Celestino Alves (1929-1991) foi um escritor e pesquisador incansável, com uma produção literária que abrangeu diversos gêneros, incluindo poesia, prosa, cordel e composição popular. Seu trabalho reflete uma visão profunda de sua região, abordando temas líricos, culturais, sociais e, de forma abundante, religiosos, manifestando uma fé inabalável em Cristo. Nos temas socioculturais, ele trouxe à tona questões como a violência, o flagelo da seca e a tradição da vaquejada. Viveu intensamente sua identidade nordestina, e os desafios de sua terra natal, o Nordeste, sempre foram uma preocupação central. Ele acreditava que uma verdadeira transformação no cenário de vida da população só seria possível por meio de ações sociais e políticas eficazes.

Além de sua prolífica carreira artística, Celestino Alves se destacou por sua notável trajetória pessoal e profissional. Foi um marido dedicado, mantendo um casamento honroso com Rosilda, e um pai exemplar, criando seus 15 filhos e transmitindo a eles um legado de integridade. Em suas funções públicas, agiu sempre com bom senso e objetividade, defendendo os mais "desamparados da sorte". Como autodidata e grande pesquisador da cultura do sertanejo, tinha uma visão progressista, refletida em seus pronunciamentos e escritos. Entre as muitas atividades que assumiu, foi presidente da Associação Estadual de Poetas Populares do Rio Grande do Norte (AEPP) em 1988 e exerceu cargos como Guarda Fiscal e funcionário federal. Atuou também como mestre de obras em Brasília e como vereador na Câmara Municipal de Currais Novos entre 1967 e 1971.

Na imprensa, foi comentarista agrícola e econômico na Rádio Ouro Branco por oito anos, participando do programa "Domingo Total", e se tornou um dos mais bem-sucedidos âncoras das vaquejadas na cidade. Enquanto vereador, apresentou inúmeros requerimentos para a melhoria das condições de vida da população de Currais Novos, que passava por um elevado crescimento urbano impulsionado pelo auge da mineração. Suas obras literárias, ricas em detalhes e baseadas na história oral e em seu próprio testemunho, demonstram a maestria com que abordava os fatos. Ele escreveu quatro livros em prosa: O Nordeste e as Secas (1983), Retoques da História de Currais Novos (1985), Vaqueiros e Vaquejadas (1986) e Matutos e Tropeiros (1989).

Ainda na literatura, produziu diversos folhetos, com destaque para homenagens a ícones da identidade nacional, como "O menestrel do Seridó - Dinarte Mariz". Sua maestria na criação de versos também se manifestou na literatura de cordel. Em seu poema Seca, ele evoca um clima de perseverança — comparando a resiliência humana aos cactos em tempos de seca — que contrasta com a melancolia do ambiente hostil. Diante da tragédia da falta de chuva, o poema se inicia com uma reflexão profunda e incontida voltada para Deus. Celestino Alves faleceu em 1991, aos 62 anos, após enfrentar problemas de saúde nos últimos dois anos de sua vida. Seu legado também se estende à política, sendo pai de Maria Aparecida Alves Othon, conhecida popularmente como "Dadá do Hospital", vereadora em Currais Novos/RN.

A seguir, apresento a reescrita contínua, fluida, histórica e inteiramente adequada à norma culta, sem títulos ou interrupções, preservando integralmente todas as informações fornecidas.


A história de Currais Novos constitui uma notável trajetória de evolução social, econômica e administrativa, iniciada em uma modesta fazenda de gado e transformada, ao longo dos séculos, em um dos mais importantes centros do Seridó potiguar. Sua formação foi moldada por forças fundamentais — a fé como núcleo agregador, a família como base do poder político, a adaptação econômica da pecuária à mineração e a forte personalidade de seus líderes —, aspectos que Celestino Alves, após mais de três décadas de pesquisa em arquivos e junto aos “sacrários humanos” do sertão, reuniu em sua obra Retoques da História de Currais Novos, fonte primária deste relato.

