Dom JOSÉ ADELINO DANTAS (1910/1983)

 



Figura de proeminência intelectual e espiritual nos sertões nordestinos, Dom José Adelino Dantas emergiu como um polímata cuja trajetória harmonizou o múnus episcopal com a investigação histórica e o cultivo das letras clássicas. Nascido na aurora de 17 de março de 1910, às onze horas da manhã, na povoação de Luíza — outrora Saco de Luíza, no município de Flores, hoje Florânia, sob a atual jurisdição de São Vicente —, era fruto da união entre Antônio Adelino Dantas e Jovelina de Oliveira Dantas. Sua ascendência remontava aos Azevedos-Dantas, estirpe que se enraizou nos territórios da Paraíba e do Rio Grande do Norte ainda no século XVIII, compondo uma numerosa progênie de dezesseis irmãos, dos quais doze lograram atingir a idade adulta. Batizado na Capela de São Vicente em abril de 1910 pelo padre Antônio Brilhante de Alencar, sua infância foi precocemente marcada pela tragédia em 1915, quando a morte do pai, decorrente de uma queda de cavalo, forçou a família à transmigração para o sítio Cabaço, em São Paulo do Potengi, em 1918.

Sua formação humanística e sacerdotal iniciou-se sob a tutela do irmão mais velho, Jacó Adelino, antes de ingressar no Seminário de São Pedro, em Natal, no ano de 1925, seguindo-se uma passagem pelo Seminário da Paraíba e o retorno à capital potiguar para os estudos de Filosofia e Teologia. Ordenado em 18 de fevereiro de 1934 sob as mãos de Dom Marcolino Dantas, celebrou suas primícias sacerdotais em Carnaúba dos Dantas, São Vicente e São Paulo do Potengi. O jovem clérigo revelou-se um latinista de brilho incomum, forjado na leitura assídua dos clássicos sob o estímulo do Cônego Luiz Monte, tornando-se um dos mais ilustres mestres do idioma do Lácio no estado. Sua ascensão na hierarquia católica foi célere: assumiu a reitoria do Seminário de São Pedro em 1935, foi nomeado Cônego Honorário de Belém do Pará em 1941, Monsenhor Camareiro do Papa Pio XII em 1951 e, finalmente, sagrado Bispo de Caicó em 1952. Sua atuação episcopal estendeu-se para além das fronteiras seridoenses, governando as dioceses de Garanhuns, em Pernambuco — onde substituiu o martirizado Dom Expedito Lopes em 1958 —, e de Rui Barbosa, na Bahia, da qual renunciou em 1975 para retornar ao seu solo natal como bispo emérito.

Como homem de letras, Dom Adelino foi o primeiro sacerdote a ocupar uma cadeira na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, a de número 22, sucedendo ao Cônego Luiz Monte e honrando o patronato de Leão Fernandes de Queiroz. Sua pena, descrita como castiça e vibrante, desdobrou-se em ensaios, poesias e obras de fôlego histórico, como A Formação do Seminarista e a seminal crônica Homens e Fatos do Seridó Antigo. Dotado de uma oratória sacra que evocava o perfume da Arcádia, ele não hesitou em esgrimir a dialética em defesa da fé, consolidando-se como um polemista invicto e professor universitário respeitado. Seus estudos biográficos resgataram vultos como o Patriarca Caetano Dantas Correia e o Padre Francisco de Brito Guerra, enquanto seu zelo documental legou um vasto acervo fotográfico, hoje custodiado pelo Museu Histórico Nossa Senhora das Vitórias. Faleceu em Natal, em 24 de março de 1983, vítima de um derrame cerebral, e seus restos mortais repousam, por sua vontade, na Capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Carnaúba dos Dantas, ao sopé do Monte do Galo, onde o eco de sua voz e de sua erudição permanece como marco indelével da cultura potiguar.


