OSWALDO LAMARTINE DE FARIA
Oswaldo Lamartine de Faria: A Plenitude do Sertão em Letras
Nascido em 15 de novembro de 1919, em Natal, e falecido na mesma cidade em 28 de março de 2007, aos 87 anos, Oswaldo Lamartine de Faria foi um dos mais notáveis intelectuais do Rio Grande do Norte. Sua vida foi um elo inseparável com a terra e a cultura sertaneja, um legado que se manifesta em uma obra vasta e profundamente enraizada. Filho de Juvenal Lamartine de Faria, ex-governador do estado, e Silvina Bezerra de Faria, Oswaldo foi o único na família a registrar formalmente o sobrenome "Lamartine" desde o nascimento, um gesto que prenunciava sua futura dedicação à identidade potiguar.
Como técnico-agrônomo, sua trajetória profissional o levou a atuar como professor rural, técnico do Banco do Nordeste e administrador de fazendas. No entanto, foi como sertanista que ele se consagrou, dedicando aproximadamente 60 anos à pesquisa incansável do sertão potiguar. Sua abordagem não se limitava à mera observação, mas era forjada a partir da vivência e do testemunho, o que conferiu a seus escritos um rigor técnico e uma autenticidade inquestionáveis.
Oswaldo Lamartine publicou mais de 20 livros, que se tornaram fontes primárias para o estudo da cultura material do sertão. Em vez de mitificar a região, ele se debruçou sobre seus aspectos práticos e históricos, como as ferramentas, os saberes ancestrais e as vocações de seu povo. Entre suas obras mais importantes estão "Notas sobre a pescaria de açudes no Seridó" (1950), "A caça nos sertões do Seridó" (1961), "Vocabulário do criatório norte-rio-grandense" (1966) e "Apontamento sobre a faca de Ponta" (1988). Ele também explorou temas variados, como a conservação de alimentos, o estudo das abelhas e a história dos ferros de marcar gado.
Sua contribuição para a literatura e para a etnografia do sertão foi amplamente reconhecida. Foi membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, ocupando a cadeira 22. A escritora Rachel de Queiroz, uma de suas mais admiradas interlocutoras, chegou a afirmar que "no Brasil, ninguém entende mais de sertão e de Nordeste do que Oswaldo Lamartine". A relevância de seu trabalho foi reafirmada em 2024, quando o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte iniciou um esforço de organização de seu acervo documental, garantindo a preservação de manuscritos, correspondências e fotografias que lançam luz sobre sua vida e obra.
A Obra de Oswaldo Lamartine: Um Legado Resgatado pela UFRN
A Editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EDUFRN) comemora seu 60º aniversário com o lançamento da coleção "O Sertão de Oswaldo Lamartine". Trata-se de um trabalho de resgate inédito, agora disponível gratuitamente no Repositório Institucional da UFRN. A coleção, composta por cinco volumes, reúne a essência de um dos maiores sertanistas brasileiros, um intelectual que dedicou sua vida a documentar a cultura, a história e a geografia do sertão do Rio Grande do Norte.
O "Sertanólogo" de Caicó a Natal
Oswaldo Lamartine de Faria (1919-2007), filho do ex-governador Juvenal Lamartine de Faria, era um mobilizador de memórias, um guardião de um tempo autêntico. Sua figura, magra e reta como um personagem clássico da literatura regional, refletia a firmeza com que defendia sua identidade sertaneja. Embora nascido em Natal, seu coração e sua obra estavam enraizados no Seridó, território que se estende pelo Rio Grande do Norte e Paraíba.
A coleção, idealizada por Graco Aurélio Melo Viana, Helton Rubiano e Vicente Serejo, foi resultado de uma minuciosa pesquisa, digitalização e edição. O design, moderno e convidativo, inclui ilustrações do artista plástico potiguar Newton Navarro, com o objetivo de tornar a obra acessível às novas gerações. Os volumes trazem, ainda, depoimentos de nomes de peso da literatura brasileira, como Ariano Suassuna, Virgílio Maia e Rachel de Queiroz, e uma bibliografia completa produzida por bibliotecárias da Biblioteca Central Zila Mamede (BCZM/UFRN).
Um Acervo Detalhado do Sertão
Os cinco volumes de "O Sertão de Oswaldo Lamartine" oferecem um mergulho profundo no universo sertanejo.
Volume 1: Aborda temas como a Guerra dos Índios no Seridó, a apicultura ("Algumas abelhas dos sertões do Seridó") e a conservação de alimentos. No texto sobre o genocídio indígena, Lamartine narra a luta desigual de "arco e tacape contra a pólvora e o aço".
Volume 2: Dedicado aos recursos hídricos e às práticas pesqueiras, com os textos "ABC da pescaria dos açudes do Seridó" e "Os açudes dos sertões do Seridó".
Volume 3: Explora a cultura do vaqueiro em "Encouramento e arreios do vaqueiro do Seridó", além de detalhar a "Faca de ponta" e o "Ferro de Ribeiras do Rio Grande do Norte".
Volume 4: Um verdadeiro tesouro etnográfico, o "Vocabulário do criatório norte-rio-grandense" é um dicionário que não apenas define termos, mas explica a importância de cada elemento na cultura sertaneja. A obra é uma viagem no tempo para redescobrir a linguagem de um passado rural.
Volume 5: Apresenta a entrevista "Em Alpendres D’Acauã: Conversa Com Oswaldo Lamartine De Faria", organizada por Natércia Campos, que reúne vozes de intelectuais como Rachel de Queiroz e Ariano Suassuna. Além disso, o volume traz os discursos da solenidade de outorga do título de Doutor Honoris Causa da UFRN a Lamartine, em 2005.
