A Genealogia e a História do Seridó Segundo Roberto Florêncio Dias
Neste arrazoado tentamos reunir e sintetizar as principais ideias e projetos do escritor e genealogista Roberto Florêncio Dias, com base em suas reflexões e exposições acerca da história e das famílias da região do Seridó, no Rio Grande do Norte.
A análise de Roberto Florêncio revela uma profunda e intricada rede de interconexões entre os clãs seridoenses, que ele poeticamente descreve como “uma grande família chamada Seridó”, um vasto tronco genealógico de várias ramificações, entrelaçado por casamentos consanguíneos e tradições persistentes.
Um dos eixos centrais de sua pesquisa é a herança judaica sefardita presente na formação histórica da região, hoje amplamente documentada, e que o autor associa a costumes locais e a figuras ancestrais marcantes, como Branca Dias e Brites Mendes de Vasconcelos.
Autor da obra 'Os Pereiras de São José do Seridó', Roberto detalha com sensibilidade o processo de criação do livro, os desafios enfrentados e as revelações inesperadas que surgiram de suas investigações. Além disso, dedica-se atualmente a um novo projeto que busca preencher uma lacuna histórica sobre a família Queiroz, ampliando o panorama genealógico potiguar.
Seu trabalho é movido tanto pela curiosidade pessoal quanto pelo desejo de preservar e difundir a cultura e a memória do Seridó, estimulando outros pesquisadores a documentarem suas próprias histórias familiares.
Nascido em Caicó, em 1958, Roberto Florêncio Dias viu despertar seu interesse pela genealogia ainda na infância, ouvindo, ao entardecer, as narrativas do pai no alpendre da fazenda Baixa Verde. Esse fascínio pelas histórias de antepassados amadureceu com o tempo, até se converter em vocação.
O impulso definitivo surgiu ao descobrir que praticamente não havia registros sobre sua própria linhagem — os Queiroz — no Instituto Histórico e Geográfico, conforme lhe informou o renomado genealogista Olavo de Medeiros Filho. Diante dessa ausência, decidiu iniciar ele próprio as pesquisas, retomando-as com vigor após a aposentadoria.
O escritor reconhece o estímulo e o aprendizado proporcionados por três grandes nomes da genealogia seridoense, Luís Fernando Pereira de Melo, Álvaro Batista e Sérgio Bezerra Teixeira, que o inspiraram a transformar uma busca pessoal em projeto coletivo. O que começou como uma investigação familiar evoluiu para um amplo estudo digital, hoje reunindo mais de 23 mil nomes em seu site, expressão de um envolvimento que ele define como “um vício bom”.
O livro sobre os 'Pereiras' consolidou-se como marco no resgate da memória de uma das famílias mais numerosas e ramificadas do Seridó. A ideia germinou a partir de uma reunião organizada por seus primos, Dr. Robson Dias de Medeiros e Verônica Sueid, que promoveram um encontro de descendentes de Libânio Pereira de Araújo na fazenda Viração, em São José do Seridó.
Com apenas sessenta dias até o evento, o genealogista dedicou-se intensamente à compilação dos dados que possuía, concluindo a primeira versão em formato digital na véspera da celebração. O êxito do lançamento o motivou a preparar uma edição impressa, que alcançou já a segunda reedição.
Entre os principais desafios enfrentados, destacam-se o curtíssimo prazo para a organização do material e a resistência de alguns familiares, que relutavam em ceder informações. Ainda assim, o autor perseverou, consciente da relevância do registro histórico.
O livro concentra-se na descendência de José Pereira de Araújo e Maria Joaquina do Sacramento, casal que teve cinco filhos, mas cuja linhagem se perpetuou sobretudo por meio de quatro herdeiros: Teotônio Pereira de Araújo, Manuel Pereira dos Anjos (Neco dos Anjos), Raimundo Pereira de Araújo e Vicente Pereira de Araújo.
A pesquisa estabelece um elo entre os Pereiras de São José do Seridó e os de Acari, ambos originários de Caetano Camelo Pereira, parente do primeiro Tenente Coronel Thomaz de Araújo Pereira (1701-1781).