O excerto intitulado Homens e Fatos do Seridó Antigo, de autoria de Dom José Adelino Dantas, configura-se como uma vasta crônica histórico-documental dedicada à região do Seridó, com especial atenção à cidade de Caicó e ao seu entorno humano, religioso, político e cultural. A obra nasce do labor paciente de quem vasculha arquivos paroquiais, livros de óbitos, testamentos, escrituras e documentos eclesiásticos, com o propósito de restituir ao presente a memória profunda de uma terra forjada na aridez do sertão, mas fecunda em fé, trabalho e tradição. Não se trata apenas de uma narrativa factual, mas de um esforço consciente de reconstituição histórica, animado por um declarado amor à terra seridoense e pela convicção de que a história local é parte essencial da compreensão do destino coletivo do povo norte-rio-grandense.

O Seridó é apresentado como uma vasta porção do território do Rio Grande do Norte que, se no início abrangia apenas um município, veio a desdobrar-se em mais de uma dezena, muitos deles alcançando elevado índice de desenvolvimento econômico e cultural. Sua base de sustentação econômica, durante longo período, foi o algodão, sobretudo o algodão mocó, cuja fibra longa alcançou prestígio nacional e internacional, rivalizando com a célebre malvácea egípcia e conferindo renome industrial àquelas terras sertanejas. Contudo, para além da economia, o autor destaca o Seridó por outros aspectos considerados ainda mais decisivos: a ordem moral e religiosa, a unidade cristã de matriz católica, preservada desde os primórdios da ocupação, em grande parte atribuída à elevada estatura intelectual, espiritual e moral dos sacerdotes que atuaram como guias e condutores do povo.

Nesse contexto, ressalta-se a presença de figuras eclesiásticas de relevo, entre as quais o Padre Francisco de Brito Guerra, apontado como autêntico líder da vida norte-rio-grandense nos fins do período colonial e nos albores da independência nacional. O espírito seridoense, profundamente marcado pelo catolicismo, manifesta-se também no fato de a região ter dado à Igreja quatro bispos, nascidos em seu solo ou descendentes de famílias locais, todos empenhados no serviço do bem comum e da salvação das almas. Entre eles figuram Dom José de Medeiros Delgado, arcebispo de São Luís do Maranhão, Dom José Adelino Dantas, bispo de Oliveira, em Minas Gerais, e Dom Eugênio de Araújo Sales, bispo auxiliar de Natal.

Dom José Adelino Dantas, além de protagonista e testemunha de parte dessa história, assume o papel de autor e pesquisador. Bispo de Garanhuns e anteriormente bispo de Caicó, foi ele quem redigiu o prefácio e a introdução da obra, na qual se justifica pela ousadia de trazer a público crônicas que, poucos anos antes, haviam sido publicadas no modesto jornal local A Fôlha. Seu trabalho é impulsionado por um profundo sentimento de amor à terra mater seridoense e por uma clara consciência da urgência de remexer os arquivos regionais, a fim de deles extrair um manancial capaz de sustentar a reconstituição histórica do Seridó. Não ignora, entretanto, as dificuldades inerentes a tal empresa, sobretudo a escassez de documentos e os vazios documentais que criam zonas de silêncio quase intransponíveis, especialmente no que se refere aos primeiros curas e à organização inicial das paróquias.

A fundação de Caicó ocupa lugar central na narrativa, sobretudo por sua íntima ligação com a história da Matriz de Sant’Ana. Os livros de óbitos dessa paróquia, iniciados em 1788, figuram entre os mais antigos da região e são tratados pelo autor como verdadeiros repositórios da memória coletiva, comparáveis a um rebate antecipado de ressurreição, por trazerem ao presente a mensagem longínqua daqueles que já repousam no tempo. Nesses registros emerge a figura do sargento-mor Manoel Fernandes Jorge, identificado como o verdadeiro fundador de Caicó, cuja morte, ocorrida em 18 de setembro de 1789, aos noventa e oito anos, foi consignada em documento considerado de inestimável valor histórico.