O nome “Currais Novos” surgiu de uma designação funcional que se impôs ao longo do tempo. Por volta de 1760, o Coronel Cipriano Lopes Galvão, próspero criador de gado da Fazenda Totoró, construiu uma nova casa e amplos currais nas pastagens situadas na confluência dos rios São Bento e Totoró, local que chegou a denominar Fazenda Bela Vista. Contudo, vaqueiros e tropeiros passaram a referir-se ao sítio apenas como o lugar “dos currais novos”, e a expressão se consolidou como nome do futuro povoado. O Coronel Cipriano, filho do Coronel Cipriano Lopes Pimentel e natural do Sítio Catolé, em Goianinha, fixou-se na região muito antes de legalizar a posse das terras em 1754. Sua presença está na origem do núcleo que viria a constituir a cidade.

A personalidade do fundador e a força de espírito de sua esposa, Dona Adriana Lins de Olanda, são ilustradas por um episódio preservado pela tradição oral. Após casar-se com o Coronel em Recife, ela recusou-se inicialmente a acompanhá-lo ao sertão. Três anos depois, arrependida, aceitou regressar, mas impôs como condição que um escravo levasse um pote de água fresca, pois se recusava a beber a “água de borracha”. O Coronel, resoluto, orientou secretamente o escravo a quebrar o pote no caminho. Consumida pela sede após dois dias sob o sol, Dona Adriana pediu água às escravas que preparavam o almoço e, ao prová-la, rendeu-se: “Não é que o diabo da água é boa mesmo!”. A anedota sintetiza o pragmatismo do Coronel e a capacidade de adaptação que marcaria o povo seridoense.

A fazenda, contudo, só se converteu em povoação graças a um acontecimento religioso que adquiriu dimensão lendária. Durante a seca de 1777, o Capitão Mor Cipriano Lopes Galvão, filho do fundador, fez uma promessa a Santana: se a chuva salvasse seu rebanho, ergueria uma capela em honra à santa. Segundo a tradição, uma chuva torrencial naquela noite encheu o leito do Rio São Bento, formando o “poço de Santana”. Fiel ao voto, o Capitão Mor construiu a capela em 1808, financiando-a integralmente. A imagem de Santa Ana, adquirida por ele em Recife em 1806, chegou à fazenda em procissão a pé, aguardando a conclusão do templo. A doação do patrimônio passou por duas escrituras: a primeira, de 1808, destinava terras na Serra de Santana, e a segunda, feita por seu filho, Gonsalo Lopes Galvão, ajustou a localização para o sítio da capela, assegurando a legitimidade eclesiástica da posse.

Documentos preservados no Livro de Tombo comprovam a inauguração da capela em 1808. Entre eles, destacam-se a carta de Dom Frei José Maria de Araújo, de 24 de fevereiro daquele ano, autorizando a construção; o parecer do Padre Inácio Pinto de Almeida Castro, de 2 de outubro de 1809, mencionando que a capela já estava concluída; e o despacho do Padre Francisco de Brito Guerra, de 16 de janeiro de 1810, que reconhece o Capitão Mor como fundador do templo. Assim, a fé se estabeleceu como o centro aglutinador da comunidade nascente.

Ao longo do século XIX, a presença da Igreja continuou a desempenhar papel fundamental. Após décadas subordinada a Acari, a Freguesia de Currais Novos foi criada em 1884, sendo instalada no ano seguinte pelo Padre Joel Esdras Lins Filho. Seu sucessor, o Vigário Manoel Joaquim da Silva Chacom, liderou, entre 1888 e 1889, a construção da imponente igreja matriz. Na virada para o século XX, o Padre Pinto consolidou a vida religiosa local. Um marco expressivo desse período ocorreu em 1903, quando Dom Adalto Aurélio de Miranda Henrique realizou a primeira visita pastoral, recebida com grande solenidade pelo Coronel José Bezerra e uma caravana de mais de duzentos cavaleiros.

A chegada de Monsenhor Paulo Herôncio de Melo, em 1937, transformou profundamente a cidade. Sua ação social respondeu a emergências, como o acidente com feirantes que impulsionou a criação da Casa de São Vicente de Paula e, mais tarde, a campanha para o Hospital Padre João Maria. Na educação, fundou em 1943 a Escola de Nossa Senhora e, posteriormente, o Ginásio Jesus Menino, garantindo acesso gratuito aos alunos oriundos da escola primária. Também deixou obras de grande impacto simbólico, como o monumento a Cristo Rei, construído para o Congresso Eucarístico de 1937. Sua liderança marcante ficou eternizada no monumento erguido após sua morte, em 1963.