A iniciativa da EDUFRN, financiada pela Pró-reitoria de Extensão, foi celebrada pelo reitor da UFRN, José Daniel Diniz Melo, que destacou a importância de ordenar a vasta obra do autor, antes dispersa. "A UFRN se sente feliz em lhe outorgar este título", disse o então reitor José Ivonildo Rêgo durante a homenagem em 2005, reconhecendo o notório saber de Lamartine e seu legado para a cultura potiguar e brasileira.
O Legado de um Sertanejo "Soberbo e Não Ingrato"
Em seu discurso de agradecimento, marcado por uma humildade tocante, Oswaldo Lamartine minimizou seus méritos, atribuindo o título a seu povo. "Não sou soberbo nem ingrato. Agradeço a vosmecês... o que botei no papel foram apenas momentos do dia a dia do nosso sertanejo", afirmou, finalizando com um toque de bom humor: "façam agora como mandam aquele menino: batam palmas com vontade, faz de conta que é turista".
Amigo de grandes nomes como Rachel de Queiroz, que o descrevia como um "anjo magro e lacônico", e Ariano Suassuna, que o conheceu ainda na infância, Oswaldo Lamartine foi um intelectual que transcendeu a academia. Sua obra, que abrangeu 21 livros, tornou-se uma referência para Gilberto Freyre e José Lins do Rego, e sua prosa impecável e seu conhecimento profundo do semiárido seridoense garantiram-lhe um lugar de destaque na galeria dos maiores nomes da cultura nordestina.
O documento apresenta uma exploração aprofundada da região do Seridó, no Nordeste do Brasil, com foco nas obras do autor Oswaldo Lamartine. Os textos abordam a geografia física e humana da área, detalhando sua história, cultura e as mudanças que a afetaram. Abrange aspectos como a pecuária e sua evolução, a introdução e o impacto do cultivo do algodão, e a mineração de minérios estratégicos durante a Segunda Guerra Mundial. A publicação também descreve a flora e a fauna local, discute a conservação da água e os métodos tradicionais de armazenamento e preparação de alimentos, e examina a apifauna da região, incluindo a rarefação de espécies de abelhas devido às alterações ambientais. O trabalho é um tributo à obra de Lamartine, ressaltando sua importância para o conhecimento do semiárido seridoense.
O Sertão de Oswaldo Lamartine - Uma Análise Multifacetada da Região do Seridó
Este briefing documental compila e analisa as principais temáticas e informações contidas nos excertos do livro "O Sertão de Oswaldo Lamartine - Volume 1" (2022), uma obra póstuma que reúne textos do autor potiguar Oswaldo Lamartine de Faria (1919-2007). As fontes abordam a história, economia, geografia, cultura, modos de vida e desafios socioambientais da região do Seridó, no Rio Grande do Norte, com um foco particular na caça, apicultura e conservação de alimentos.
I. Oswaldo Lamartine de Faria: O "Mestre Sertanólogo" do Seridó
Oswaldo Lamartine de Faria é reconhecido como uma figura de suma importância para o estudo do semiárido seridoense, apesar de não ter pertencido à academia formal. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte em 2005. Sua obra, elogiada por intelectuais como Gilberto Freyre, Rachel de Queiroz, Ariano Suassuna e José Lins do Rêgo, aborda a "geografia física e humana" do Seridó, incluindo "a pecuária, a fauna, a flora, os instrumentos de trabalho, as técnicas de armazenamento de água, as serras e a caatinga, o vaqueiro, a comida, a lírica popular." (Reitor José Daniel Diniz Melo, Apresentação).
Destaques da Relevância do Autor:
- Autoridade Inquestionável: Rachel de Queiroz afirma: "Acho que, no Brasil, ninguém entende mais do sertão e do Nordeste do que Oswaldo."
- Legado Familiar: Herdava do pai, Juvenal Lamartine (ex-governador e pesquisador de tradições seridoenses), o "amor irrecorrível pelo sertão do Seridó."
- Conexões Pessoais e Intelectuais: Manteve fortes laços com outros grandes nomes da cultura nordestina, como Rachel de Queiroz e Ariano Suassuna, que o considerava "um dos homens mais íntegros" que conheceu.
- Observador Detalhista: Sua escrita é rica em detalhes sobre a vida sertaneja, incluindo glossários de termos regionais e descrições minuciosas de objetos e costumes.
II. O Mundo Seridoense: Geografia, Povoamento e Economia
A região do Seridó, localizada a oeste da Chapada da Borborema, abarca 15 municípios (com 16 citados na obra original) e totaliza 9.544 km². Caracteriza-se por uma topografia ondulada, solo erodido, pedregoso e raso, e uma vegetação espinhenta e retorcida de caatinga, dominada por cactáceas.
A. Povoamento e Ciclos Econômicos:
- Primeira Penetração (Século XVII): O povoamento do Seridó foi impulsionado pela criação de gado após a Guerra dos Índios (1654-1697). Os "currais" e o "rastro-fêmea do boi explicam o povoamento do Seridó." (A caça nos sertões do Seridó, p. 27).
- Ciclo do Couro: O domínio econômico do curral durou mais de cem anos, com o couro sendo a principal matéria-prima para diversos itens, desde vestuário a utensílios. A relação entre "sinhô" e escravo na vaqueirice era de proximidade e partilha de riscos. A miscigenação era forte, com 44% da população classificada como parda em 1824.
- O "Ouro Branco" (Algodão Mocó): A valorização do algodão mocó (Gossypium purpurascens Poir) no século XIX marcou uma transição econômica, "espremendo o gado nos cercados" e transformando as várzeas e caatingas. A introdução do algodão de fibra longa, mesmo com sua origem "no terreno de pura especulação" (A caça nos sertões do Seridó, p. 35), se tornou a "lavoura-dinheiro" do Nordeste seco.
