SINVAL COSTA

 

Sinval Costa nasceu no Riacho do Algodão, pertencente à antiga Fazenda São Bernardo, na data do Samanau, município de Caicó, em 12 de maio de 1931. Casou-se em Campina Grande, em 4 de abril de 1958, com Teresinha Basílio Belo, filha de José Basílio de Maria e de Alice Belo. Teve como professoras, na zona rural, Julima Eurídice, Gercina Dias, Maria Gervásio e Ercir Carneiro, lecionando, respectivamente, nas localidades de Sobradinho, Bravo, Seridozinho e Alegre. Frequentou ainda o Grupo Escolar Antônio de Azevedo, em Jardim do Seridó; as Escolas Reunidas Jesuíno de Azevedo, em São José do Seridó; o Ginásio Diocesano Seridoense, em Caicó; o Ateneu Norte-Riograndense; e o Liceu Paraibano. Formou-se engenheiro civil pela Escola Politécnica da Paraíba, turma de 1962, em Campina Grande. Realizou pós-graduação em Engenharia Sanitária pela Faculdade de Higiene e Saúde Pública da Universidade de São Paulo e pela Politécnica de Pernambuco, tendo também recebido treinamento na mesma área pela Universidade de Akron, em Ohio, nos Estados Unidos. Exerceu o cargo de diretor da Companhia de Águas e Esgotos do Nordeste, CAENE, e aposentou-se como engenheiro e servidor público do quadro da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste, SUDENE. engenheiro civil aposentado da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste e pesquisador genealógico de reconhecida dedicação, faleceu aos noventa anos no Recife, deixando como legado uma das mais amplas e consistentes investigações já realizadas sobre as famílias formadoras do Sertão do Seridó, região histórica que se estende entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba. 

Pós-graduado em Saneamento e com aperfeiçoamento em viabilidade de projetos nos Estados Unidos, Sinval Costa conciliou, ao longo da vida profissional, o rigor técnico da engenharia com uma vocação quase obsessiva pela pesquisa histórica e genealógica, à qual se entregou por mais de quatro décadas, sempre munido de lápis, papel e uma disciplina metódica que o acompanhou desde os primeiros passos da investigação até a publicação de sua obra maior, Os Álvares do Seridó e Suas Ramificações, lançada em 1999.


Os ascendentes do escritor Sinval Costa, segundo a ordem de sucessão genealógica, remontam à alta nobreza europeia medieval e projetam-se, ao longo dos séculos, até o sertão nordestino. A linhagem tem início em Roberto, o Forte, duque da França, conde de Paris, Orléans e Anjou, figura matricial de diversas dinastias europeias. Dele descende a princesa Antônia de Renoburg, também grafada Antônia de Rodemburg, consorte do príncipe Leão Eça, este oriundo dos antigos condes suzeranos da Holanda.

Do casal procede o conde Henrique van Holand, unido em matrimônio a Margarida Florentz. Desta união nasceu Arnau de Holanda, também grafado Amau, que se casou com Brites Mendes de Vasconcelos. Arnau e Brites constituem o tronco embrionário da linhagem Holanda no Brasil. Deste casal nasceu Agostinho de Holanda e Vasconcelos, consorte de Maria de Paiva. Agostinho foi pai de Baltazar Leitão de Holanda, também referido nas fontes como Bartolomeu, capitão veterano da Guerra Holandesa, casado com Francisca dos Santos França.

Seguiu-se João Leitão de Vasconcelos, unido a Maria Barbosa Fonseca, de quem nasceu Adriana de Holanda, em sua quinta geração homônima, casada com Antônio Pinto de Mendonça. O casal gerou Maria Madalena de Vasconcelos, esposa de João da Rocha Moura. Desta união nasceu Adriana de Holanda e Vasconcelos, que se casou com Cipriano Lopes Galvão, dando origem a um dos ramos mais influentes no povoamento e na história política do Seridó.

O capitão-mor Cipriano Lopes Galvão, filho desse enlace, casou-se com Vicência Lins de Vasconcelos. Deste casal nasceu Ana Lins de Holanda, que se uniu a Félix Gomes Pequeno. Seu filho Manoel Lopes Pequeno contraiu matrimônio com Maria Gertrudes de Jesus. Daí procede Manoel Lopes de Araújo, conhecido como Minei do Alegre, casado com Josefa Maria da Anunciação.