A instalação da freguesia de Sant’Ana do Seridó, em 26 de julho de 1748, constitui marco fundamental na história local. Coube ao Padre Francisco Alves Maia proceder à instalação, acompanhada de solene procissão que culminou na escolha do local onde seria erguida a futura matriz, assinalado pela plantação simbólica de uma cruz de madeira. Um documento da mesma data, que alude expressamente ao lugar onde os fregueses haveriam de fundar a matriz, é considerado pelo autor de importância capital. Após examinar criticamente as fontes, Dom José Adelino Dantas conclui ser improvável a existência de qualquer capela em Caicó antes de 1748, reconhecendo a Matriz da Gloriosa Sant’Ana como a única igreja-mãe efetivamente documentada nos primórdios da povoação. Foi nesse espaço que, em 1773, se instalou a Irmandade do Rosário dos Homens de Cor, integrando-se à vida religiosa e social da freguesia.

A narrativa avança então para a descrição da penetração do sertão seridoense, iniciada nas últimas décadas do século XVII, cerca de vinte anos após a expulsão dos holandeses. As primeiras datas de terras registradas na Capitania do Rio Grande do Norte remontam a 1676 e revelam o movimento dos sesmeiros que, impulsionados pela expansão pastoril, adentraram o sertão em busca de novas paragens. As primeiras gerações que se estabeleceram no Seridó viveram quase exclusivamente do trabalho com o gado, moldando uma sociedade de base rural e fortemente vinculada à terra. A unidade étnica que se formou teve origem predominantemente portuguesa, com famílias oriundas de Pernambuco, Paraíba e Bahia, como os Araújo, Dantas, Azevedo, Medeiros, Nóbrega, Lopes Galvão, Garcia, Gomes de Melo e Batista, entre outras, que se entrelaçaram ao longo do tempo numa tecidura contínua de alianças matrimoniais, perpetuando nomes, memórias e tradições.

Os sacerdotes desempenharam papel relevante nesse processo de ocupação, não apenas como agentes espirituais, mas também como figuras de referência social. A presença de padres requerendo terras sugere, segundo o autor, que o burel missionário precedera a organização formal da propriedade, preparando o terreno espiritual antes da fixação definitiva. A primeira capela do Seridó provavelmente surgiu na primeira década do século XVIII, em Jardim das Piranhas, e em 1735 já se registra a doação de patrimônio e a licença para levantar e benzer uma capela devidamente paramentada.

As instituições religiosas, em especial as irmandades, ocupam lugar de destaque na estrutura social descrita por Dom José Adelino Dantas. A Irmandade das Almas de Caicó, fundada oficialmente em 1791, apresenta indícios documentais de existência desde 1769, sendo, portanto, anterior à do Rosário. Suas constituições, organizadas em onze capítulos, regulavam com minúcia a vida interna da confraria, desde as eleições até os encargos litúrgicos e o registro dos irmãos falecidos. Já a Irmandade do Rosário dos Homens de Cor, fundada em 16 de junho de 1771, destinava-se a homens e mulheres negros da freguesia de Sant’Ana, embora previsse que o cargo de tesoureiro fosse ocupado por um homem branco, considerado potente, temente a Deus e de sã consciência, revelando as tensões e hierarquias sociais do período. Suas atividades eram exercidas sob a vigilância direta do vigário, que intervinha nas eleições e nos atos da irmandade.

Entre os personagens notáveis evocados na obra, sobressai o Padre Francisco de Brito Guerra, apresentado como o maior norte-rio-grandense de seu tempo, primeiro mestre de Latim da região, deputado e senador do Império, comendador da Ordem de Cristo, visitador geral dos sertões de Pernambuco e fundador da imprensa provinciana. Sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro em 26 de fevereiro de 1845, marcou profundamente a memória seridoense, sendo celebrada, cem anos depois, como a de um homem que amou, humanizou e cristianizou Caicó, abrindo-lhe horizontes de fé, cultura e civismo. Educado no Seminário de Olinda, destacou-se como latinista, a ponto de lhe ser dedicado um poema latino laudatório, testemunho de sua erudição e prestígio intelectual. Longe de guardar para si a luz recebida nos centros pernambucanos, levou-a aos sertões, onde a fez frutificar.