- Mineração (Século XX): A II Guerra Mundial impulsionou a exploração de minérios estratégicos como xelita, tantalita e berilo no Seridó, evidenciando a "fabulosa riqueza do Nordeste" (Prof. Paulo Vageler, citado em A caça nos sertões do Seridó, p. 56). A região se tornou uma importante fonte de minerais, com histórias como a do jovem cego Joel Dantas, que identificava minas "com os olhos dos dedos".
- Pecuária Leiteira Atual: Atualmente, há uma tendência para a pecuária leiteira, com o gúbere da vaca se tornando fonte de renda. A popularização da desnatadeira levou ao surgimento de intermediários de leite e à produção de queijo magro, em detrimento do tradicional "queijo de manteiga" (coração de negro).
B. Clima e Paisagem:
- Semiárido: O Seridó é uma região de chuvas "esparsas e mal distribuídas", com Currais Novos registrando uma das menores médias anuais de precipitação do estado (398,3 mm). A insolação é intensa, com quase 3.000 horas de luz solar por ano e temperaturas elevadas.
- Vegetação Adaptada: A caatinga é descrita como "espinhenta, retorcida, agressiva, parecendo mesmo torturada" (Euclides da Cunha, citado em A caça nos sertões do Seridó, p. 47). As cactáceas e formas xerófilas dominam, com a vegetação despida se vestindo de folhagem efêmera nas primeiras chuvas.
- Erosão: O solo é intensamente erodido, contribuindo para a "miseria edafológica" e a degradação da caatinga.
- Secas Recorrentes: O "kalendário das secas" (A caça nos sertões do Seridó, p. 52) demonstra a recorrência histórica desses eventos, que impactam profundamente a vida e a economia local.
- Açudagem: A construção de açudes, tanto públicos quanto particulares, é uma resposta à escassez hídrica, permitindo o aumento da criação de gado e o desenvolvimento de "culturas de vazantes" nos leitos secos dos rios.
III. Modos de Vida e Cultura Sertaneja
A obra de Lamartine não apenas descreve a região, mas também documenta os costumes, crenças e a resiliência do povo seridoense.
A. A Caça nos Sertões do Seridó:
- Necessidade e Tradição: A caça, historicamente, não era uma profissão, mas uma atividade "episódica, esportiva" e de "necessidade de defender o rebanho dos estragos feitos pelos grandes carnívoros." (A caça nos sertões do Seridó, p. 68).
- Caçadores Notáveis: Figuras lendárias como Miguelão das Marrecas e Cazuza Sátiro (José Sátiro de Sousa), conhecido por caçar onças sem remuneração e por sua personalidade carrancuda, são exemplos da bravura e sagacidade dos caçadores. Cazuza Sátiro era famoso por seus "cachorros onceiros," tratados com carne desossada para não estragar as presas.
- Declínio da Caça: A caça profissional é rara atualmente devido à "alarmante rarefação da fauna cinegética local" e a extinção de espécies. O sertanejo hoje "vive da espingarda" apenas em "extrema penúria da seca".
- Indumentária e Apetrechos: A vestimenta do vaqueiro, como a "armadura de um vermelho pardo" (Euclides da Cunha, citado em A caça nos sertões do Seridó, p. 47), reflete a adaptação ao ambiente. Instrumentos de caça, como bacamartes e azagaias, e apetrechos como o "badaneco" (bolsa para fumo, pólvora, etc.) são detalhados.
- Métodos de Caça: Incluem perseguição (com cachorros, furão, por rastejamento), espera (fojo de arribaçã, carniça, arremedo de bichos) e armadilhas diversas (mundé, quebra-cabeça, fojos, arataca, chiqueiro, arapuca, laço, etc.).
- A Arte do Rastejamento: O "rastejador" é uma figura central na cultura sertaneja, capaz de seguir "rastros" imperceptíveis para outros, como evidenciado em histórias e na literatura (Zadig de Voltaire, Facundo de Sarmiento). Eles são "perspicazes observadores" que leem o chão e os matos.
- Crendices da Caça: Muitas superstições estão ligadas aos instrumentos de caça e aos animais, especialmente os cachorros. Por exemplo, "atirar em urubu ou consentir que alguma mulher pegue na espingarda são motivos suficientes para inutilizá-la" (A caça nos sertões do Seridó, p. 75). A figura da Caipora, "mãe do mato" e protetora da caça, também é proeminente nas crenças locais.
B. Abelhas dos Sertões do Seridó:
- Declínio da Fauna Apícola: A "rarefação da flora nectarífera e das essências onde mais nidificam" (Algumas abelhas dos sertões do Seridó, p. 177) é um fator chave para o declínio das abelhas silvestres. O "gume do machado" e o "desequilíbrio biológico" são apontados como as principais causas.
- Espécies Nativas: São identificadas 18 espécies de abelhas silvestres, com destaque para a Jandaíra Potiguar, Amarela, Arapuá e Canudo. Algumas espécies, como a Uruçu, são raras ou nunca existiram na região.
- Apicultura Tradicional: A coleta de mel era uma atividade extrativista e muitas vezes predatória, com o corte de árvores para a retirada de colmeias. Há relatos de intoxicação por mel de abelhas limão, que causaria embriaguez.
- Potencial da Meliponicultura: Apesar do declínio, algumas espécies nativas são consideradas "perfeitamente passíveis de serem exploradas" economicamente, com vantagens sobre as abelhas europeias, especialmente pela polinização de culturas.