Em suas investigações, Roberto Florêncio identifica um traço recorrente e distintivo na história do Seridó que é justamente a ideia de uma “única grande família”, resultante de séculos de cruzamentos entre os clãs locais. Os casamentos consanguíneos eram prática frequente, motivada não apenas pela preservação patrimonial, mas a tentativa de evitar a dispersão das terras e também por tradições culturais herdadas do judaísmo sefardita.
O pesquisador cita, inclusive, o caso de seus próprios avós, primos legítimos entre si. Essa teia de relações é tão densa que em seus estudos sobre o chamado “povo do ferreiro”, demonstra como os Queiroz se entrelaçam com os Santos e os Maia, famílias igualmente tradicionais de São Fernando.
A presença judaica sefardita na formação do Seridó constitui um dos aspectos mais fascinantes de sua pesquisa. Após a expulsão dos holandeses de Pernambuco, sob o governo de Maurício de Nassau, haviam garantido liberdade de culto, numerosos judeus refugiaram-se no interior nordestino, alcançando o sertão da Paraíba e do Rio Grande do Norte.
Desse movimento resultaram linhagens marcadas por ancestrais como Branca Dias, cujos descendentes predominam em Currais Novas, e Brites Mendes de Vasconcelos, reconhecida ancestral dos Queiroz. Outros nomes de raiz judaica aparecem nas genealogias seridoenses, como Juncá Montezinho, os irmãos Medeiros e José Batista dos Santos, fundador de Timbaúba dos Batistas.
Curiosamente, práticas culturais ainda observadas no cotidiano sertanejo, como virar as sandálias, evitar cruzes em encruzilhadas ou colocar cruzes de palha nas portas, são interpretadas por ele como resquícios simbólicos dessas antigas tradições judaicas, adaptadas ao catolicismo popular.
Observa ainda que o recente interesse pela cidadania portuguesa para descendentes de sefarditas impulsionou muitas famílias a revisitar suas origens, embora a comprovação de ascendência tenha se tornado mais rigorosa, exigindo documentos primários e não apenas referências bibliográficas de genealogistas como Olavo de Medeiros Filho.
Paralelamente às pesquisas já publicadas, Roberto Florêncio dedica-se a novas frentes de estudo, especialmente à história da família Queiroz, cuja trajetória ele considera ainda insuficientemente documentada. O núcleo dessa família remonta à fazenda Riacho do Ferreiro, outrora pertencente a Caicó e hoje situada em Jardim de Piranhas, importante centro agrícola com engenho e casa de farinha. O patriarca, seu trisavô, teve dezessete filhos, todos Queiroz, originando um vasto tronco familiar interligado às famílias Santos e Maia.
Em suas explorações, o genealogista tem descoberto surpreendentes vínculos de parentesco. Soube, por exemplo, que seu sexto avô era irmão da sexta avó de sua segunda esposa; que sua primeira sogra era bisneta de Neco dos Anjos, irmão de seu tetravô; e que o engenheiro Fernando Marinho Pereira, com quem trabalhou anos depois, era, na verdade, seu parente, descendente de um dos quatro irmãos Pereira.
Descobertas semelhantes ocorreram com figuras conhecidas do Seridó, como Tarcísio Ovídio (Magô), neto de Teotônio Pereira, cuja colaboração foi preciosa para o livro, e Padre Jocimar Dantas, ex-prefeito de Jardim do Seridó, também pertencente à mesma linhagem.
Outra curiosidade revelada em suas pesquisas diz respeito ao desembargador Adauto Maia, neto do patriarca da família Maia de São Fernando e ex-governador de Pernambuco. Desse modo, Roberto Florêncio lamenta que o ilustre conterrâneo não tenha recebido, em sua cidade natal, qualquer homenagem à altura de sua relevância histórica.
Além de reconstruir laços familiares, o seu trabalho contribui para o resgate da memória cultural do Seridó. Ele relata, por exemplo, as três versões populares sobre a origem do antigo nome São José da Bonita, hoje São José do Seridó. Segundo a tradição oral, o topônimo poderia referir-se à filha de um fazendeiro, famosa por sua beleza; a uma índia que se afogou no poço onde se banhava; ou ainda a uma vaca chamada Bonita, que sempre bebia daquelas águas perenes e cristalinas.
