HIPÉRIDES LAMARTINE DE FARIA (1926 - 2014)

 

 Publicado em 1991, Velhas Oiticicas, de Pery Lamartine, ergue-se como um dos mais sensíveis e densos testemunhos memorialísticos sobre o sertão do Seridó, convertendo a experiência pessoal do autor em matéria literária de valor coletivo. A obra ultrapassa o simples registro autobiográfico para se afirmar como um vasto painel histórico, humano e afetivo, no qual a memória se impõe como força estruturante da narrativa e como instrumento de preservação de um mundo em vias de desaparecimento. O retorno à infância sertaneja constitui o eixo íntimo do livro: um regresso que não obedece à cronologia rígida, mas ao fluxo da lembrança, onde o homem maduro revisita o menino assombrado que foi, reconhecendo-se como produto indissociável do meio que o formou.

A escrita de Lamartine nasce do afeto e da saudade, mas não se limita à nostalgia idealizada. O sertão que emerge de suas páginas é vivo, contraditório, ora generoso, ora implacável, moldando o caráter de seus habitantes pela convivência diária com a terra, com o trabalho e com a incerteza. Nesse universo, pessoas, animais e paisagens são humanizados, como se compartilhassem uma mesma alma telúrica. A natureza deixa de ser cenário passivo para assumir papel ativo na constituição da identidade sertaneja, revelando a profunda ligação entre o homem e o espaço que habita.

As velhas oiticicas que dão nome à obra assumem valor simbólico central. Árvores robustas, de troncos retorcidos e copas amplas, elas representam abrigo, permanência e resistência, espelhando o próprio espírito seridoense: acolhedor, firme, solidário e profundamente enraizado na terra. Sob sua sombra, crianças brincavam, o gado repousava e os pássaros encontravam refúgio; à noite, contudo, convertiam-se em território de mistério e assombração, revelando a dupla face do sertão, sempre suspenso entre o encanto e o temor. Assim como essas árvores, o sertanejo aprende a resistir ao tempo e às intempéries, mantendo-se de pé mesmo quando tudo à volta parece ruir.

O Sítio das Cacimbas, núcleo afetivo da infância do autor, surge como microcosmo da vida sertaneja, onde o trabalho e a sobrevivência se articulavam em íntima relação com os ciclos naturais. A produção de queijos, a lida com o gado, o cultivo do algodão e o aproveitamento engenhoso dos recursos disponíveis compunham um modo de vida marcado pela autossuficiência e pela cooperação familiar. A dedicatória aos pais, que lhe ofereceram a própria experiência sertaneja como matéria da escrita, confere à obra um caráter de herança e continuidade, fazendo da memória um gesto de fidelidade e gratidão.

A adversidade maior do sertão, a seca, ocupa lugar fundamental na narrativa. Mais do que fenômeno climático, ela se apresenta como experiência existencial e prova moral, capaz de dizimar rebanhos, esvaziar povoados e testar os limites da esperança humana. Ao rememorar as grandes secas, especialmente a de 1932, Lamartine revela a engenhosidade, a solidariedade e a resignação ativa do povo sertanejo, que, mesmo diante da devastação, insiste em permanecer e recomeçar. A esperança, ainda que frágil, aparece como força última que sustenta a permanência no chão natal.

Povoam essa paisagem figuras emblemáticas, retratadas com humanidade e precisão, compondo uma galeria de tipos que sintetizam valores, saberes e contradições do sertão. Adolfo Goteira, seridoense autêntico e pescador respeitado, simboliza a vitalidade e a alegria que resistem ao peso da idade; o velho Hilário Dantas, vaqueiro experimentado, encarna a tradição transmitida de geração em geração; o tropeiro Sr. Lúcio representa o elo entre o sertão e o mundo mais amplo, portador de notícias, mercadorias e histórias. Animais como Lampião e Jararaca, bois mansos e trabalhadores, e a burra Desejada, símbolo de força e resistência, são descritos com a mesma dignidade conferida aos homens, reafirmando a humanização do universo sertanejo.

Também ganham relevo figuras femininas marcantes, como Tia Neném, mulher recatada, religiosa e decidida, cuja dedicação à educação e à vida produtiva da Fazenda Timbaúba revela o papel silencioso, porém fundamental, das mulheres na sustentação moral e econômica do sertão. Personagens excêntricos, andarilhos, vaqueiros teimosos e figuras marginalizadas compõem o retrato plural de uma sociedade complexa, na qual a honra, a liberdade e a sobrevivência se entrelaçam de formas singulares.

A Serra Negra, carinhosamente chamada de Serra Velha, surge como monumento natural e histórico, berço de famílias tradicionais e referência identitária para a comunidade. A lua cheia, por sua vez, é celebrada como espetáculo supremo da natureza sertaneja, inspirando cantos, lendas e fantasias, enquanto os antigos almanaques aparecem como fontes preciosas de saber e orientação em um tempo anterior aos modernos meios de comunicação, reunindo previsões, conselhos e versos que alimentavam a imaginação popular.

Ao longo de Velhas Oiticicas, Pery Lamartine afirma-se como memorialista do velho Seridó, cuidadoso guardião de um mundo que se construiu entre a dureza do clima e a delicadeza dos afetos. Sua prosa, lírica e precisa, transforma a lembrança individual em patrimônio coletivo, conferindo permanência literária a costumes, crenças e modos de vida frequentemente relegados ao esquecimento. A obra não apenas resgata o passado, mas o celebra, reconhecendo no sertão não um espaço de atraso ou estereótipo, mas uma civilização própria, rica em valores, saberes e humanidade.

Assim, Velhas Oiticicas consolida-se como testemunho histórico e literário de rara sensibilidade, no qual a memória se converte em ato de resistência contra o apagamento do tempo. Ao narrar sua infância, Pery Lamartine eterniza o sertão do Seridó e seus habitantes, reafirmando o poder da literatura de preservar, compreender e dignificar a experiência humana em todas as suas dimensões.

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