C. Conservação de Alimentos:
- Água: A conservação da água é uma preocupação constante. Utilizavam poços, cacimbas e, posteriormente, açudes. A água era armazenada em "borrachas" (sacos de couro), "cabaças", ancoretas e, com a introdução da cerâmica, em quartinhas, potes e jarras. As "cisternas" eram usadas pelos mais abastados para armazenar água da chuva.
- Carnes: A "carne de sol" (ou jabá), temperada com sal fino e seca ao sol e vento, era e ainda é um alimento básico e preferido. O processo de preparo é detalhado, desde o abate do animal até o empilhamento das mantas. A linguiça de porco também era uma forma de conservação.
- Leite e Derivados: O "queijo de manteiga" (coração de negro) era um produto tradicional e duradouro, mas a popularização da desnatadeira levou à produção de queijo magro, de consumo imediato. A "manteiga de garrafa" era outra forma de conservação do leite.
- Sementes e Cereais: A conservação de feijão e milho era crucial para a sobrevivência nos meses de seca. Métodos incluíam o armazenamento em "saca de couro", "latas", "silos" (metálicos ou improvisados), e a utilização de sebo, azeite de carrapateira, rapadura, água fervendo, torrefação ou carbureto. A "areia" e a "cinza" também eram usadas como métodos de armazenamento em "paióis".
- Outros Alimentos: Jerimum (abóbora) era cultivado e armazenado em locais secos e ventilados, e suas sementes guardadas com cinzas. A rapadura, um alimento versátil, era conservada seca e em locais arejados para evitar que "chorasse" (derretesse).
IV. Desafios e Perspectivas
A obra de Oswaldo Lamartine, em sua essência, serve como um alerta para a "descaracterização que vem sofrendo o meio pelos elementos adventícios da civilização moderna" (Sumário, p. 156).
Principais Conclusões:
- Degradação Ambiental: A expansão desordenada da cultura algodoeira e a prática da "coivara" (derrubada e queima da vegetação) levaram à substituição da flora nativa e ao "desequilíbrio biológico", afetando a fauna cinegética e apícola. Há uma "alarmante rarefação da fauna cinegética local e a extinção, em menos de 50 anos, de 13% das espécies." (A caça nos sertões do Seridó, p. 107).
- Ausência de Políticas Conservacionistas: A falta de uma "política conservacionista que preserve os recursos naturais contra o imediatismo e a imprevidência daquela comunidade" (Sumário, p. 157) é um tema recorrente. O "Código de Caça e Pesca" existente é visto como ineficaz.
- Impacto das Secas: As secas periódicas intensificam a pressão sobre os recursos naturais, levando à caça predatória e ao êxodo populacional.
- Transformações Socioeconômicas: A economia seridoense se modernizou, mas a "elevada concentração da população economicamente ativa nos setores primários" (Sumário, p. 156) ainda aponta para um estágio de desenvolvimento menor em comparação com o resto do estado.
Em suma, "O Sertão de Oswaldo Lamartine" é um registro etnográfico e histórico fundamental que não só preserva a memória de uma cultura rica e adaptada a um ambiente desafiador, mas também serve como um chamado à reflexão sobre a necessidade urgente de preservar os recursos naturais e a identidade de uma região singular do Nordeste brasileiro. O futuro do sertanejo, como o autor adverte, corre o risco de herdar "um chão sem rastros de bichos e silencioso de cantos dos pássaros. Paisagem morta e de fauna sintética..." (A caça nos sertões do Seridó, p. 111).
"O Sertão de Oswaldo Lamartine de Faria: a biografia de uma obra" por Gustavo Sobral
Este dossiê detalha os principais temas, ideias e fatos presentes na obra "O Sertão de Oswaldo Lamartine de Faria: a biografia de uma obra" de Gustavo Sobral, com citações relevantes dos excertos fornecidos.
1. Contexto da Obra e do Projeto "Natal 420 Anos"
O livro de Gustavo Sobral é parte do projeto "Natal 420 Anos", idealizado para celebrar o quadragésimo vigésimo ano (420 anos) de fundação da Cidade de Natal em 2019. O projeto, enquadrado no Programa Municipal de Incentivos Fiscais a Projetos Culturais Djalma Maranhão e patrocinado pelo Colégio CEI – Romualdo Galvão, visa "registrar parte da história da cidade e o trabalho de grandes e significativos pesquisadores, deixando para as gerações futuras o registro de sua memória".
Natal, fundada em 1599, possui uma rica história de denominações, incluindo "Natal los Reis ou Rio Grande, Natal ó los Reys, Cidade Nova, Ciudad Nova, Cidade de Santiago, New Amsterdam, Nova Amsterdã, ou simplesmente Amsterdã, Natalópolis e Vila de Natal", segundo Câmara Cascudo.
2. O Autor e a Obra
O ensaio de Gustavo Sobral é uma biografia da obra de Oswaldo Lamartine de Faria, traçando seu desenvolvimento intelectual como pesquisador desde os primeiros artigos e correspondências. Sobral é jornalista e escritor, com interesse em jornalismo, literatura, história e memória, buscando através desta biografia "aproximar-se e percorrer este universo".
A obra de Oswaldo Lamartine de Faria se concentra nos "Sertões do Seridó", uma região do Rio Grande do Norte caracterizada por fazendas de gado e algodão, serras e açudes. Oswaldo dedicou mais de cinquenta anos a essa pesquisa, publicando-a em jornais, revistas, plaquetes e livros, inserindo-se na "tradição brasileira dos que se debruçaram sobre o tema".
3. Oswaldo Lamartine de Faria: Pesquisador do "Sertão de Nunca-Mais"
Oswaldo Lamartine de Faria é apresentado como etnógrafo e pesquisador do que ele chamava de "o sertão de nunca-mais". Sua obra é um esforço para documentar e preservar um passado que se perdia devido ao progresso. Ele colecionava objetos e lembranças que representavam a história do sertão, formando um "arquivo memorialístico".