Em suas conclusões, o seridoense exorta à preservação da memória histórica, defendendo que cada geração registre e publique as narrativas de sua linhagem antes que o tempo as apague. Reconhece, com reverência, o legado de precursores como José Augusto Bezerra de Medeiros, Olavo de Medeiros Filho, Sinval Costa, Luiz Fernando Pereira de Melo e Adauto Guerra, cujas obras constituem hoje valiosos pilares para os pesquisadores do sertão.
Destaca ainda o papel de instituições como a Associação Sertão Raiz Seridó e da Rádio Mar e Campo, cuja atuação tem sido essencial na difusão da cultura e da história seridoenses.
Assim, o percurso de Roberto Florêncio Dias transcende o mero exercício da genealogia: trata-se de uma missão de reconstrução identitária e preservação cultural, um tributo às raízes sertanejas e à memória de um povo que, entrelaçado pelo sangue e pela história, continua a escrever — geração após geração — a epopeia da “grande família chamada Seridó”.
Roberto Florêncio Dias figura entre os mais atentos intérpretes da história familiar do Seridó potiguar, compreendendo a região não como um mosaico disperso de sobrenomes, mas como uma unidade orgânica que ele próprio sintetiza na expressão recorrente: “uma grande família chamada Seridó”. Nascido em Caicó, em 1958, Florêncio construiu sua vocação genealógica a partir das narrativas ouvidas ainda na infância, no alpendre da Fazenda Baixa Verde, onde as histórias do pai despertaram-lhe a curiosidade sobre origens, parentescos e destinos compartilhados.
O impulso decisivo para a pesquisa surgiu da ausência de registros sistematizados sobre sua própria família, os Queiroz. Ao procurar informações no Instituto Histórico e Geográfico, foi informado por Olavo de Medeiros Filho de que simplesmente não existia material consolidado sobre esse tronco familiar. Essa lacuna, longe de desanimá-lo, tornou-se o motor de sua investigação, iniciada com maior intensidade após a aposentadoria. Nesse percurso, Florêncio reconhece a influência formadora de genealogistas como Luís Fernando Pereira de Melo, Álvaro Batista e Sérgio Bezerra Teixeira, cujos trabalhos lhe serviram de estímulo metodológico e intelectual. O que começou como a busca por bisavós transformou-se em um vasto acervo digital, reunindo mais de vinte e três mil pessoas cadastradas, experiência que ele próprio define como um “vício bom”, pela capacidade de revelar conexões inesperadas e ampliar a compreensão da identidade regional.
Esse esforço culminou na publicação do livro Pereiras de São José do Seridó, obra que se tornou referência no estudo de uma das famílias mais extensas e ramificadas da região. O livro nasceu de maneira quase circunstancial, a partir de um almoço organizado por primos descendentes de Libânio Pereira de Araújo, realizado na Fazenda Viração, em São José do Seridó. Com apenas sessenta dias para preparar o material, Florêncio dedicou-se intensamente à organização de dados já coletados, concluindo uma versão em PDF na véspera do encontro. O êxito da iniciativa levou à edição impressa, que alcançou rapidamente uma segunda reedição, sinal do interesse coletivo pelo resgate das origens.
A pesquisa, contudo, não esteve isenta de obstáculos. O curto prazo foi agravado pela resistência de alguns familiares, que se mostraram relutantes em fornecer informações ou mesmo hostis à inclusão de seus nomes, chegando a ameaçar medidas judiciais. Ainda assim, Florêncio manteve-se fiel ao compromisso de registrar a história comum, consciente de que o silêncio também é uma forma de apagamento histórico. O foco central da obra recai sobre os descendentes de José Pereira de Araújo e Maria Joaquina do Sacramento, especialmente os quatro filhos homens — Teotônio Pereira de Araújo, Manuel Pereira dos Anjos (Neco dos Anjos), Raimundo Pereira de Araújo e Vicente Pereira de Araújo — que deixaram vasta descendência. O livro estabelece ainda as conexões entre os Pereiras de São José do Seridó e os de Acari, remontando a linhagem a Caetano Camelo Pereira, aparentado ao primeiro Tomás de Araújo Pereira.