O casal foi genitor de Sérvulo Lopes de Araújo, consorte de Mercês Porcina de Araújo, pais de Izidora Izaura da Costa, que se uniu a Raimundo Silvino da Costa. Desta última geração nasceu Sinval Costa, casado com Teresinha Basílio Belo, encerrando, assim, a linha sucessória aqui delineada.

Convém registrar que Antônia de Renoburg provém diretamente de Roberto, o Forte, ancestral de várias casas reinantes europeias. Margarida Florentz, por sua vez, era irmã do papa Adriano VI, nascido a 2 de março de 1459 e pontífice entre 1521 e 1523, filha de Florentz Bayer van Ulbrecht, calafate e tecelão da Baviera. Maria de Paiva, esposa de Agostinho de Holanda e Vasconcelos, era filha de Baltazar Leitão e de Inês Fernandes de Góes, sendo neta materna de Diogo Fernandes, israelita, e da célebre Branca Dias, de Camaragibe. Brites Mendes de Vasconcelos chegou ao Brasil em 1535 ainda solteira, sob a proteção da donatária de Pernambuco, por recomendação expressa da rainha de Portugal, fato que reforça o prestígio e a distinção social dessa linhagem desde os seus primórdios.

O livro constitui um vasto compêndio genealógico centrado nas famílias do Sertão do Seridó, combinando história social, memória coletiva e análise política, ao traçar com minúcia as linhagens e desdobramentos familiares que moldaram a região desde o período colonial. 

A pesquisa nasceu das chamadas “lições domésticas”, recebidas ainda na juventude, quando o autor buscava esclarecer dúvidas sobre sua própria ascendência, orientado pelo avô materno, Sérvulo Lopes de Araújo, e pela avó paterna afim, Maria Natalina de Azevedo. 

A partir de 1957, esse interesse inicial ampliou-se para um trabalho sistemático de campo, baseado em entrevistas com pais de família, líderes comunitários, chefes culturais e genealogistas, sempre cotejadas com documentos extraídos de arquivos civis, eclesiásticos e paroquiais, além da leitura constante de bibliografia especializada. 

O resultado foi reconhecido como uma obra histórico-sociológica de grande fôlego, construída apesar das severas limitações impostas pela ausência de uma arquivologia oficial consistente no Rio Grande do Norte.

O eixo central da relatoria genealógica repousa sobre a descendência do casal patriarcal Domingos Álvares dos Santos e Joana Batista da Encarnação, considerados tronco fundador de uma extensa rede de famílias que se espalhou pelo Sertão do Seridó e por outras regiões do Nordeste. 

Domingos Álvares dos Santos, também referido nos documentos como Domingos Alves dos Santos ou Domingos Alexandre dos Santos, conhecido como Capitão Domingos Alves da Fazenda Lajes, era português, chegou ao Seridó já casado, vindo do Ceará, e consolidou-se como grande proprietário de terras, detentor de extensas sesmarias, adquiridas por compra ou requerimento. 

Seu inventário, processado em Caicó no ano de 1793, é tratado pelo autor como peça fundamental para a reconstituição genealógica, embora ele próprio relate ter sido impedido de consultar diretamente o tabelionato local. Domingos faleceu em 1793, aos oitenta e dois anos, sendo sepultado na Matriz do Seridó, assim como sua esposa Joana Batista da Encarnação, conhecida como Joana Brava, falecida em 1791.

A obra acompanha, em capítulos próprios, a descendência dos treze filhos legítimos do casal, organizando-se como um verdadeiro mapa da formação social do Sertão do Seridó. 

Desses ramos surgiram famílias como os Alves Alexandre, oriundos de José Álvares dos Santos; os Alves do Piató, descendentes de Antônio Álvares dos Santos; os Alves do Catururé, ligados a João Álvares dos Santos; os Alves da Raposa, provenientes de Manoel Álvares dos Santos; os Umarizeiros, descendentes de Domingos Álvares dos Santos, o segundo; os Fidélis da Luíza, oriundos de Fidélis Álvares dos Santos; o ramo de Francisco Álvares do Nascimento, das Lajes; os Melo do Sabugi, formados a partir do casamento de Joana Maria dos Santos com o Capitão-mor Manoel Gonçalves Melo; os descendentes de Maria Álvares dos Santos, da Malhada da Areia; os Teixeiras da Fonseca, originados da união de Joana Batista da Encarnação com Luiz Teixeira da Fonseca, da Fazenda Angicos; os Alves do Sobradinho, ligados a Francisca Álvares dos Santos; os Clemente Teixeira, descendentes de Antônia Maria dos Santos; e os Gualberto Roza, do São Roque, oriundos de Roza Maria do Círio. 