- O Seridó como Espaço e Tempo: O Seridó é definido como "um espaço e um tempo construído por processos discursivos", uma formação histórica e cultural que Oswaldo ajudou a perpetuar. A região, espacialmente localizada no Nordeste, Estado do Rio Grande do Norte, é descrita com detalhes geográficos e climáticos.
- A Tradição dos Estudos Sertanejos: Oswaldo filia-se a uma tradição de estudos sertanejos no Rio Grande do Norte, continuada por figuras como Manoel Dantas, José Augusto Bezerra de Medeiros e Juvenal Lamartine (seu pai). Diferente de obras ficcionais, a abordagem de Oswaldo, assim como a de Euclides da Cunha, era não ficcional, revelando as "riquezas e agruras" do sertão.
- O "Sertão de Nunca-Mais": A expressão "sertão de nunca-mais" é central para entender a motivação de Oswaldo. Ele perseguia o que "desaparece", denunciando em sua obra o fim de práticas e essências do sertão com a chegada do progresso (automóvel, rádio, cultura urbana). Essa visão é ecoada por Câmara Cascudo.
- A Importância dos Mestres e Fontes Orais: Oswaldo reconhecia a importância dos conhecimentos práticos dos sertanejos. Ele agradecia a seus "mestres" da Fazenda Lagoa Nova, como Pedro Ourives (seleiro), Zé Lourenço (fazedor de barragens), Chico Julião (caçador de abelhas), Bonato Liberato Dantas (pescador de açudes) e Olinto Inácio (rastejador e vaqueiro). Essas figuras foram "quem me desasnaram de cada coisa".
4. Amizades e Influências Intelectuais
Oswaldo Lamartine mantinha um círculo de amizades e correspondências com importantes intelectuais brasileiros, que o influenciaram e apoiaram em suas pesquisas.
- Câmara Cascudo: Considerado por Oswaldo seu "grande incentivador e mentor". A amizade e a correspondência entre eles eram assíduas, com Cascudo aconselhando Oswaldo sobre pesquisas etnográficas e solicitando sua colaboração para obras como "História da Alimentação no Brasil". Cascudo incentivou Oswaldo a "vá estudar o sertão".
- Gilberto Freyre: Mauro Mota, outro intelectual, registrou que Gilberto Freyre considerava Oswaldo "um dos melhores etnógrafos do Brasil". Freyre o mencionou como uma "promessa nos estudos acerca do sertão" em sua coluna na revista "O Cruzeiro", destacando a relevância do folclore na reconstituição do passado social e cultural do Brasil.
- Rachel de Queiroz: Oswaldo foi consultor "inestimável" de Rachel de Queiroz para a composição de seu romance "Memorial de Maria Moura" (1992). Ele forneceu informações detalhadas sobre "hábitos locais, os trastes domésticos, a alimentação, as bebidas", além de "roupas e armas", com desenhos precisos. Rachel de Queiroz afirmava: "acho que, no Brasil, ninguém entende mais do sertão e do nordeste do que Oswaldo".
- Outras Correspondências: Oswaldo trocava cartas com diversos intelectuais, como Veríssimo de Melo, Vingt-Un Rosado, Olavo Medeiros Filho, Pery Lamartine (seu sobrinho) e Zila Mamede, utilizando essas correspondências como uma forma de "garimpo para colecionar informações necessárias a sua escrita dos sertões do Seridó".
5. Trajetória Pessoal e Profissional
Oswaldo Lamartine de Faria nasceu em Natal em 1919, filho do ex-governador Juvenal Lamartine de Faria. Sua educação formal incluiu o Colégio Pedro II, Ginásio do Recife, Instituto Lafayette e a Escola Superior de Agricultura de Lavras (MG), onde se formou como técnico agrícola.
- Fazenda Lagoa Nova: Após a formação, administrou a Fazenda Lagoa Nova de seu pai (1941-1948), onde seu interesse e pesquisas sobre o sertão se aprofundaram. Foi nesse período que ele conheceu os mestres práticos que tanto valorizava.
- Carreira e Migrações: Trabalhou como professor na Escola Doméstica de Natal, administrou colônias agrícolas no Maranhão e Pium/RN, e posteriormente ingressou no Banco do Nordeste do Brasil, fixando-se no Rio de Janeiro até sua aposentadoria.
- Religiosidade e Valores: Era um homem de "muita fé, mas muito discreto e reservado no seu misticismo". Contribuía anonimamente para a Irmandade Nossa Senhora Mãe dos Homens, arcanjo com o salário do capelão em momentos de dificuldade. Amava a terra e o sertão, e sua visão cultural e antropológica foi "cristianizada" pela amizade com Monsenhor Expedito.
6. Os Primeiros Estudos e a Formação do Pesquisador
A produção escrita de Oswaldo começou na segunda metade da década de 1940, com artigos em jornais e revistas.
- Início na Imprensa: Ele colaborou com a "Revista Nordeste" e o "Diário de Pernambuco" a partir de 1948. Seus primeiros artigos incluíram "Métodos de caça do sertanejo norte-rio-grandense", "Notas sobre a pobreza" e "Cangaço & coiteiros".
- Reconhecimento: Apesar de sua timidez, que o levou a interromper a escrita sobre o cangaço após um elogio de José Lins do Rego, Oswaldo recebeu "respaldo dos seus pares e o incentivo para a continuação de suas pesquisas". Ele foi "anunciado novo colaborador" no Diário de Pernambuco como "um dos nomes mais destacados da nova geração de escritores do seu Estado, através das suas tendências de sociólogo".
