CORONEL KYVAL DA CUNHA MEDEIROS

 



A obra intitulada 'O Coronel Ambrósio Florentino de Medeiros (1852-1943) e sua descendência', elaborada pelo Coronel Kyval da Cunha Medeiros e publicada em São Paulo em novembro de 1945, inscreve-se no gênero da genealogia histórica como um verdadeiro monumento escrito à memória familiar, ad perpetuam rei memoriam

Longe de constituir mero catálogo de nomes e datas, o livro articula genealogia, território e valor, inserindo a trajetória de parte família 'Medeiros' no amplo processo de ocupação e consolidação, sobretudo, do Seridó paraibano e potiguar ocidental,  desde o século XVIII, quando a região ainda se encontrava sob a administração colonial e marcada por relações sociais de caráter patriarcal e profundamente hierarquizadas.

Kyval Cunha posicionado na parte central da fotografia escreve movido por um duplo impulso, que é o dever filial e o orgulho consciente de pertencer a uma das mais numerosas e influentes famílias do interior nordestino. Declara-se, desde as primeiras páginas, herdeiro autorizado dessa memória, assumindo a tarefa de ordenar, com rigor quase notarial, as gerações que precederam e sucederam o Coronel Ambrósio Florentino de Medeiros, figura principal do relato. 

A obra estrutura-se de modo progressivo, iniciando-se pela contextualização histórica e pela análise da ascendência, para, em seguida, desdobrar-se em sucessivas gerações de descendentes, compondo um vasto painel humano que atravessa séculos e fronteiras provinciais.

A genealogia do Coronel Ambrósio Florentino de Medeiros revela uma dupla matriz ancestral, ex patre et ex matre, que reflete a própria formação étnica e social do sertão. Pela linha paterna, os 'Medeiros Rocha' remontam a colonizadores portugueses oriundos da Ilha de São Miguel, nos Açores, entre os quais se destaca o Capitão Sebastião Afonso de Medeiros (1716-1810), que emigrou para o Brasil na primeira metade do século XVIII, tendo que alterar o nome para Sebastião de Medeiros Matos, fixando-se na região de Santa Luzia do Sabugi. 

Unido a Antônia de Moraes Valcacer (1720-1802), brasileira de ascendência indígena, deu origem a um ramo familiar no qual se mesclam herança luso-espanhola e sangue nativo, síntese característica da sociedade colonial seridoense. 

Dessa união descende o Capitão Sebastião de Medeiros Rocha (1760-1831), avô paterno de João Damasceno de Medeiros Rocha, nascido em Patos em 1791, casado com Dona Maria Joaquina dos Prazeres ou da Conceição (1783-1862), elo direto na cadeia genealógica que conduz ao Coronel Ambrósio.

A descrição retrocede ainda mais no tempo, rastreando a ramificação até Rodrigo Afonso de Medeiros (1634-1699), também natural de São Miguel, casado com Dona Maria Lopes de Fontes (1636-1709), casal apresentado como tronco originário de uma família que viria a ocupar posições de relevo na política, no clero e na magistratura do Sertão do Seridó. 

O autor não hesita em recuar até figuras quinhentistas, como Manoel Rodrigues da Rocha, armado cavaleiro em África no ano de 1515, e Bartolomeu de Frias Camêlo, integrando a história local a uma genealogia de longa duração, sub specie historiae, que confere nobreza simbólica ao grupo familiar.

Pela linha materna, o Coronel Ambrósio vincula-se aos 'Pereira da Costa', destacando-se a figura de Cosme Pereira da Costa, nascido em 1768 e falecido em 1865, homem descrito como dotado de rígidos princípios morais e cuja conduta deixou, segundo a tradição familiar, exemplos edificantes. 

Cosme Pereira exerceu cargos de grande prestígio, como Juiz Ordinário da Vila do Príncipe, Capitão-mor da Comarca da Paraíba e vereador eleito em 1814, sendo reconhecido como uma das pessoas mais ricas e respeitadas de seu tempo. 

Por essa via, Ambrósio torna-se bisneto de Dona Ana Teresa de Oliveira Vieira e trineto de Antônio de Azevedo Maia Júnior, personagem fundamental no processo de povoamento do Seridó, estabelecendo uma convergência genealógica notável: o Coronel Ambrósio e suas duas esposas, Joana Francisca Lins Fialho (1852-1884) e Laura Elísia da Cunha (1866-1950), descendem de um mesmo tronco ancestral, o casal Tomaz de Araújo Pereira (1701-1781)  e Dona Maria da Conceição Mendonça (1718-1779), o que revela a densidade das alianças familiares na região.

