JOSÉ NILTON DE AZEVEDO

 A obra póstuma 'Vultos Populares de Jardim do Seridó', do Professor José Nilton de Azevedo, constitui um esforço historiográfico singular e profundamente humano voltado à preservação da memória social de Jardim do Seridó, ao deslocar o eixo da narrativa histórica das datas oficiais e das elites tradicionais para a experiência concreta do povo simples, trabalhador e, muitas vezes, marginalizado pela historiografia convencional. 

Trata-se de um livro que reconhece como sujeitos da história aqueles que viveram à margem do poder formal, mas no centro da vida cotidiana, compondo, com seus gestos, ofícios, crenças e excentricidades, a identidade cultural do município. A obra revela uma concepção de história ancorada na vivência popular, marcada por adversidades materiais, intensa religiosidade, imaginário folclórico e pela preservação dos costumes sertanejos que moldaram a vida coletiva ao longo do tempo.

José Nilton de Azevedo apresenta-se, ao longo de sua trajetória, como um intelectual orgânico da comunidade jardinense, cuja atuação ultrapassou os limites da sala de aula. Professor, historiador, escritor e integrador social, exerceu funções diversas ao longo da vida, transitando por atividades em empresas privadas, pela condução de uma microempresa de serigrafia, por um escritório de contabilidade e por ofícios manuais como desenhista, pedreiro e marchante. 

Sua passagem pela Secretaria Municipal de Educação de Jardim do Seridó reforça o compromisso com a formação cultural e cidadã da população. Essa dinâmica de experiências confere densidade à sua visão historiográfica, fundamentada na convicção de que a história não se resume aos feitos das elites nem às falas institucionais, mas se constrói no cotidiano dos homens e mulheres comuns, em suas lutas, alegrias, contradições e modos de viver. 

Sua missão declarada era retirar do anonimato aqueles que, embora invisibilizados pelos registros oficiais, foram essenciais à construção social da cidade.

Nesse sentido, 'Vultos Populares de Jardim do Seridó' dá continuidade e aprofundamento ao projeto iniciado em 'Um Passo a Mais na História de Jardim do Seridó', configurando-se como seu segundo grande trabalho historiográfico, publicado postumamente como homenagem à memória do autor. 

A obra nasce da consciência de que a memória local corre sério risco de apagamento diante do afastamento progressivo das tradições e da modernização dos costumes. O livro propõe-se, assim, a registrar os “passantes” da história, personagens que marcaram época nas feiras, nos comícios, nas festas religiosas e nas esquinas da cidade, compondo um retrato vivo da sociabilidade sertaneja. 

Jardim do Seridó surge descrita como uma comunidade rica em valores humanos, cuja formação histórica não se deu apenas por atos oficiais, mas sobretudo pela ação cotidiana de pessoas simples que acompanharam sua transformação de fazenda em povoado e, posteriormente, em cidade.

A abordagem adotada pelo autor caracteriza-se por um realismo deliberado, que evita a idealização excessiva dos personagens retratados. Os vultos populares são apresentados em sua inteireza humana, com virtudes e fragilidades, incluindo vícios, linguajar rude, comportamentos controversos e trajetórias marcadas por sofrimento, loucura ou marginalidade. 

Essa escolha confere autenticidade ao relato e reafirma o compromisso ético com a verdade histórica, entendida não como pureza moral, mas como fidelidade à experiência vivida.

O conjunto de personagens retratados forma uma galeria heterogênea que espelha a complexidade social da cidade. Muitos deles representam a resiliência diante de uma economia rudimentar e excludente, como Ana Miranda, rezadeira de fama que, após a perda trágica do filho, enfrentou a mendicância e a loucura; André de Bela, tropeiro e agricultor, profundamente envolvido com a política liberal e marcado por peregrinações a pé até Canindé; Antônio Baixinho, marceneiro, mestre de obras e tropeiro, conhecido por suas narrativas hiperbólicas; Cabra João, vendedor de pão e jogador de bicho; Cícero Teixeira, trabalhador braçal de grande força física e reconhecida honestidade; e Ducilo, fogueteiro e cambista, cuja vida se entrelaçou às festas religiosas da cidade.

Ao lado dessas figuras laboriosas, emergem personagens excêntricos e folclóricos que habitaram o imaginário coletivo jardinense, como Estevinho, peregrino de origem desconhecida, que dormia em espaços públicos; Jamil Doido, homem de família tradicional, cuja loucura era atribuída ao excesso de estudos; Maria de Berimbeu, mulher em estado permanente de debilidade mental; Manoel Telo, repentista errante que respondia às provocações com versos afiados; e Coringa, ex-soldado da polícia, temido por seu comportamento agressivo e autoritário. Essas figuras, longe de serem meras curiosidades, revelam as fronteiras tênues entre normalidade e exclusão social, razão e desrazão, ordem e desvio.

A religiosidade popular ocupa lugar central na obra, representada por curandeiros e rezadores que exerciam papel fundamental na vida comunitária, atendendo às necessidades físicas e espirituais da população. 

Antônio Vicente, após cumprir longa pena por crime passional, tornou-se rezador respeitado; Manoel Chicotinho destacou-se no tratamento de enfermidades segundo as crenças populares; e Maria Prima, rezadeira de grande credibilidade, recebia alimentos em troca de suas orações. Essas práticas revelam um sistema simbólico no qual fé, cura e solidariedade se articulam como formas de enfrentamento das adversidades da vida sertaneja.

A dimensão cultural e literária da obra manifesta-se ainda pelo uso do verso, do cordel e da poesia como instrumentos legítimos de registro histórico. Episódios como o da chamada “Fonte dos Milagres”, narrado em versos por Severino Rodrigues, ilustram a força da oralidade e da crença popular, ao mesmo tempo em que evidenciam o diálogo entre mito e racionalidade científica. 

Figuras como Raymundo de Velho, autodidata conhecedor de línguas clássicas e amante de charadas e palíndromos, e a poesia de Nicy Azevedo, que glosou a vida de diversos vultos populares, reafirmam a presença de uma inteligência popular sofisticada, muitas vezes subestimada.

Ao final, 'Vultos Populares de Jardim do Seridó' revela que a verdadeira força da cidade reside na diversidade de sua gente. A obra de José Nilton de Azevedo assume o papel de guardiã da memória coletiva de uma época em que a vida era pautada pela subsistência, pela crença popular e pelas relações humanas tecidas nas feiras, nas ruas e nos espaços públicos. 

Os personagens registrados, transitando entre o trágico e o cômico, o sagrado e o profano, compõem um quebra cabeça humano que define o espírito do Seridó potiguar e reafirma que a história, em sua dimensão mais profunda, é feita sobretudo pelas pessoas comuns que deram sentido ao cotidiano.

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