Cada um desses ramos é apresentado com detalhamento de casamentos, filiações, propriedades, deslocamentos territoriais e inserção social.

Mais do que enumerar nomes, datas e vínculos familiares, Sinval Costa imprime à obra um tom crítico ao denunciar os obstáculos sistemáticos impostos à pesquisa histórica no território. 

Ele relata a atuação de grupos que monopolizaram fontes documentais e dificultaram o acesso de pesquisadores independentes, comprometendo o desenvolvimento cultural da região. 

Episódios como o desaparecimento dos livros de casamento da Paróquia do Acari, referentes ao período de 1854 a 1910, a ocultação deliberada do quarto livro de casamentos da Paróquia de Sant’Ana de Caicó, entre 1834 e 1867, e a incineração do arquivo público municipal de Caicó, que guardava quase trezentos anos de história, são ditos como exemplos emblemáticos de um processo de apagamento da memória coletiva. 

O autor não deixa de apontar, com franqueza, erros e equívocos presentes em obras genealógicas anteriores, reconhecendo, desse modo, que falhas humanas são inerentes a qualquer esforço dessa natureza.

Ao situar a genealogia dos 'Álvares' e de seus ramos em um contexto mais amplo, a obra aborda as variadas matrizes étnicas e culturais que contribuíram para a formação do povo seridoense. 

Sinval Costa menciona a presença de heranças hebraicas, associadas a genes transmitidos por Diogo Fernandes, israelita da época duartina em Pernambuco, relacionando o cultivo da genealogia à tradição monoteísta hebraica. Aponta ainda indícios de vínculos ancestrais com a nobreza europeia, especialmente por meio da família Holanda, cuja presença no Brasil remonta a Arnau de Holanda e Brites Mendes de Vasconcelos, que aportaram em Pernambuco em 1535, acompanhando Duarte Coelho. 

A partir dessa veia, o autor estabelece conexões com figuras históricas europeias e com famílias do Sertão do Seridó, como os 'Lopes Galvão', 'Lopes de Araújo' e 'Bezerra de Araújo', destacando o papel de Adriana de Holanda e Vasconcelos na fundação de Currais Novos. 

Não faltam referências simbólicas à heráldica da família 'Álvares', cujo brasão, com águia de duas cabeças coroadas, cruz de ouro e aneletes, remeteria à realeza, às cruzadas e à nobreza romana.

O livro também registra os movimentos migratórios de diversas famílias seridoenses, especialmente a partir de meados do século XIX, quando ramos como os Umarizeiros passaram a deslocar-se para regiões úmidas e semiúmidas do Nordeste e, mais tarde, para novas fronteiras agrícolas do Triângulo Mineiro. 

Paralelamente, apresenta uma extensa galeria de personagens que se notabilizaram na política, na vida militar, no clero, nas letras, na medicina e no comércio, compondo um painel vivo da elite regional. 

Figuram entre eles líderes como o Cel. Joaquim Martiniano Pereira (1865-1922), chefe político por décadas e último comandante da Guarda Nacional em Caicó; o coronel José Batista dos Santos, liderança central da família Batista; monsenhor Walfredo Dantas Gurgel (1908-1971), sacerdote, educador, fundador do PSD e governador do Rio Grande do Norte; o senador Dinarte de Medeiros Mariz (1903-1984); Vivaldo Silvino da Costa (n. 1939), médico, deputado, ex-governador e prefeito de Caicó; Agenor Nunes de Maria (1924-1997), senador e deputado federal; além de intelectuais, jornalistas, genealogistas, padres e mulheres de grande relevância social, como Maria José da Conceição, a célebre Mãe Dondon, parteira reverenciada por gerações.

A obra lança ainda luz sobre o cotidiano econômico e social do Seridó antigo, registrando a centralidade da criação de gado, o papel dos vaqueiros e boiadeiros, as atividades comerciais e artesanais, a existência da escravidão, documentada em inventários e registros paroquiais, bem como as condições de saúde, as causas frequentes de morte, os acidentes e os conflitos armados que envolveram seridoenses em episódios como a sedição de Joaquim Pinto Madeira e a Guerra do Paraguai. 