Outro vulto de relevo é o patriarca Caetano Dantas Correia, nascido na Paraíba por volta de 1710 e considerado o mais ilustre dos patriarcas seridoenses. Chegado ao Seridó ainda jovem, aos dezessete anos, tornou-se o tronco fecundo da família Dantas na região, cuja seiva genealógica se espalhou de tal modo que se torna difícil delimitar sua extensão. Em reconhecimento à sua importância, foi erguido em sua homenagem, em 1957, um monumento em Carnaúba dos Dantas. Também se destaca o Padre Francisco Justino Pereira de Brito, discípulo da escola de Latim do Padre Guerra, que exerceu o sacerdócio por quase três décadas no Seridó e foi o primeiro vigário de Jardim do Seridó, bem como o Visitador Manoel José Fernandes, cuja atuação trouxe melhoramentos significativos à Matriz de Sant’Ana, impulsionou a construção da igreja do Rosário e contribuiu para o progresso material da cidade.

A obra não se esquiva de registrar episódios dramáticos da história local. Entre eles figura a tragédia ocorrida na década de 1830, envolvendo um casamento forçado, o assassinato de Ana Catarina da Anunciação e a posterior condenação à morte de seu marido e de dois escravos, executados em Caicó, num episódio que os livros de óbitos registram de forma lacônica, revelando o contraste entre a gravidade do fato e a sobriedade documental. Outro acontecimento marcante foi a passagem de Frei Caneca pelo Seridó, em 1824, no contexto da Confederação do Equador, quando seus homens acamparam em fazendas da região e entraram em Caicó sob aplausos, vistos como portadores da esperança de uma grande nação brasileira.

As secas, recorrentes e devastadoras, ocupam igualmente espaço significativo na narrativa. O autor lista extensos períodos de estiagem, com destaque para a calamidade de 1744 a 1746 e para a seca de 1845, considerada a mais pavorosa de todas, marcada por fome, indigência e degradação moral. O historiador sertanejo Manoel Antônio Dantas Correia é citado como testemunha do sofrimento humano e animal, interpretando tais flagelos como desígnios de uma sabedoria infinita, que tudo dispõe para o bem último de seus filhos.

Por fim, Dom José Adelino Dantas aborda a complexa questão dos limites territoriais entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, acirrada no início do século XIX pela criação da Vila do Príncipe e da Comarca de Natal. As disputas envolveram não apenas interesses civis, mas também demarcações eclesiásticas, como a criação da freguesia da Senhora da Guia dos Patos, desmembrada de Sant’Ana do Seridó. As decisões episcopais, os pedidos dos moradores e as indefinições geográficas revelam a fluidez das fronteiras políticas e convencionais, difíceis de fixar com precisão no sertão.

Ao longo de toda a obra, o autor evidencia sua intenção de resgatar do esquecimento os homens e fatos que moldaram o Seridó, lamentando a perda irreparável de documentos e processos canônicos que poderiam lançar mais luz sobre o passado. Seu trabalho se apresenta, assim, como um ato de devoção à memória coletiva, um esforço consciente de restituição histórica e uma homenagem duradoura à terra e às pessoas que, na dureza do sertão, construíram uma história marcada pela fé, pela resistência e pela permanência.

A obra Homens e Fatos do Seridó Antigo, de Dom José Adelino Dantas, bispo de Garanhuns, ergue-se como um dos mais rigorosos e sensíveis esforços de reconstrução histórica da região do Seridó potiguar, lançando luz sobre a formação de Caicó e de seu entorno a partir de uma leitura paciente e crítica dos documentos eclesiásticos, judiciais e administrativos que sobreviveram ao tempo. Movido pelo propósito claro de resgatar a memória regional e depurá-la das imprecisões da tradição oral quando esta não encontra amparo nos arquivos, o autor conduz o leitor por uma narrativa que alia erudição, espírito crítico e profundo respeito pela história sertaneja.