No âmbito administrativo, Currais Novos conquistou autonomia municipal com o Decreto nº 59, de 15 de outubro de 1890. Entre os primeiros intendentes, destacam-se figuras diretamente ligadas às famílias fundadoras. O Capitão Laurentino Bezerra estruturou o Paço Municipal e o primeiro código de posturas; o Coronel José Bezerra de Araújo Galvão oficializou a nomenclatura das ruas e mudou o dia da feira livre; e o Alferes Cândido de Oliveira Mendes construiu a Intendência em 1897. Nas décadas seguintes, gestores como Vivaldo Pereira de Araújo impulsionaram obras estruturantes, enquanto Antônio Rafael de Vasconcelos Galvão marcou a transição para o voto direto em 1928. Com a Revolução de 1930, prefeitos nomeados — entre eles Mariano Coelho, Raul Macedo e José Bezerra — deram continuidade à modernização urbana.

O período de 1945 a 1946, sob a administração de Dr. Antônio Othon Filho, foi particularmente marcante pela intensa campanha sanitária que transformou hábitos urbanos, transferindo currais de animais para fora do centro e exigindo fossas sépticas nas residências. Já a gestão de Dr. Sílvio Bezerra de Melo, eleito em 1947, destacou-se pela elaboração da planta cadastral, pelo alargamento de avenidas, pela criação de escolas rurais e pelo início da construção do Estádio Municipal Coronel José Bezerra.

A economia de Currais Novos, inicialmente baseada na pecuária e na agricultura de subsistência, sofreu uma profunda inflexão no século XX, quando a mineração se tornou o principal motor de desenvolvimento. A cidade consolidou-se como o maior centro produtor de minério de tungstênio do mundo ocidental, por meio das empresas Mineração Tomaz Salustino S.A., Mineração Sertaneja e Tungstênio do Brasil S/A. Dados de 1984 evidenciam, por sua vez, as dificuldades do campo, com valores agrícolas modestos em contraste com o vigor da pecuária e da mineração.

A estrutura urbana registrada por Celestino Alves revela uma cidade em pleno crescimento, com mais de 31 milhões de metros quadrados de área urbana, oito bairros, dezenas de praças, milhares de prédios, ruas calçadas, serviços bancários, rádios, correios e telegrafia. A educação e a saúde apresentavam-se fortalecidas por escolas, estabelecimentos de ensino médio, campus universitário e o Hospital Padre João Maria. O civismo local foi reforçado com a oficialização do Hino a Currais Novos em 1976 e da bandeira municipal em 1982.

A indústria local teve início modesto, mas engenhoso. Seu Miguel dos Santos inaugurou uma pequena fábrica de sabão e criou uma prensa para extrair óleo do caroço de algodão. A torta de algodão, antes considerada resíduo, tornou-se valioso suplemento alimentar para o gado após a experiência bem-sucedida de Zé Vadí, exemplo do espírito pragmático do povo seridoense.

A sociedade curraisnovense foi estruturada sobre uma teia de famílias fundadoras, entre as quais se destacam os Lopes Galvão, os Bezerra, os Gomes e os Dantas, clãs que, por décadas, exerceram influência política e econômica. Suas histórias, entremeadas por anedotas e tradições orais, compõem o mosaico cultural da cidade. Personagens como Seu Galvão, célebre comerciante de personalidade firme, e Lucas Pinheiro, conhecido por sua sagacidade, ilustram valores como coragem, humor e perspicácia. As lendas das Cruzes da Serra e do Alto do Caboclo, investigadas por Celestino Alves, revelam como tragédias antigas se misturaram à fé popular e ao imaginário coletivo.

A trajetória de Currais Novos, reconstruída pelos registros documentais e pela memória viva de seus habitantes, demonstra a capacidade de transformação que guiou o município desde seus primeiros currais de gado até sua consolidação como polo dinâmico do Seridó. Forjada pela fé, pela força das famílias, pela habilidade de adaptação econômica e pelo vigor de seus personagens, a cidade preserva em sua identidade contemporânea as marcas profundas de seu passado singular.