- "Notas" como Gênero: Seus primeiros estudos eram intitulados "notas", como "Notas sobre a pobreza" e "Notas sobre a pescaria", revelando um estilo descritivo e aprofundado do universo do Seridó.
- Proposta de Divulgação Técnica: Em "Sugestões para divulgação da literatura técnica" (1955), Oswaldo propôs o uso da literatura de cordel como um meio eficaz de divulgar informações técnicas para o sertanejo, demonstrando sua preocupação em adaptar o conhecimento à realidade local.
7. Temas e Abordagem Metodológica da Obra
A obra de Oswaldo Lamartine é marcada por uma metodologia consistente, com elementos recorrentes em seus livros.
- Geografia e Povoamento: Todos os seus livros iniciam com a localização e descrição do Seridó, incluindo informações sobre municípios, clima, solo e a origem do povoamento, que se deu pela criação de gado e algodão.
- Etnografia e Observação Participante: Oswaldo praticava uma etnografia que, embora não explicitamente declarada, é evidente em seus trabalhos. Ele se valia da "vivência" e da "participação" no objeto investigado, além da coleta de "depoimentos orais", buscando "registrar uma cultura que se perde".
- Linguagem e Vocabulário: Oswaldo construiu uma "linguagem dos sertões do Seridó", utilizando um "vocabulário próprio" da região. Ele inseria notas de rodapé com definições de termos e expressões típicas, "traduzindo para o leigo o próprio sertão".
- Documentação e Detalhe: Seus estudos são caracterizados pela "enumeração dos detalhes, a descrição das formas e os tipos de instrumentos empregados". Ele integrava dados estatísticos de fontes como o DNOCS e o IBGE, tornando seus estudos "atuais e profundos".
- Ilustrações: Os livros de Oswaldo são "fartamente enriquecidos com ilustrações", incluindo desenhos de Percy Lau e, notavelmente, seus próprios "desenhos descritivos e instrutivos", que detalham instrumentos, indumentárias e práticas.
- Preocupação com o Livro como Objeto: Oswaldo tinha um grande "apego ao livro" e se preocupava com os aspectos gráficos e estéticos de suas publicações. Ele determinava os pormenores de cada edição, desde o papel e a fonte até a capa e a costura, buscando "mais dignidade ao livro".
- Curadoria Bibliográfica: Além de suas pesquisas originais, Oswaldo era um bibliófilo e organizador de livros. Ele preparou antologias e trabalhou em edições comentadas, como a "Carta da Seca", revelando seu conhecimento de "livros raros e antigos". Seu livro "Escriptos da agricultura do império do Brazil" é um levantamento bibliográfico minucioso sobre literatura agrícola e pecuária do período imperial.
- O "Anotador": Questionado sobre sua definição profissional, Oswaldo se autodenominava "anotador", refletindo seu método de registrar minuciosamente os fatos e características do sertão.
8. Principais Obras e Temáticas
A bibliografia de Oswaldo Lamartine de Faria, compilada por Tércia Marques e Margareth Menezes, mostra uma produção diversificada e focada no universo sertanejo.
- "A caça nos sertões do Seridó" (1961): Considerado o primeiro livro da coleção "Documentação da Vida Rural", ele aborda a fixação do homem no Seridó, a pecuária, a agricultura e as técnicas de caça, incluindo indumentária, apetrechos e folclore associado.
- "A.B.C. da pescaria de açudes no Seridó" (1961): Uma "cartilha" sobre os fundamentos da pescaria, detalhando métodos, instrumentos e tipos de peixe, com base em estudos anteriores e depoimentos.
- "Conservação dos alimentos nos sertões do Seridó" (1965): Descreve minuciosamente a viagem até o Seridó e o cenário da região, antes de abordar as técnicas de conservação de alimentos e a dieta do sertanejo.
- "Vocabulário do criatório norte-rio-grandense" (1966, com Guilherme de Azevedo): Um dicionário enciclopédico de termos e expressões relacionados à atividade criatória, dedicado ao vaqueiro e com ampla consulta a especialistas.
- "Encouramento e arreios do vaqueiro no Seridó" (1969): Detalha a história do gado e cavalo no Brasil, o papel do curtidor e a indumentária completa do vaqueiro e seus apetrechos.
- "Silo-família no Seridó" (1970): Aborda a agricultura na região, o sistema de parceria e a importância dos silos domésticos para pequenos produtores.
- "Açudes dos sertões do Seridó" (1978): Uma pesquisa histórica sobre a construção dos açudes, sua função no Seridó e um levantamento detalhado de açudes públicos e particulares.
- "Sertões do Seridó" (1980): Uma seleta de cinco trabalhos anteriores: "Açudes dos sertões do Seridó", "Conservação dos alimentos nos sertões do Seridó", "Algumas abelhas dos sertões do Seridó", "ABC da pescaria de açudes do Seridó" e "A caça nos sertões do Seridó".
- "Algumas peças líticas do Museu Municipal de Mossoró" (1982): Reúne desenhos e descrições minuciosas de artefatos arqueológicos.
- "Ferro de ribeiras do Rio Grande do Norte" (1984): Estudo sobre a prática milenar de ferrar animais para demarcação de propriedade, suas origens e significado heráldico.
- "Seridó no século XIX: fazendas e livros" (1987, com João Medeiros Filho): Inventário da biblioteca do sertanejo do século XIX, classificando livros em "gaveta", "prateleira" e "oratórios".
- "Pseudônimos & iniciais potiguares" (1985, com Raimundo Nonato da Silva): Uma lista alfabética de pseudônimos e iniciais de conterrâneos em escritos.
- "Escriptos da agricultura do império do Brazil" (1998): Uma bibliografia comentada de literatura agrícola e pecuária do período imperial, organizada por assunto e autor.