Organizado em dezesseis capítulos e estruturado com rigorosa notação genealógica para indicar os diferentes graus de descendência, o livro se impõe como um trabalho monumental, que ultrapassa o campo da genealogia estrita para oferecer um retrato profundo da formação histórica, social, política e cultural do Sertão do Seridó, revelando como memória, parentesco e poder se entrelaçam ao longo de séculos na tessitura do sertão nordestino.

A missão de resgatar a memória seridoense materializa-se, neste documento, como o relato da construção de uma obra genealógica de grande envergadura, dedicada a preservar e restituir a história das famílias do Seridó, com atenção especial à descendência do Capitão Domingos Álvares dos Santos (1710-1793) e de Joana Batista da Encarnação (1715-1791). 

Para o povo seridoense, a genealogia jamais constituiu simples passatempo acadêmico. Foi, antes, o fio condutor das conversas ao pé do fogo nas fazendas, o alicerce das alianças nas ribeiras e o orgulho familiar no meio urbano até meados do século XX. 

Tal tradição encontra-se profundamente ligada à religiosidade monoteísta da região e às suas relevantes origens hebraicas, das quais os israelitas Diogo Fernandes e a ascendente de Maria Rosa de Jesus, conhecida por Malília, figuram como exemplos formadores que deixaram marcas genéticas e culturais duradouras no povo local.

A obra resultante dessa longa investigação organiza-se em dezesseis capítulos. Os treze primeiros são inteiramente dedicados à análise minuciosa da descendência do casal fundador, examinada ramo por ramo. 

Os capítulos XIV e XV aprofundam-se na complexa etnogenia do povo do Seridó e em sua evolução histórica, enquanto o capítulo XVI examina a participação decisiva da família Holanda, de Pernambuco, na formação social da região. 

A edificação desse verdadeiro monumento da memória, porém, não se realizou sem obstáculos, exigindo metodologia persistente e uma ampla rede de colaboradores, cujo apoio se revelou indispensável diante das forças que se opunham à livre circulação da história.

A credibilidade de um trabalho histórico-genealógico não repousa apenas na diligência do autor, mas sobretudo na solidez metodológica e na inteligência coletiva da comunidade guardiã da memória. Importante fundamenta-se em método investigativo que alia tradição oral e verificação documental, validado e enriquecido por uma rede de apoio essencial, formada por acadêmicos, responsáveis por arquivos e cidadãos comuns. 

A pesquisa de Sinval Costa, v.g., teve início em 1957, com instrumentos simples, porém eficazes, como o lápis e o caderno. A estratégia inicial consistiu na coleta de dados por meio de entrevistas diretas com pais de família, chefes culturais de grupos e pesquisadores, personagens centrais na transmissão do saber oral.  Consciente, todavia, de que a oralidade exige comprovação, deve-se tentar no que foi possível, paralelamente, à conferência sistemática de todas as informações em arquivos civis e eclesiásticos, assegurando a veracidade e a precisão dos dados reunidos.

A construção de obras como essas, deve-se contar com o apoio decisivo de numerosos colaboradores. A revisão histórica deve ser fortalecida pela contribuição de especialistas reconhecidos. 

Olavo de Medeiros Filho (1934-2005) revisou criticamente os três primeiros capítulos da obra de Sinval Costa; Fernando Antônio Bezerra Galvão realizou revisão parcial dos capítulos V, VI e XVI; e Dorgival Terceiro Neto, além de revisar parcialmente o capítulo III, forneceu dados fundamentais sobre o entrelaçamento das famílias 'Vilar', 'Lopes Galvão' e 'Bezerra de Araújo'. 

O acesso aos arquivos primários foi viabilizado pela dedicação de verdadeiros guardiões da memória, entre os quais se destacam Sebastião Arnóbio de Morais, da paróquia de Jardim do Seridó; Laurentina Laura de Faria, de Sant’Ana de Caicó; e José Dias de Medeiros, do Tabelionato do Primeiro Cartório de Caicó. Também foi essencial a boa vontade do monsenhor Antenor Salvino de Araújo, da Capela do Papa, de Moacir Caldas do Amorim, escrivão em Jardim do Seridó, e de Rivaldo Freitas, tabelião em Florânia.

