O lançamento do livro dedicado à cultura e à história do Seridó, realizado no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, configurou-se como um momento de celebração da memória regional e de reflexão profunda sobre as raízes que moldaram a identidade seridoense. A obra, fruto de um esforço coletivo da Associação Sertão Raízes Seridó, nasce do compromisso de resgatar valores, preservar tradições e enfrentar o crescente distanciamento das novas gerações em relação às suas origens históricas e culturais. Ao longo do encontro, os palestrantes destacaram que o livro não se pretende uma síntese definitiva, mas antes o início de um percurso, um convite aberto ao aprofundamento dos estudos e ao reencontro da sociedade potiguar consigo mesma, sobretudo de sua juventude, tantas vezes privada do conhecimento de sua própria história em razão de currículos escolares voltados quase exclusivamente para conteúdos de alcance nacional. A obra surge, assim, como instrumento de autoconhecimento e de valorização identitária, fundada na convicção de que ninguém pode amar aquilo que não conhece. Um dos pontos altos da apresentação foi a leitura simbólica da capa, pintura de Mocó, também conhecido como Murinho Rasmussen, escolhida por traduzir, com rara sensibilidade, o quintal da infância sertaneja, espaço onde o cotidiano e a memória se entrelaçam. Cada elemento ali retratado carrega um significado próprio: o retrato antigo pendurado na parede remete à tradição de reverenciar antepassados; o piso de ladrilho hidráulico evoca o chão das casas sertanejas e denuncia níveis distintos de condição material; o queijo marcado a ferro afirma a centralidade do gado e da identidade familiar; os chinelos de couro lembram o passo firme do vaqueiro; a janela aberta revela a paisagem verde após a chuva, com o relevo emblemático do Seridó ao fundo; a lamparina, a bacia d’água e as flores nativas testemunham a economia dos recursos e a delicada relação com o tempo das águas; até mesmo a lagartixa gorda, imóvel atrás da janela, sinaliza o período de fartura que sucede as chuvas. No plano histórico, o livro recupera camadas fundamentais da formação do Seridó, trazendo à luz influências longamente silenciadas, como a indígena e a judaica. Ressaltou-se que a história do Rio Grande do Norte foi marcada pelo violento extermínio das populações nativas, episódio frequentemente minimizado nos relatos oficiais, e que, apesar desse apagamento, o legado indígena permanece vivo em costumes cotidianos, como o uso da rede, a prática frequente do banho e a alimentação à base da tapioca, além de se refletir na constituição física e étnica da população. Do mesmo modo, foi destacada a presença dos cristãos-novos, que encontraram no sertão um refúgio contra a perseguição inquisitorial e deixaram como herança uma cultura profundamente marcada pelo valor do trabalho, pela organização familiar e por hábitos que, muitas vezes de forma dissimulada, atravessaram gerações, sobrevivendo no cotidiano sob novas roupagens. A espinha dorsal dessa civilização sertaneja foi, contudo, o ciclo do gado, responsável por ordenar a economia, a ocupação do território e as relações sociais. Criado solto nos primórdios, o gado impulsionou a interiorização da colonização e, com a introdução do algodão, exigiu a demarcação das terras e a construção das cercas de pedra, traço ainda hoje emblemático da paisagem seridoense. Desse sistema derivaram formas específicas de trabalho e de remuneração, como a terça, a quarta e a meação, que estruturaram vínculos entre proprietários e trabalhadores. Nesse contexto emergiram os chamados “mourões”, líderes naturais das comunidades, cujo nome, tomado do pilar central das porteiras e currais, simboliza força, estabilidade e comando. Em tempos de ausência efetiva do Estado, esses chefes sertanejos impunham a ordem, mediavam conflitos e estabeleciam códigos de conduta, tornando-se referências morais e sociais de suas terras. A concepção editorial do livro também foi apresentada como parte essencial de sua mensagem, com escolhas que dialogam diretamente com a tradição regional, como o uso dos ferros de marcar gado para assinar os capítulos, numa espécie de heráldica sertaneja que honra as marcas avoengas das famílias, além da tipografia ampliada, do papel em tom amarelado e da preservação das fotografias antigas com suas marcas do tempo, reafirmando o valor da autenticidade histórica. O volume é enriquecido por textos literários e ensaísticos que ampliam sua densidade simbólica e afetiva, bem como por um ensaio fotográfico que revela o Seridó em cores, ressaltando sua beleza muitas vezes inesperada. Ao longo do evento, a evocação de costumes e tradições reforçou a importância da memória afetiva como elemento constitutivo da identidade regional, desde as conversas de alpendre ao cair da noite, passando pela relação quase sagrada com a água e com os açudes, até saberes práticos transmitidos no cotidiano, capazes de distinguir o filho da terra do forasteiro. A reflexão final destacou a leitura como ato de cocriação, em que o texto oferece espaços em branco a serem preenchidos pelas experiências, lembranças e emoções de cada leitor, fazendo com que cada encontro com o livro seja único. Assim, a obra apresentada no IHGRN afirma-se não apenas como registro histórico, mas como convite sensível ao reencontro com o Seridó vivido, herdado e reinventado na memória de cada um.
JOSÉ BEZERRA GOMES (1911/1982)
José Bezerra Gomes (1911–1982) ocupa lugar singular na literatura e na cultura potiguar, como uma das vozes mais densas e complexas do regionalismo nordestino do século XX. Sua trajetória intelectual articula ficção, memória e crítica social, compondo um testemunho profundo do Seridó em transição, atravessado pelas tensões entre tradição e modernidade, entre o mundo patriarcal rural e as promessas, muitas vezes frustradas, da vida urbana. Inserido no contexto do chamado Regionalismo de 30, ao lado de nomes como José Lins do Rego e Raquel de Queiroz, Bezerra Gomes construiu uma obra que, embora relativamente breve, revela grande densidade humana, estilística e histórica, marcada por uma permanente oscilação entre a memória da terra natal e o sentimento de desenraizamento existencial. Natural de Currais Novos, filho de Napoleão Bezerra de Araújo Galvão e de Veneranda Bezerra de Araújo Galvão, descendia de uma das famílias tradicionais do Seridó. A infância vivida no sertão, e...
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