- "Notas de carregação" (2001): Reunião de textos variados publicados entre 1947 e 2000 em jornais e revistas.
- "Em alpendres d’Acauã: conversa com Oswaldo Lamartine de Faria" (2001): Livro de perguntas e respostas, reunindo indagações de amigos e intelectuais a Oswaldo.
- "O Sertão de nunca-mais" (2001): Discurso proferido na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras.
- "Carta da Seca, de Targino P. Pereira" (2005): Edição comentada de uma carta antiga sobre a seca.
9. Legado e Contribuição
Oswaldo Lamartine de Faria é reconhecido como um dos maiores estudiosos do sertão nordestino. Sua obra é "inalcançável" e essencial para quem busca entender os sertões do Seridó.
- Intérprete do Brasil: Sua obra se insere na "coleção de estudos brasileiros", integrando a "série de intérpretes do Brasil" que buscaram discutir o país através de pesquisa documental e veia interpretativa.
- Estilo Literário e Científico: Oswaldo unia o rigor científico e metodológico à uma "linguagem própria" e um "estilo inconfundível", comparável a Graciliano Ramos pela concisão e a Guimarães Rosa pela riqueza vocabular.
- Preocupação com a Preservação: Sua pesquisa era movida pelo desejo de "fixar" e registrar um "sertão mítico" que estava desaparecendo, tornando-se uma "literatura completa e definitiva sem a qual não se passa, quem quer que seja, que vá falar dos sertões do Seridó".
- Obra para o Futuro: Oswaldo Lamartine deixou um vasto material que "poderia muito servir de subsídio para a implementação de políticas públicas" e para "futuros estudos e pesquisas". Sua obra, embora de "difícil acesso" hoje, é um "precioso manancial de informações bibliográficas".
Em suma, a obra de Gustavo Sobral destaca Oswaldo Lamartine de Faria como um pesquisador fundamental, um "garimpeiro" do saber sertanejo, que, com paixão e rigor, construiu um legado documental e literário sobre o "sertão de nunca-mais" do Rio Grande do Norte.
O Sertão de Oswaldo Lamartine
1 fonte
O texto apresentado constitui excertos de uma biografia da obra de Oswaldo Lamartine de Faria, um importante pesquisador e etnógrafo brasileiro, focado principalmente nos "sertões do Seridó" no Rio Grande do Norte. O material detalha o desenvolvimento intelectual de Lamartine, começando por seus primeiros artigos e correspondências, e destacando sua formação profissional como engenheiro agrônomo e a influência de figuras como Luís da Câmara Cascudo e Rachel de Queiroz. Além disso, a obra inclui dados factuais sobre a cidade de Natal e uma seção dedicada à bibliografia de Lamartine e estudos sobre ele. Os excertos revelam o método de pesquisa de Lamartine, que combinava conhecimento técnico com a vivência e coleta etnográfica de um universo cultural que ele buscava preservar.
O Etnógrafo do "Nunca-Mais": Uma Análise da Obra de Oswaldo Lamartine de Faria
1. Introdução: O Sertão como Memória e Invenção
A obra de Oswaldo Lamartine de Faria transcende a catalogação regional para se tornar o ato fundador de um território ao mesmo tempo real e mítico: o "Sertão de nunca-mais". Ele não foi apenas um pesquisador que documentou os sertões do Seridó; foi o arquiteto literário que, por mais de cinquenta anos, erigiu um universo particular, entalhado em artigos, plaquetes e livros. Seu trabalho se revela um ato de resistência contra o esquecimento, um registro etnográfico e poético de um mundo em acelerado processo de desaparecimento, onde cada objeto, cada técnica e cada palavra são resgatados da voragem do tempo e transformados em peças de um vasto arquivo memorialístico.
Este ensaio propõe-se a ser, nas palavras de Gustavo Sobral, a "biografia de uma obra", traçando o desenvolvimento intelectual de um autor que fundiu com maestria o rigor do etnógrafo à sensibilidade do literato. O objetivo é analisar a confluência entre a sua metodologia de pesquisa — minuciosa, vivencial e multifacetada — e a singularidade de seu estilo literário, que forjou uma prosa precisa e evocativa. Exploraremos como essa junção de método e arte não apenas descreveu, mas essencialmente construiu, um dos mais detalhados e perenes retratos do sertão brasileiro, transformando o vivido e o passageiro em um patrimônio indelével.
Para compreender a profundidade desse projeto, é fundamental mergulhar na gênese de sua perspectiva, investigando as origens, as experiências formativas e as influências intelectuais que moldaram o olhar único com que ele decifrou e eternizou o seu sertão.
2. A Gênese de um Sertanista: Formação e Influências
A produção intelectual de Oswaldo Lamartine de Faria é indissociável de sua trajetória pessoal. Para decifrar a complexidade de sua obra, é preciso compreender as raízes que o fincaram no solo do sertão, desde a herança familiar que o definiu como um "sertanejo puro" até as experiências formativas que transformaram o campo em seu principal laboratório de pesquisa e seus habitantes em mestres. Sua visão de mundo e seu método de trabalho não nasceram em gabinetes acadêmicos, mas na vivência direta com a terra e com os homens que a decifravam.
Herança e Vocação
Oswaldo era filho de Juvenal Lamartine de Faria, ex-governador do Rio Grande do Norte, a quem descrevia como um "sertanejo puro". Essa linhagem, descendente direto dos "povoadores do Seridó", fundamentou não apenas sua identidade, mas também seu objeto de estudo. Ele não observava o sertão como um elemento exógeno; ele se inscrevia como parte intrínseca do próprio universo que investigava, um herdeiro incumbido de registrar a cultura e os saberes de seus antepassados. Essa conexão visceral conferiu à sua pesquisa uma autoridade e uma profundidade que a mera observação externa jamais alcançaria.