A fundação de Caicó ocupa lugar central nesse percurso. Amparado sobretudo no mais antigo livro de óbitos da Freguesia de Sant’Ana, Dom José Adelino Dantas identifica o sargento-mor português Manoel Fernandes Jorge como o fundador da povoação, estabelecendo de modo definitivo que o marco inicial da cidade coincide com a criação da freguesia, decretada em 15 de abril de 1748 e solenemente instalada em 26 de julho do mesmo ano. A paróquia e a cidade nascem juntas, como era comum no sertão colonial, sob a condução do primeiro cura, Padre Francisco Alves Maia, cuja presença inaugura uma longa sucessão de sacerdotes que não apenas celebraram os ofícios religiosos, mas também estruturaram a vida social, econômica e política da região.

Ao examinar a controvérsia em torno da igreja mais antiga de Caicó, o autor confronta versões correntes e demonstra, com base documental, que a Matriz da Gloriosa Sant’Ana sempre foi a verdadeira igreja-mãe da cidade. A capela do Rosário, embora profundamente significativa para a história social local, especialmente para a população negra, teria surgido posteriormente, inicialmente instalada na própria matriz, quando da criação da Irmandade do Rosário dos Homens de Cor, em 1771. Somente décadas mais tarde, em 1853, a igreja do Rosário ganharia edifício próprio, graças ao empenho do Visitador Manoel José Fernandes.

A narrativa evidencia de forma contínua o papel central do clero na colonização do Seridó. Os padres surgem como desbravadores, proprietários de terras, educadores e mediadores de conflitos, figuras cuja autoridade espiritual se confundia com liderança civil. A sucessão dos primeiros curas da freguesia de Sant’Ana revela não apenas a escassez de sacerdotes e a precariedade das comunicações, mas também a instabilidade documental que desafia o historiador. Entre eles despontam personagens de grande relevo, como o Padre Francisco de Brito Guerra, figura multifacetada e, segundo o autor, injustamente esquecida. Nascido em 1777, Brito Guerra foi vigário colado, visitador geral, educador, fundador da aula gratuita de Latinidade em Caicó, introdutor da imprensa provincial no Rio Grande do Norte e protagonista da vida política do Império, alcançando os cargos de deputado e senador. Seu sepultamento, relegado ao esquecimento por mais de um século, somente recebeu a devida reverência em 1945, quando seus restos mortais foram assinalados com uma lápide no altar de Sant’Ana.

Ao lado dele, o Visitador Manoel José Fernandes surge como exemplo de sacerdote que aliava fé, riqueza e ação prática. Irmão de Frei Miguelinho, destacou-se como um dos homens mais abastados do Seridó, liderou a construção da igreja do Rosário e, em seu testamento, revelou profunda devoção cristã ao determinar a libertação de seus escravos após a morte. Também merece atenção o Padre Justino Pereira de Brito, primeiro vigário de Jardim do Seridó, auxiliar direto do Padre Guerra e personagem cuja trajetória ganha contornos humanos com a reprodução de uma carta paterna comunicando-lhe a morte da mãe, documento simples e comovente que aproxima o leitor da intimidade dessas figuras históricas.

A obra dedica amplo espaço às irmandades religiosas, instituições fundamentais para a organização da vida comunitária. A Irmandade das Almas, já existente em 1769, antecede a do Rosário e revela uma estrutura devocional voltada ao culto dos mortos e à assistência mútua. Seus estatutos, preservados a partir de 1836, regulavam com rigor as obrigações dos irmãos e a celebração anual da festa. A Irmandade do Rosário dos Homens de Cor, fundada em 1771, expõe de forma clara a estratificação social do período. Embora destinada a homens e mulheres negros, exigia que o tesoureiro fosse branco, rico e de reconhecida probidade, o que revela tanto os limites impostos à população negra quanto os espaços de organização e identidade que ela conseguiu construir. A confirmação régia das constituições, publicada em Caicó em 1773, foi celebrada por uma assembleia em que quase todos assinaram com cruzes, testemunhando um mundo ainda marcado pelo analfabetismo, mas também pela intensa vida associativa.