A principal fonte de informações, contudo, foi a própria comunidade. Estima-se que entre trezentas e quinhentas pessoas tenham participado ativamente, oferecendo dados por meio de entrevistas e manuscritos. Somam-se a essas contribuições aquelas oriundas da esfera política local, que igualmente forneceram informações relevantes para a consolidação do trabalho. O alicerce bibliográfico da pesquisa apoiou-se, ainda, nas obras de Câmara Cascudo, José Augusto e Olavo de Medeiros Filho, fundamentais para a sustentação historiográfica do estudo.

Apesar desse amplo e generoso apoio, a jornada investigativa foi marcada por severos desafios, configurando verdadeira guerra cultural em torno da memória do Seridó. O controle das fontes primárias foi utilizado como instrumento para impedir o trabalho de pesquisadores independentes e para moldar a narrativa histórica segundo interesses de grupos específicos. Tal hostilidade manifestou-se tanto pelo bloqueio de arquivos quanto pela destruição deliberada de acervos documentais. A partir de 1970, a Paróquia do Acari passou a impor restrições severas, culminando no desaparecimento dos livros de casamento referentes ao período de 1854 a 1910. Situação semelhante ocorreu no arquivo de Sant’Ana de Caicó, quando, no início da década de 1950, um livro de casamentos foi retido com o propósito de inviabilizar pesquisas históricas. No Tabelionato de Caicó, após a aposentadoria de José Dias de Medeiros, o arquivo do Primeiro Cartório Judiciário passou a adotar postura excludente, restringindo o acesso a poucos pesquisadores e afastando deliberadamente o autor desta obra.

Essas práticas culminaram no episódio mais trágico: a incineração de quase trezentos anos de história documental de Caicó e do Seridó, após o falecimento de Clementino Camboim, então guardião do arquivo público. Tal ato de barbárie insere-se em um contexto mais amplo de destruição cultural, que atingiu não apenas documentos, mas também o patrimônio natural da região. Diante desse cenário hostil e da proliferação de obras imprecisas, tornou-se imperativo proceder à correção rigorosa e pública do registro genealógico.

As retificações apresentadas ao longo da obra não configuram ataques pessoais, mas exercício necessário de rigor acadêmico. Erros, equívocos e imprecisões são naturais no processo de pesquisa, devendo, contudo, ser corrigidos sempre que identificados, em nome da verdade histórica. Assim, a crítica construtiva e a revisão permanente integram o próprio processo de construção do conhecimento.

No centro desta vasta investigação genealógica encontra-se o casal formado pelo Capitão Domingos Álvares dos Santos e Joana Batista da Encarnação. O inventário e o espólio deixados por Domingos, processados em 1793 na então Vila Nova do Príncipe, atual Caicó, constituem a peça básica para a elaboração de todo o trabalho. Conhecido também como Domingos Alves dos Santos ou Domingos Alexandre dos Santos, era geralmente identificado como “capitão Domingos Alves, da Fazenda Lajes”. Segundo a tradição, era português e chegou ao Seridó já casado, procedente da Capitania do Ceará. Faleceu em 16 de março de 1793, aos oitenta e dois anos, em sua Fazenda Lajes, sendo sepultado na Matriz do Seridó. Foi grande proprietário de terras, possuindo ao menos dezessete léguas quadradas, adquiridas por compra ou requeridas à Capitania da Paraíba.

Joana Batista da Encarnação, conhecida como Joana Brava, foi herdeira de cento e cinquenta braças de terras da Fazenda Riacho da Serra, patrimônio de seu pai, Feliciano Bringell de Andrade, no atual município de Janduís. Foi sepultada na Matriz do Seridó em 22 de agosto de 1791, contando então setenta e tantos anos de idade. O casal deixou numerosa descendência, que se espalhou por toda a região do Seridó e além dela. Seus filhos constituem o tronco fundamental da linhagem estudada, dando origem aos diversos ramos familiares que estruturam os capítulos iniciais da obra.

Dessa forma, o presente trabalho não se limita a enumerar nomes e datas, mas se afirma como esforço consciente de preservação da memória coletiva, de correção historiográfica e de valorização da identidade seridoense, alicerçada na verdade documental, na tradição oral e no compromisso ético com a história.

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