No plano interpretativo, Roberto Florêncio Dias sustenta que a genealogia seridoense só se explica plenamente pela intensa consanguinidade e pelo entrelaçamento constante entre famílias. Casamentos entre primos eram frequentes, motivados tanto pela preservação do patrimônio quanto por fatores culturais mais profundos, entre eles a herança judaica sefardita. Esse aspecto constitui um dos eixos mais relevantes de sua pesquisa. Florêncio argumenta que grande parte da população do Seridó descende de judeus sefarditas que, após a expulsão dos holandeses de Pernambuco e o recrudescimento da Inquisição, migraram para o interior do Nordeste, fixando-se na Paraíba e no Rio Grande do Norte.
Ele destaca figuras emblemáticas dessa matriz ancestral, como Branca Dias, cujos descendentes são numerosos em Currais Novos, e Brites Mendes de Vasconcelos, ancestral direta dos Queiroz. Menciona ainda patriarcas como Juncá Montezinho, os irmãos Medeiros e José Batista dos Santos, fundador de Timbaúba dos Batistas. Para Florêncio, a herança judaica não se manifesta apenas em documentos, mas também em costumes populares persistentes, como virar a sandália, evitar cruzes em encruzilhadas ou colocar cruzes de palha nas portas das casas, práticas que ele interpreta como resquícios simbólicos de antigas tradições.
O interesse contemporâneo pela nacionalidade portuguesa, impulsionado pela legislação voltada a descendentes de judeus sefarditas, conferiu novo fôlego às pesquisas genealógicas. Florêncio observa, porém, que o processo tornou-se mais rigoroso, exigindo hoje documentação primária — certidões de nascimento, casamento e óbito — e não apenas referências bibliográficas consagradas, como as obras de Olavo de Medeiros Filho. Esse endurecimento, embora dificulte os pedidos, reforça a importância de pesquisas bem fundamentadas e documentalmente sólidas.
Paralelamente à obra já publicada, Florêncio dedica-se atualmente a um projeto voltado à família Queiroz, que considera uma das grandes lacunas da historiografia potiguar. O foco recai sobre o chamado “povo do ferreiro”, ligado à antiga Fazenda Riacho do Ferreiro, hoje situada em Jardim de Piranhas. Trata-se de um núcleo econômico relevante, com casa de farinha e engenho, cujo patriarca, trisavô do pesquisador, teve dezessete filhos, todos Queiroz. Essa família mantém vínculos profundos com os Santos e os Maia, de São Fernando, ampliando ainda mais a teia de relações regionais.
Ao longo de suas investigações, Florêncio deparou-se com descobertas pessoais surpreendentes, como parentescos insuspeitos com esposas, sogras e colegas de trabalho, revelando como a consanguinidade seridoense atravessa gerações e contextos sociais diversos. Casos como o de Fernando Marinho Pereira, colega de trabalho e depois chefe, ou de figuras conhecidas como Tarcísio Ovídio, o Magô, mostram como a genealogia frequentemente antecede a consciência do parentesco.
Seu trabalho também se estende à valorização da memória local, como no resgate das versões sobre a origem do nome São José da Bonita, antigo topônimo de São José do Seridó, ligado a um poço perene que servia de parada a tropeiros. Para Florêncio, preservar essas narrativas, ainda que múltiplas e por vezes contraditórias, é essencial para compreender o imaginário regional.
Consciente do papel social do genealogista, Roberto Florêncio Dias defende a publicação das pesquisas como forma de garantir permanência à história oral e documental do Seridó. Reconhece o legado de estudiosos como José Augusto Bezerra de Medeiros, Olavo de Medeiros Filho, Sinval Costa, Luiz Fernando Pereira de Melo e Adauto Guerra, bem como o papel de instituições culturais e meios de comunicação regionais na difusão desse patrimônio imaterial. Seu trabalho, mais do que mapear árvores genealógicas, reafirma a ideia de que o Seridó é, em essência, uma vasta comunidade de memória compartilhada, cuja compreensão depende do esforço contínuo de registrar, interpretar e transmitir suas origens.

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