DR. PAULO BEZERRA BALÁ (1933-2017)
A obra Novas Cartas dos Sertões do Seridó, de Paulo Bezerra - o Paulo Balá - apresenta-se como uma realização literária e etnográfica de grande fôlego, construída sob a forma epistolar e orientada pela memória, pela observação sensível e pela experiência vivida no sertão do Rio Grande do Norte.
Trata-se de uma coletânea de cartas-crônicas que transcendem a comunicação pessoal para se afirmarem como registro histórico, cultural e humano de uma região marcada por saberes ancestrais, práticas tradicionais, religiosidade profunda e transformações graduais impostas pelo tempo. Inserida conscientemente na longa tradição do gênero epistolar, a obra dialoga com fundamentos clássicos da escrita de cartas, recuperando sua densidade estética, sua função documental e sua capacidade singular de articular subjetividade e testemunho coletivo.
Desde suas raízes mais remotas, a carta se constitui como uma das mais antigas formas de registro do homem letrado, sendo definida por Cícero como um verdadeiro “diálogo de ausentes”. Essa concepção atravessou séculos e consolidou-se como base teórica e retórica do gênero, que herdou da oratória clássica seus princípios de clareza, persuasão e beleza formal.
A tradição epistolar floresceu tanto no mundo greco-romano, com autores como Cícero e Sêneca, quanto na cultura cristã primitiva, quando as epístolas desempenharam papel central na difusão de doutrinas e narrativas fundadoras. Ao longo da Idade Média e da Renascença, essa prática foi sistematizada em tratados fundamentais, como o Rationes Dictandi, do Anônimo da Escola de Bolonha, a Brevissima Formula, de Erasmo de Rotterdam, publicada em 1520, e a Epistolica Institutio, de Justo Lípsio, de 1590, que fixaram modelos estruturais e estilísticos para a redação epistolar.
Com o tempo, a carta deixou de ser apenas um meio privado de comunicação e assumiu estatuto literário pleno, tornando-se instrumento privilegiado para o registro do cotidiano, dos hábitos, dos costumes e das tradições. Nesse processo, consolidou-se como fonte indispensável para a etnografia e para a história cultural, sem perder sua dimensão estética.
A literatura universal oferece numerosos exemplos dessa expansão, com correspondências que se converteram em obras fundamentais, escritas por autores como Padre Antônio Vieira, Machado de Assis, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Guimarães Rosa, James Joyce, Gustave Flaubert, Fernando Pessoa, Goethe e Hermann Hesse, confirmando a plasticidade e a longevidade do gênero.
No Brasil, e de modo particular no Rio Grande do Norte, a carta encontrou terreno fértil para se desenvolver como forma literária e documental. Desde o final do século XIX, o gênero epistolar potiguar consolidou-se como um dos mais expressivos do Nordeste, refletindo a necessidade de registrar, em linguagem íntima e direta, a vida sertaneja e litorânea.
Henrique Castriciano, escrevendo sob o pseudônimo de José Braz, é reconhecido como pioneiro dessa tradição, ao produzir crônicas epistolares marcadas pela ironia, pela coloquialidade e pelo olhar crítico sobre os costumes provincianos.
Na mesma vertente, destacam-se conjuntos epistolares fundamentais, como as Sertanejas, de Eloy de Souza, com anotações de Raimundo Nonato e Francisco das Chagas Pereira, e as diversas séries das Cartas da Praia, que constituem vastos inventários etnográficos do sertão e do litoral potiguares.
É nesse horizonte literário e cultural que se inscrevem as Novas Cartas dos Sertões do Seridó, as quais não apenas dão continuidade a essa tradição, mas a ampliam de modo decisivo. Paulo Bezerra não escreve como observador distante; sua escrita nasce da vivência direta, da memória partilhada e da intimidade com o território e com as pessoas que o habitam.
Sua obra realiza aquilo que pode ser definido como uma etnografia afetiva, na qual o rigor do registro histórico se combina à sensibilidade do narrador que pertence ao mundo que descreve. Essa dimensão interior distingue suas cartas e lhes confere densidade singular, transformando-as em verdadeiro monumento da etnografia brasileira.
A voz de Paulo Bezerra, conforme celebrada por Jessier Quirino, emerge como autenticamente sertaneja, marcada por franqueza, lealdade e profunda familiaridade com os códigos culturais do Seridó. Seu estilo, simultaneamente didático e poético, organiza a oralidade sertaneja dentro de uma estrutura literária consciente, elevando o coloquial à condição de arte.
As cartas percorrem uma ampla gama de temas que revelam a complexidade da vida sertaneja, desde práticas rurais tradicionais, como a castração de animais e a construção de cacimbas no leito seco dos rios, até descrições minuciosas da arquitetura da casa de taipa, com seus materiais, divisões internas e funções sociais.
A religiosidade e o sincretismo ocupam lugar central nesse universo narrativo, manifestando-se em práticas como o pedido de bênção aos mais velhos, entendido como elo simbólico entre gerações, e nos costumes relacionados à sepultura de crianças não batizadas, expressão de crenças antigas sobre o pecado original.
As festas populares, como a tradicional Festa de Agosto, surgem como espaços de sociabilidade, lazer e transgressão controlada, com seus jogos, diversões e rituais coletivos. O futebol, introduzido em Acari por volta de 1922, é retratado como símbolo de modernidade e integração social, desde os primeiros jogos improvisados até partidas memoráveis, como a de 1949.
A memória histórica ocupa papel estruturante nas cartas, sobretudo na reconstrução da grande seca de 1904, cuja cronologia é reconstituída mês a mês a partir de anotações de João Rafael Dantas (1888-1975), revelando o avanço da fome, o êxodo, a morte do gado e a persistência de uma esperança frágil pela chuva.
Episódios políticos também são registrados, como as visitas de figuras nacionais ao sertão, entre elas Washington Luís, em 1926, Getúlio Vargas, em 1932, o brigadeiro Eduardo Gomes, em 1950, evidenciando as formas de contato entre o poder central e o interior nordestino.
As cartas dedicam atenção especial aos personagens que povoam o imaginário popular, sejam homens e mulheres dotados de saberes específicos, como Dona Izabel, conhecida por sua “reza forte”, sejam figuras envoltas em mistério, como Inácio Antonino e sua experiência com o sobrenatural.
Até mesmo os animais ganham estatuto de personagens históricos, como cavalos, mulas e burros célebres, cuja memória é preservada como parte indissociável da vida rural. A natureza, por sua vez, é apresentada não apenas como cenário, mas como agente ativo da história, seja no simbolismo de um pé de jasmim-laranja que atravessa gerações, seja na importância vital do xiquexique como recurso de sobrevivência durante as grandes secas.
Ao registrar a evolução dos meios de transporte, do cavalo e da burra de sela aos automóveis, caminhões e ônibus escolares, Paulo Bezerra documenta as profundas transformações do sertão, sintetizadas na constatação de que “o sertão mudou”, sem que isso signifique o apagamento de sua memória.
Destarte, as Novas Cartas dos Sertões do Seridó afirmam-se como um testemunho literário de alta relevância historiográfica. Ao articular tradição clássica, memória oral, experiência vivida e sensibilidade poética, Paulo Bezerra transforma a carta em instrumento privilegiado de preservação cultural.
Sua escrita guarda a linguagem, os costumes, os saberes e a alma do Seridó, oferecendo às gerações futuras um registro duradouro de uma civilização sertaneja que, embora sujeita às transformações do tempo, permanece viva na memória e na palavra.

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