Echoes of Currais Novos: A Town's Chronicle

1 fonte

Os excertos fornecem um panorama histórico e cultural detalhado da cidade de Currais Novos, no Rio Grande do Norte, Brasil, abrangendo desde suas origens no século XVIII até meados do século XX. O material inclui um prefácio do autor, Celestino Alves, que relata histórias de figuras locais como Coronel Cipriano Lopes Galvão, fundador da cidade, e discute a importância da tradição oral na sua pesquisa. A "Justificativa" detalha a reedição da obra "Retoques da História de Currais Novos" por sua relevância histórica e como fonte de consulta. O "Sumário" e o corpo do texto exploram a fundação do município, a história de intendentes e prefeitos, o desenvolvimento da Igreja Católica, figuras notáveis, aspectos econômicos como a mineração de tungstênio, e a evolução da infraestrutura urbana e rural ao longo do tempo.

Retoques da História de Currais Novos: Briefing e Análise

Resumo Executivo

Este documento sintetiza a obra "Retoques da História de Currais Novos", de Celestino Alves, um trabalho de pesquisa de mais de 30 anos que resgata as origens e o desenvolvimento da cidade de Currais Novos, Rio Grande do Norte. A narrativa fundamenta-se em uma combinação de pesquisa em arquivos de cartórios e igrejas com a tradição oral, coletada junto aos "guardadores de histórias". Os temas centrais abordados são a fundação da cidade a partir de uma fazenda de gado, o papel central da família Lopes Galvão, a profunda influência da Igreja Católica na formação social e cultural, a evolução administrativa de povoado a município e a genealogia das famílias pioneiras. A obra destaca figuras cruciais como o Coronel Cipriano Lopes Galvão, seu filho Capitão Mor Cipriano Lopes Galvão, e líderes religiosos transformadores como Monsenhor Paulo Herôncio de Melo. Adicionalmente, o livro documenta a economia local, desde a pecuária e agricultura até a ascensão da mineração de tungstênio, e preserva eventos marcantes, personalidades populares e anedotas que compõem a identidade cultural da cidade.

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1. Fundação e Origens de Currais Novos

A gênese de Currais Novos está intrinsecamente ligada à atividade pecuarista e à figura do Coronel Cipriano Lopes Galvão. A obra de Celestino Alves detalha essa origem, refutando datas históricas equivocadas e estabelecendo a cronologia a partir de documentos e tradições orais.

1.1. O Coronel Cipriano Lopes Galvão e a Origem do Nome

• Origem: Por volta de 1760, o Coronel Cipriano Lopes Galvão, um rico criador de gado residente na Fazenda Totoró, construiu novos e amplos currais na bifurcação dos rios São Bento e Totoró para manejar seu rebanho que pastava nas várzeas do Rio São Bento.

• De Fazenda Bela Vista a Currais Novos: A casa construída no local foi chamada de Fazenda Bela Vista. No entanto, o local tornou-se um ponto de encontro para fazendeiros e tropeiros, que se referiam ao lugar como "os currais novos". Com o tempo, essa designação popular suplantou o nome oficial da fazenda.

• A Figura do Coronel: Descrito como um homem rico e de personalidade forte, era filho do Coronel Cipriano Lopes Pimentel. Em 1753, casou-se em Recife com Dona Adriana Lins de Olanda. Uma anedota famosa narra como ele, de forma irônica e pragmática, a fez superar a recusa de beber água de "borracha" (recipiente de couro) durante a penosa viagem de volta ao sertão, quebrando propositalmente seu pote de água.

• Dona Adriana Lins de Olanda: Mulher de personalidade igualmente forte, administrava seus próprios negócios. Após a morte do Coronel em 1763, ela se casou mais duas vezes: com Félix Gomes (com quem teve um filho, Félix Gomes Pequeno) e com o Coronel Antonio da Silva e Souza.

1.2. O Capitão Mor Galvão e a Consolidação do Povoado

• O Voto e a Capela: O filho mais velho do Coronel, Cipriano Lopes Galvão (conhecido como Capitão Mor Galvão), assumiu a administração dos bens. Durante a seca de 1777, ele fez uma promessa de construir uma capela em honra a Sant'Ana se chovesse para salvar seu gado. A chuva veio, e o poço formado no rio ficou conhecido como "Poço de Santana".

• Provas da Fundação em 1808: O autor refuta a ideia de que a capela foi inaugurada em 1813, apresentando provas documentais irrefutáveis do Livro de Tombo nº 1 da Matriz de Currais Novos:

    1. Carta de Autorização: Despachada pelo Bispo de Olinda, Dom Frei José Maria de Araújo, em 24 de fevereiro de 1808, para a construção da capela na "fazenda dos Currais Novos, do Capitão Mor Cipriano Lopes Galvão e sua mulher".

