JOSÉ PIRES FERNANDES
O livro 'Relembrando o Passado', de autoria de José Pires Fernandes e Luiz G. M. Bezerra, constitui um vasto e cuidadoso compêndio dedicado à história, às personalidades e à genealogia da cidade de Acari, no Rio Grande do Norte, afirmando-se como obra de referência indispensável para a compreensão da formação social, cultural e familiar do Seridó.
Concebido a partir de anotações acumuladas ao longo do tempo e impulsionado por um sincero compromisso com a preservação da memória local, o trabalho nasce também de uma motivação filantrópica, assumindo-se, desde sua apresentação, como ponto de partida para investigações futuras mais amplas, capazes de despertar o interesse coletivo e reunir novos subsídios para uma obra de caráter enciclopédico sobre a cidade.
Na dedicatória, os autores oferecem o livro às esposas e aos filhos, reconhecendo-os como companheiros constantes nas horas fáceis e difíceis, enquanto o prefácio, assinado por Celestino Alves, destaca a obra como um verdadeiro desfile de personalidades da terra e das famílias que moldaram o Seridó, ressaltando a complexidade inerente à pesquisa das origens familiares em uma região marcada pela interligação profunda entre clãs tradicionais como Rodrigues, Pereira, Fernandes, Garcia, Araújo, Pires, Medeiros, Lopes Galvão, Bezerra, Dantas e Azevedo.
A apresentação revela que a iniciativa se consolidou após a visita dos autores ao Abrigo dos Velhinhos Acarinenses e diante da constatação do abandono da casa natal de Dom Eugênio de Araújo Sales, circunstâncias que reforçaram o sentimento de urgência quanto ao resgate da memória histórica local.
A obra estrutura-se de maneira clara e orgânica, iniciando-se com uma ampla crônica histórica de Acari, prosseguindo com um extenso conjunto de biografias de personagens que se destacaram na vida social, política, cultural e econômica da cidade, e culminando em um denso estudo genealógico das famílias fundadoras e de seus múltiplos entrelaçamentos.
No primeiro segmento, estabelece-se o contexto histórico e geográfico da região do Seridó, cujo povoamento se iniciou no final do século XVII, culminando na emancipação administrativa em 31 de julho de 1788, com a criação da Vila Nova do Príncipe, atual Caicó.
O texto detalha a origem do topônimo Acari, associado ao antigo Poço do Felippe, no rio Acauã, local conhecido pela abundância do peixe “ascari”, ponto de parada de viajantes e núcleo embrionário de povoamento já em 1720.
A diegese acompanha o avanço da ocupação entre os anos de 1718 e 1743, período marcado pela instalação de fazendas de gado por pioneiros portugueses e pernambucanos, entre os quais se destacam Nicolau Mendes da Cruz, o sargento-mor Manuel Esteves de Andrade, Caetano Dantas Correia (1710-1797) e Thomaz de Araújo Pereira (1701-1781).
A fundação de Acari é atribuída a Manuel Esteves de Andrade, que em 1722 estabeleceu a Fazenda Pesqueiro, na confluência dos rios Seridó e Cobra, sendo a construção da capela dedicada a Nossa Senhora da Guia, iniciada em 1735 e benta em 1738, o marco central da formação do núcleo urbano.
O processo de consolidação institucional é descrito com rigor documental, abrangendo a criação do município em 1833, sua instalação e confirmação legal nos anos subsequentes, a criação da freguesia, a organização judiciária, a implantação dos serviços de comunicação e a modernização progressiva da infraestrutura urbana.
Aspectos físicos e climáticos da cidade são apresentados, assim como os meios de transporte e a presença de instituições bancárias, compondo um retrato detalhado do espaço urbano e de sua funcionalidade ao longo do tempo. A memória histórica é preservada também por meio da descrição de monumentos e homenagens públicas, bem como pelo registro de episódios de bravura cívica, como o confronto de 1832 contra o rebelde Joaquim Pinto Madeira e a participação de filhos da terra na Guerra do Paraguai.
O segundo grande eixo da obra dedica-se às biografias de dezenas de personalidades acarienses, compondo um verdadeiro panteão local. Os perfis seguem um padrão minucioso, reunindo informações sobre nascimento, filiação, formação, trajetória profissional, atuação política ou cultural, vida familiar e descendência.
Sobressaem-se figuras como o músico e compositor Antônio Pedro Dantas, o administrador visionário Antônio Basílio de Araújo, o comerciante e líder cultural Antônio Bezerra de Araújo Fernandes, o político e educador Aurino Pires Fernandes, responsável pela construção da Barragem Gargalheiras, o aviador militar Hortêncio Pereira de Britto, cuja carreira se projetou nacionalmente, o engenheiro e prefeito Otávio Lamartine de Faria e o chefe político Silvino Bezerra de Araújo Galvão, personagem emblemático da história política local.
A parte final da obra constitui um extenso e rigoroso estudo genealógico, no qual os autores enfrentam as dificuldades impostas pela perda de registros paroquiais e civis antigos, explicando os critérios metodológicos adotados e a complexidade da investigação onomástica.
A análise parte de Thomaz de Araújo Pereira, considerado o primeiro tronco genealógico examinado, e desenvolve-se por gerações sucessivas, revelando as densas redes de parentesco que unem famílias como Araújo, Pereira, Medeiros, Galvão, Dantas, Bezerra, Vasconcelos e Bitencourt. Árvores genealógicas, linhas de ascendência e descendência e perfis familiares específicos demonstram como esses laços moldaram a estrutura social do Seridó ao longo dos séculos.
Encerrando o volume, a chamada “Página da Saudade” reúne nomes e datas de nascimento e falecimento de numerosos acarienses sepultados no cemitério local, funcionando como um memorial coletivo e reafirmando o caráter afetivo e comunitário da obra. Amparado por sólida bibliografia, que inclui clássicos da historiografia potiguar e estudos fundamentais sobre o Seridó, Relembrando o Passado ultrapassa o mero relato histórico para afirmar-se como um ato consciente de preservação da memória coletiva, oferecendo às gerações presentes e futuras um retrato profundo da identidade acariense e de suas raízes familiares.
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