No plano civil, a obra reconstrói a trajetória dos grandes patriarcas sertanejos, cujas famílias moldaram a elite rural do Seridó. Caetano Dantas Corrêa, chegado à região ainda jovem, em 1727, ascendeu de vaqueiro a grande proprietário de terras, deixou dezessete filhos e tornou-se símbolo da aristocracia rural. Sua morte, em 1797, marcou época, e sua memória foi celebrada, já no século XX, com monumentos erguidos em Acari e Carnaúba dos Dantas. A análise crítica das figuras homônimas de Tomaz de Araújo Pereira demonstra o cuidado do autor em distinguir personagens confundidos pela tradição, evidenciando como a falta de documentação clara pode gerar erros históricos persistentes.

As doações de terras para a edificação de capelas surgem como atos simultâneos de fé, prestígio e afirmação territorial. Em Jardim do Seridó, o Tenente Antônio de Azevedo Maia e sua esposa doaram, em 1790, extensas braças de terras para o patrimônio da capela da Conceição, escritura lavrada no próprio Seridó, contrariando versões anteriores. Em Currais Novos, o Capitão-Mór Cipriano Lopes Galvão e sua mulher, Vicência Lins de Vasconcelos, doaram meio sítio para a construção da capela de Sant’Ana, gesto que deu origem ao núcleo urbano local.

A narrativa não se esquiva de episódios trágicos e perturbadores, como o assassinato de Ana Catarina da Anunciação, em 1842, crime que abalou profundamente a Vila do Príncipe. O rigor do processo judicial, a condenação e execução dos escravos Camilo e Cordulina, e o posterior desfecho do caso revelam a face dura da justiça oitocentista e as tensões de uma sociedade escravocrata. Do mesmo modo, a passagem de Frei Caneca pelo Seridó, durante a Confederação do Equador, oferece um raro retrato de Caicó no início do século XIX, descrita como vila de casas novas, de pedra e cal, dispostas em círculo sobre uma chã, abastecida por poços que resistiam aos verões mais rigorosos.

A luta constante contra as secas atravessa toda a obra como pano de fundo trágico da história regional. Dom José Adelino Dantas compila um extenso roteiro das estiagens registradas ao longo de quase quatro séculos, descrevendo seus efeitos devastadores: fome, êxodo, epidemias e pragas que assolavam homens e rebanhos. Secas memoráveis, como a de 1790 a 1793 ou a de 1845, aparecem associadas a relatos pungentes de sofrimento coletivo, que ajudam a compreender a dureza do sertão e a resistência de seus habitantes.

Por fim, a questão dos limites entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba é analisada com atenção, mostrando como as fronteiras civis muitas vezes se definiam a partir da jurisdição eclesiástica. A controvérsia envolvendo a freguesia dos Patos e os moradores ligados a Caicó foi solucionada por despacho episcopal em 1790, decisão que, segundo o autor, selou de forma definitiva uma fronteira que uniu dois estados irmãos.

Assim, Homens e Fatos do Seridó Antigo se afirma como uma obra de memória, rigor e identidade. Ao confrontar lendas com documentos, ao dar voz aos arquivos silenciosos e ao reconstituir a vida de padres, patriarcas e comunidades inteiras, Dom José Adelino Dantas oferece não apenas um relato histórico, mas um testemunho profundo da formação espiritual, social e cultural do Seridó, onde a fé, a terra e a resistência humana se entrelaçam na construção de uma história singular do Nordeste brasileiro.

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