A história da família Medeiros confunde-se, assim, com a própria história da ocupação do sertão do Seridó. O livro dedica atenção especial à figura do Capitão Antônio de Azevedo Maia (1706-1796), pioneiro que se estabeleceu na Fazenda da Conceição, situada na confluência dos rios das Cobras e do Seridó, núcleo que viria a dar origem ao atual Jardim do Seridó. 

A obra transcreve documentos oficiais que atestam esse processo fundacional, como o requerimento dirigido ao bispo de Pernambuco em 20 de maio de 1790, solicitando licença para a construção de uma capela, a provisão episcopal de 10 de maio do mesmo ano autorizando a edificação sob a invocação de Nossa Senhora da Conceição, e, posteriormente, a concessão de sepultura perpétua de exceção, em 1809, para o fundador e sua família. Esses registros revelam a íntima associação entre religião, terra e poder simbólico na constituição das comunidades sertanejas.

O autor traça, a partir desses dados, um retrato social dos primeiros povoadores do sertão paraibano e potiguar, caracterizados como gente de origem lusitana, portadora de costumes austeros, profundo sentimento de honra pessoal e familiar e uma concepção patriarcal da autoridade doméstica, considerada absoluta e incontestável. 

Ao mesmo tempo, ressalta-se a hospitalidade como virtude essencial, estendida inclusive ao forasteiro desconhecido, e a honestidade como valor supremo, sintetizada na figura ideal do “Bom Sertanejo”. Segundo o autor, o Coronel Ambrósio herdou de seus avós essa matriz ética, mantendo ao longo da vida uma conduta irrepreensível, pautada pelo dever, pela lealdade e pela retidão moral.

Um dos aspectos mais celebrados da obra é a extraordinária prolificidade da família, entendida como sinal de vigor, continuidade e bênção. Desde Antônio de Azevedo Maia (1706-1796), cuja descendência já se mostrava numerosa, até o próprio Coronel Ambrósio, o crescimento do grupo familiar é apresentado como motivo de legítimo orgulho. 

Transferido para a Paraíba em 1920, já aos sessenta e oito anos, Ambrósio ali faleceu em 6 de dezembro de 1943, deixando, até essa data, uma descendência composta por vinte e dois filhos, cento e vinte e nove netos, cento e sessenta e três bisnetos e sete trinetos, totalizando trezentas e vinte e uma pessoas entre vivos e mortos. Essa gama humana é exaltada como patrimônio imaterial, expressão concreta da permanência da família no tempo, in saecula saeculorum.

O autor ilustra esse sentimento com uma anedota significativa, atribuída a Dona Alcidia Regalado Moreira Dias, esposa do Desembargador Manoel Sinval Moreira Dias, que, ao alcançar a condição de bisavó por intermédio de suas duas primeiras netas, teria exclamado: “Minha neta, dá-me os teus netos!”, empregando o plural como quem celebra a abundância da vida e a expansão do tronco familiar. A frase, incorporada ao texto, converte-se em símbolo da mentalidade genealógica que permeia toda a obra.

A segunda parte do livro apresenta-se como um inventário minucioso das cinco gerações descendentes do Coronel Ambrósio, organizado por ramos familiares e identificado por um sistema próprio de notação, no qual filhos, netos, bisnetos e trinetos são cuidadosamente enumerados, com indicação de datas, locais de nascimento, casamentos e óbitos. Trata-se de um esforço sistemático de preservação da memória, que transforma a genealogia em verdadeira arquitetura do tempo, onde cada nome ocupa um lugar preciso na cadeia das gerações.

Encerrando o trabalho, o autor apresenta as fontes utilizadas e presta agradecimentos àqueles que contribuíram para a pesquisa, entre historiadores, religiosos e parentes, reconhecendo que o trabalho genealógico é, por natureza, fruto de colaboração e confiança mútua. 

'O Coronel Ambrósio de Medeiros e sua descendência' afirma-se não apenas como registro familiar, mas como documento histórico de grande valor, capaz de iluminar os processos de povoamento, as estruturas sociais e os valores morais que moldaram o sertão do Seridó, revelando como a história do Brasil se construiu, em grande medida, a partir da ação persistente de famílias que fizeram da terra, do sangue e da memória os pilares de sua permanência.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

JOSÉ BEZERRA GOMES (1911/1982)

JOSÉ OZILDO DOS SANTOS