    2. Pedido de Sepultamento: Despacho favorável do vigário geral de Olinda, datado de 2 de outubro de 1809, ao pedido do Capitão Mor para ser sepultado na capela "por ele construída", provando que a obra já estava concluída.

    3. Confirmação do Vigário do Seridó: Despacho do Padre Francisco de Brito Guerra, de 16 de janeiro de 1810, reconhecendo o Capitão Mor como fundador da capela.

• O Patrimônio e a Imagem: O patrimônio original da capela, doado em 5 de janeiro de 1808, era meia légua de terra na Serra de Santana. Posteriormente, para que a igreja não ficasse em terreno alheio, o Capitão Mor Gonsalo Lopes Galvão (filho do fundador) doou o terreno onde a capela foi de fato construída. A imagem original de Sant'Ana foi trazida de Recife em 1806 pelo Capitão Mor e veio em procissão da Fazenda Totoró para a capela no dia 26 de julho de 1808.

1.3. O Testamento do Capitão Mor Galvão

• Data e Contexto: Feito em 6 de dezembro de 1813, sete dias antes de sua morte, o testamento revela o caráter do fundador do povoado.

• Valores e Honestidade: O documento demonstra a retidão do Capitão Mor. Ele detalha a situação de um escravo empenhado, permitindo que fosse resgatado mesmo após o prazo vencido, e ordena que seus herdeiros cumpram sua promessa de alforriar outro escravo, Lázaro, mediante o pagamento do saldo restante.

• Detalhes do Patrimônio: O testamento lista seus bens, incluindo três léguas de terra no Sítio dos Currais Novos, a Fazenda Totoró, terras na Serra do Piauí (onde construiu a primeira casa de farinha da região), e descreve seu rebanho e escravos.

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2. História Religiosa e Lideranças Eclesiásticas

A Igreja Católica foi a principal força motriz no desenvolvimento social, cultural e educacional de Currais Novos. A obra detalha a sucessão de vigários e suas contribuições, com especial ênfase no impacto transformador de Monsenhor Paulo Herôncio de Melo.

2.1. Vigários e a Construção da Paróquia

• Criação da Freguesia: A Freguesia de Currais Novos foi criada pela lei nº 893 de 20 de fevereiro de 1884 e instalada em 26 de julho de 1885 por Padre Joel Esdras Lins Filho.

• Vigário Manoel Joaquim da Silva Chacon (1887-1890): Assumiu a paróquia e, em apenas dois anos (1888-1889), construiu o corpo principal da igreja matriz. O autor defende sua honra, esclarecendo que ele se tornou padre aos 60 anos, após enviuvar, e que os filhos que teve nasceram enquanto era um cidadão casado, desmentindo a "boca corrida" de que teria tido filhos já como sacerdote.

• Padre Antônio Brilhante de Alencar (1912-1924): Realizou uma grande reforma na igreja, construiu o coro, mudou o teto e instalou o relógio da torre. A obra documenta a minuciosa prestação de contas do padre sobre a aquisição do relógio, doado pelo Alferes Francisco de Oliveira Galvão ("Seu Galvão"), um exemplo de sua honestidade e zelo administrativo. O custo total, incluindo compra e instalação, foi de 3.472$180 réis.

• Visita Pastoral de Dom Adalto (1903): Durante a gestão do Padre Luiz Borges de Sales, a cidade recebeu sua primeira visita pastoral, um evento de grande magnitude. Dom Adalto Aurélio de Miranda Henrique, Bispo da Paraíba, chegou após uma viagem de quase duzentas léguas a cavalo, sendo recebido com grande festa.

2.2. Monsenhor Paulo Herôncio de Melo: O Grande Benfeitor

Considerado pelo autor como "uma dádiva dos céus", sua chegada em 1937 marca um ponto de inflexão na história da cidade, que ele divide em "antes e depois de Monsenhor Paulo".

• Obras e Realizações:

    ◦ Congresso Eucarístico (1937): Sua primeira grande realização, para a qual construiu em tempo recorde o monumento a Cristo Rei.

