002, o inventário oferece uma visão abrangente e articulada da arquitetura rural seridoense, examinando não apenas a materialidade das construções, mas também sua história, seus usos sucessivos e o estado atual de conservação e preservação.
As edificações documentadas obedecem, em sua maioria, a um padrão construtivo recorrente, resultado da adaptação secular às condições climáticas, topográficas e econômicas da região. As casas-sede, elemento central de cada fazenda, são frequentemente implantadas em pontos elevados do terreno, muitas vezes voltadas para o nascente, numa clara preocupação com a ventilação, a iluminação natural e a proteção contra as intempéries. Em outros casos, a implantação se dá em terrenos planos ou à frente de antigas estradas, revelando estratégias distintas de ocupação e circulação. Quase invariavelmente, essas casas assentam-se sobre sólidos alicerces de pedra, testemunho da busca por durabilidade em um ambiente marcado por extremos climáticos.
As paredes são, em sua maioria, autoportantes, construídas em tijolos, rebocadas e caiadas, com espessuras que chegam a quarenta centímetros nas paredes externas, enquanto as divisórias internas costumam ser mais delgadas. Esse sistema garante estabilidade térmica e estrutural, além de traduzir um saber construtivo transmitido ao longo de gerações. Em raras exceções, como na Fazenda Carnaúba de Baixo, registra-se o uso da taipa de mão, técnica mais arcaica e rústica, que remete aos primórdios da ocupação sertaneja. As coberturas seguem o modelo tradicional de duas águas, sustentadas por estrutura de madeira e com empena lateral, havendo variações como o telhado de arrasto. As telhas cerâmicas, muitas vezes originais, foram mantidas em diversas propriedades, seja por respeito à autenticidade, seja por reconhecer-se sua maior resistência aos ventos e ao tempo, como observado na Fazenda Vista Alegre.
Os pisos variam entre cimento queimado, tijoleira e, em alguns casos, pedra, refletindo tanto a época de construção quanto reformas posteriores. Um elemento recorrente e de grande interesse é a presença de sótãos, frequentemente dotados de pequenas janelas e, por vezes, com vestígios de escadas internas, além de paióis destinados ao armazenamento de grãos e produtos agrícolas. Mesmo em fazendas hoje reduzidas a ruínas, como a Cobra de Baixo, ainda se encontram caritós, testemunhos silenciosos da antiga dinâmica produtiva.
Essas fazendas configuravam-se como complexos multifuncionais, muito além da simples moradia. Ao redor da casa-sede gravitavam engenhos, casas de farinha, currais, armazéns, açudes, queijeiras, espaços para alimentação do gado e, não raro, oratórios domésticos, expressões da religiosidade entranhada no cotidiano rural. Os engenhos, quase onipresentes, variavam conforme a época e os recursos disponíveis, indo da tração bovina aos sistemas motorizados e, em casos notáveis como o da Fazenda Vapor, à utilização de caldeiras movidas a vapor para o beneficiamento do algodão, inovação tecnológica que acabou por nomear a própria propriedade. As casas de farinha, muitas vezes contíguas à residência principal, evidenciam a centralidade da mandioca na economia local, enquanto os currais e açudes reforçam a vocação pecuária e a constante preocupação com o armazenamento de água.
O estado de conservação das edificações apresenta um quadro heterogêneo, que vai do bom estado à ruína completa. Algumas fazendas, como Rolinha, Toco, Tapuia, Três Riachos, Vista Alegre, Pocinhos, Jerusalém, Cipó, Boa Vista, Curral Queimado, Malhada Vermelha, Caiçarinha, Pitombeiras, Quebra Perna, Umary, Pedreira, Pau Leite, Cachoeira e Ingá, mantêm-se relativamente bem conservadas, ainda que muitas tenham sofrido modificações ao longo do tempo. Outras encontram-se em estado regular, revelando sinais de desgaste, mas preservando boa parte de sua estrutura original. Há ainda aquelas em situação precária, como Ipueira, Almas de Cima e Carnaúba de Baixo, e as que chegaram à condição de ruína, a exemplo das fazendas Arroz, Apaga Fogo, Carneiro, Cobra de Baixo e Carnaúba, em Parelhas.
Do ponto de vista da preservação, observa-se um contraste significativo entre propriedades que, mesmo degradadas, mantêm sua configuração original, e aquelas profundamente modificadas ou descaracterizadas por reformas sucessivas. Em muitos casos, as intervenções envolveram alterações de fachadas, rebaixamento de cumeeiras, substituição de telhas, acréscimo de cômodos, implantação de banheiros, reforço de baldrames, troca de madeiramento e substituição de pilares de madeira por alvenaria. Cozinhas antigas e fogões a lenha foram demolidos para dar lugar a novas estruturas, engenhos foram modernizados, armazéns reaproveitados como garagens e, em situações extremas, edificações inteiras foram demolidas para a construção de novas casas, como ocorreu na Fazenda Carnaúba, em Parelhas. Algumas propriedades chegaram a ser adaptadas para usos completamente distintos, como a Fazenda Ramada, transformada em escritório de olaria.
O inventário também resgata aspectos históricos de grande relevância, lançando luz sobre a permanência de certas propriedades nas mesmas famílias por várias gerações, as datas de construção de diversas casas-sede e eventos marcantes ocorridos nesses espaços. Registra-se, por exemplo, o ataque de cangaceiros liderados por Olinto, conhecido como Novato, à Fazenda Rolinha em 1914, assim como o nascimento, nessa mesma propriedade, de figuras de destaque como Juvenal Lamartine de Faria e Clementino Monteiro de Faria. Outras narrativas preservam a memória de crimes, como o assassinato de Octávio Lamartine na Fazenda Ingá, de inovações tecnológicas, de botijas supostamente arrancadas das ruínas da Fazenda Arroz e de histórias pitorescas ligadas à mudança de nomes de propriedades, como a antiga Fazenda Urubu, rebatizada Rolinha por influência do Padre Rolin.
O uso atual dessas fazendas reflete as transformações sociais e econômicas do sertão contemporâneo. Muitas ainda servem de residência para proprietários ou moradores, outras permanecem fechadas ou desocupadas, algumas encontram-se abandonadas e poucas desempenham funções alternativas. Esse quadro evidencia tanto a resiliência quanto a fragilidade desse patrimônio, ameaçado pelo tempo, pelo abandono e pela falta de políticas efetivas de preservação.
Em seu conjunto, o Inventário de Edificações Tradicionais Rurais do Seridó constitui um documento de inestimável valor histórico e cultural. Ele revela a inteligência construtiva do sertanejo, a adaptação das formas arquitetônicas às exigências do clima e da economia, e as múltiplas camadas de memória inscritas nas paredes, nos telhados e nos espaços produtivos dessas velhas fazendas. Mais do que um catálogo técnico, o inventário configura-se como um retrato vivo da vida rural seridoense, onde arquitetura, trabalho, fé e história se entrelaçam, formando um legado que ainda hoje define a identidade profunda do Seridó.

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