    ◦ Casa de São Vicente de Paula: Impulsionado por um trágico acidente com feirantes e a falta de um hospital, ele mobilizou a comunidade para criar a primeira unidade de saúde da cidade, que mais tarde evoluiria para o Hospital Padre João Maria e Maternidade Ananília Regina.

    ◦ Educação para os Pobres: Fundou a Escola de Nossa Senhora (1943) para educar crianças carentes, oferecendo refeições, material e uniforme. Posteriormente, criou o Ginásio Jesus Menino (1944), garantindo a continuidade dos estudos para os alunos da Escola de Nossa Senhora, e o Ginásio Rural Masculino (hoje Instituto Vivaldo Pereira).

    ◦ Construções Religiosas: Ergueu a Capela Escola Creche de Santa Maria Gorete e o Santuário de Nossa Senhora de Fátima.

• Caráter e Legado: Descrito como um homem de coragem, fé inabalável e imensa capacidade de mobilização. Após sua morte em 1963, a comunidade, liderada pelo autor Celestino Alves, realizou uma campanha bem-sucedida para erguer uma estátua em sua homenagem.

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3. Desenvolvimento Administrativo, Social e Econômico

A obra traça a evolução de Currais Novos de um simples povoado a uma cidade próspera, detalhando sua administração, infraestrutura e economia.

3.1. Da Intendência à Prefeitura

• Criação do Município: O município foi criado pelo decreto nº 59, de 15 de outubro de 1890, e instalado em 6 de fevereiro de 1891.

• Primeiros Intendentes:

    ◦ Capitão Laurentino Bezerra de Medeiros Galvão (1891): O primeiro presidente da Intendência, republicano e abolicionista. Em seu curto mandato de 74 dias, organizou o município e escreveu o primeiro código de posturas.

    ◦ Coronel José Bezerra de Araújo Galvão (1892): Homem de grande autoridade e respeito, construiu a cadeia pública. O Decreto nº 5, de 13 de julho de 1892, de sua autoria, nomeou as primeiras ruas da vila. O Decreto nº 6, de 14 de julho de 1892, transferiu a feira do domingo para o sábado.

    ◦ Vivaldo Pereira de Araújo (1917-1919): Intelectual e pioneiro na criação de escolas rurais. Construiu o grande Mercado Público, considerado na época o maior do estado.

• Elevação a Cidade: Currais Novos foi elevada à categoria de cidade pela lei estadual nº 486, de 29 de novembro de 1920, durante a gestão de João Alfredo de Albuquerque Pires Galvão.

3.2. Prefeitos e Modernização

• Doutor Sílvio Bezerra de Melo (1948-1953): Considerado um dos prefeitos mais dinâmicos, realizou a planta cadastral da cidade, demoliu quarteirões para modernizar a malha urbana, construiu a usina de força e luz, calçou ruas e iniciou a construção do estádio municipal.

• Doutor Antônio Othon Filho ("Dr. Niton") (1945): Embora tenha governado por menos de um ano, foi um administrador enérgico e trabalhador. Decretou a retirada dos "tratos de animais" do centro urbano e implementou uma campanha sanitária exigindo a construção de fossas nas residências, medidas que, embora impopulares na época, foram cruciais para a urbanização.

3.3. Aspectos Econômicos e Demográficos (Dados de 1980-1984)

O autor apresenta uma análise crítica do êxodo rural, baseada em dados da época.

• População (1980): 34.987 habitantes, sendo 25.663 na zona urbana e 9.324 na zona rural.

• Economia Rural: A base era o algodão seridó, feijão, milho e a pecuária. O autor lamenta a baixa renda per capita no campo (estimada em Cr$ 28.490 mensais em 1984), apontando-a como causa do esvaziamento rural.

• Economia Urbana: O principal suporte econômico da cidade é a indústria extrativa de minérios, sendo o maior centro produtor de tungstênio do mundo ocidental. Três grandes empresas dominavam a extração: Mineração Tomaz Salustino S.A., Mineração Sertaneja e Tungstênio do Brasil S/A. Em 1984, a produção conjunta foi de 1.628 toneladas.

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4. Genealogia das Famílias Fundadoras

O Capítulo IV da obra é um extenso levantamento genealógico, mapeando as origens e os descendentes das principais famílias que povoaram Currais Novos.

Família

Tronco / Origem

Notas Relevantes

Lopes Galvão

Cel. Cipriano Lopes Galvão e D. Adriana Lins de Holanda.

Família fundadora. O sobrenome se ramificou, com "Bezerra" tornando-se o mais predominante entre os descendentes.

Bezerra

Cipriano Lopes Galvão Júnior e Teresa Maria José.

Quase todos os Bezerras do Seridó descendem deste casal, tornando-se uma das famílias mais numerosas e influentes.

Cardoso

O português Francisco Cardoso dos Santos.

Sua filha, Vicência Lins de Vasconcelos, casou-se com o Capitão Mor Galvão, unindo as famílias.

Medeiros

Os irmãos portugueses Rodrigo e Sebastião Medeiros, fundadores de Santa Luzia/PB.

A ligação com Currais Novos se deu por casamentos com as famílias Lopes Galvão e Pereira.

Famílias do Totoró

Descendentes de filhos do Cap. Mor Galvão (Antônio Pio Galvão) e de Félix Gomes Pequeno.

Região mais antiga e populosa, gerou famílias com sobrenomes próprios como Freire, Anário, Honorato e Berto.

Gomes

Os irmãos José Gomes de Melo e Francisco Gomes Pimenta, vindos de Caraúbas/RN.

Compraram terras na região da Pitombeira e deram origem a uma família numerosa e conservadora do sobrenome.

Pegado Dantas Cortez

Manoel Pegado Cortez, que se associou aos irmãos Gomes para comprar terras.

Família que se tornou numerosa e influente no estado, com ramificações como Dantas Cortez, Cortez Gomes e Cortez Pereira.

Pereira

Tomaz Pereira de Araújo e Dona Rita da Câmara Ferreira.

Deram origem a uma das mais importantes linhagens políticas e sociais da cidade.

Alves

Vários troncos, incluindo Semião Alves do Rego e Tomaz Alves dos Santos (pai do autor).

A família do autor, Tomaz Alves "Targino", veio da Paraíba em 1895 e se estabeleceu na região dos Namorados.

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5. Personalidades, Eventos e Cultura Popular

O livro é rico em narrativas que capturam a essência da vida social e cultural de Currais Novos, destacando figuras populares e acontecimentos que marcaram a memória coletiva.

5.1. Figuras Notáveis e Populares

• Francisco de Oliveira Galvão ("Seu Galvão"): Comerciante à moda antiga, famoso por sua frase "Não é mais pra vender não, meu senhor" quando um freguês pedia desconto. Apesar do jeito peculiar, era um grande benfeitor, tendo doado o relógio da matriz e o terreno do campo de futebol.

• Lucas Pinheiro ("Lucas de André"): Fazendeiro conhecido por suas anedotas e seu jeito positivo e direto, especialmente em suas interações com o sistema bancário nascente e em trocas de animais.

• Manoel Tomaz de Araújo: Um pioneiro autodidata, foi topógrafo, tipógrafo, jornalista (fundador do jornal "O PROGRESSO"), mecânico e pedreiro. Construiu a Gruta de Lourdes na Matriz.

• Professor Chico Rosa: Educador abnegado que lecionou por mais de 50 anos em diversas escolas da zona rural, sendo uma figura fundamental na alfabetização de gerações.

• Gabriel Cego: Cantador de viola cego e repentista de grande talento, famoso por seus versos de improviso na feira da cidade.

5.2. Eventos Históricos Marcantes

• O Crime que não Saiu da História (28 de julho de 1901): Durante a festa de Sant'Ana, José de Mestre Félix esfaqueou e matou Canuto Gomes de Melo, que atuava como delegado. O evento chocou a vila, e o autor narra a entrega do criminoso e a intervenção do Coronel José Bezerra para evitar um linchamento.

• Cena de Sangue (13 de maio de 1974): A maior tragédia da história da cidade. Um ônibus da empresa Princesa do Seridó atropelou uma procissão, deixando 24 mortos (incluindo o Dr. Nithon) e dezenas de feridos. O autor, testemunha ocular, descreve a cena e o trauma coletivo.

• O Esporte: A obra documenta a formação dos primeiros times de futebol, como o da turma do Tiro de Guerra 217 (1930), o União Esporte Clube e, principalmente, o Seridó Esporte Clube, considerado a maior seleção que a cidade já teve, com mais de cinquenta vitórias consecutivas e jogadores icônicos como "Piloto".

 


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