A Escola do Sertão
Entre 1941 e 1948, Oswaldo administrou a Fazenda Lagoa Nova. Este período foi sua verdadeira escola, seu laboratório a céu aberto, onde o conhecimento técnico adquirido na Escola de Agronomia de Lavras foi temperado pela sabedoria prática dos homens do campo. Foi ali que ele conheceu os mestres a quem sempre creditou sua formação, transformando o saber empírico deles na matéria-prima de sua obra futura. O conhecimento de Bonato Liberato Dantas, o pescador de açudes, seria a base para o livro A.B.C. da Pescaria de açudes do Seridó; as artes do couro ensinadas por Pedro Ourives, o seleiro, fundamentariam a pesquisa de Encouramento e arreios do vaqueiro no Seridó; a sabedoria de Zé Lourenço, o fazedor de barragens, informaria seus estudos sobre os açudes; e os segredos de Chico Julião, o caçador de abelhas, e de Olinto Inácio, rastejador e vaqueiro, se converteriam em investigações sobre a fauna e o criatório. A fazenda não foi apenas uma escola; foi a gênese de sua bibliografia.
A Bússola de um Mestre
A influência de Luís da Câmara Cascudo foi fundamental para canalizar essa vocação. Foi Cascudo quem o incentivou a "registrar o que ouvia no Seridó", emprestando-lhe livros e orientando seus primeiros passos como pesquisador. A amizade, nascida nas visitas de Cascudo ao seu pai, floresceu em uma rica correspondência que moldou diversas de suas pesquisas. As trocas de cartas revelam uma dinâmica de consulta mútua: Cascudo recorria a Oswaldo para obter informações sobre a conservação de alimentos para seu livro História da Alimentação no Brasil, enquanto Oswaldo buscava nos clássicos, por intermédio do mestre, as origens de práticas como o uso de ferros de marcar. Essa colaboração intelectual, que abarcou temas como superstições, gestos e o feitio de facas, foi a bússola que guiou a transição de Oswaldo de observador curioso a pesquisador sistemático.
Essa formação singular, alicerçada na herança familiar, na vivência prática e na mentoria de um dos maiores intelectuais do país, deu origem a um método de pesquisa e a um estilo literário igualmente únicos, que se tornariam a marca registrada de sua obra.
3. O Método do "Anotador": Etnografia, Estilo e Visualidade
Ao se autodefinir, com humildade, como um mero "anotador", Oswaldo Lamartine de Faria revelava a essência de seu método: uma fusão precisa entre o rigor científico e a profundidade vivencial. Seu trabalho não se enquadrava em rótulos acadêmicos estanques; era, antes de tudo, um ato de registro minucioso, uma prática que elevava a observação etnográfica à categoria de arte literária. Ele não apenas descrevia o sertão; ele o transcrevia com a fidelidade de quem é parte do próprio objeto de estudo.
Sua metodologia de pesquisa era um mosaico de abordagens. Partia de uma sólida pesquisa bibliográfica, buscando as origens históricas e universais das práticas locais. Em seguida, empregava ferramentas etnográficas como o envio de questionários a prefeitos e especialistas para levantar dados quantitativos e qualitativos. A correspondência com autoridades em áreas específicas, como o zoólogo Paulo Nogueira Neto sobre abelhas, garantia a precisão técnica de suas análises. No entanto, o pilar de seu método era a coleta de depoimentos orais e o testemunho ocular. Para Oswaldo, a "vivência é primordial para a validade", e era no diálogo com os mestres do sertão e na observação direta que seu conhecimento ganhava corpo e autenticidade.
Essa práxis etnográfica resultou em um estilo literário inconfundível, marcado por características que o distinguem no panorama da literatura brasileira.
• A Linguagem do Sertão: Oswaldo forjou uma prosa própria, um "seridoês" literário. Ele não apenas registrava, mas incorporava em sua sintaxe os termos, as expressões e o ritmo do falar da região, com vocábulos como "merminho", "aqui acolá" e "derna". Sua escrita, assim, não fala sobre o sertão, mas fala como o sertão.
• Precisão Enciclopédica: Sua prosa, comparada pela crítica a de Graciliano Ramos pela secura e objetividade e a de Guimarães Rosa pela inventividade vocabular, é notável por uma precisão quase técnica. Cada ensaio busca uma descrição exaustiva do objeto, seja um tipo de arreio ou uma técnica de pesca, conferindo à sua obra um caráter enciclopédico.
• O Universal no Regional: Seguindo um método intelectual que o filia à tradição dos grandes intérpretes do Brasil, como Euclides da Cunha, Oswaldo parte da descrição minuciosa do habitat ("a terra") para buscar as origens universais das práticas locais. Essa técnica, que conecta o microcosmo do Seridó ao macrocosmo da história mundial — demonstrando, por exemplo, como a arte de ferrar animais remonta a práticas do Egito Antigo —, é o que eleva seu trabalho de documentação regional a uma profunda interpretação da cultura.
A dimensão visual é outro pilar de sua obra. Seus desenhos de próprio punho, assim como os do ilustrador Percy Lau que frequentemente utilizava, não são meramente ilustrativos. São "descritivos e instrutivos", funcionando como documentos visuais que complementam e aprofundam a análise textual. Ao detalhar as partes de um arreio, os tipos de faca ou os instrumentos de pesca, a imagem se torna uma ferramenta etnográfica tão importante quanto a palavra, conferindo clareza e precisão documental ao seu trabalho.
Esse método e estilo únicos foram a base sobre a qual ele construiu uma obra vasta e coesa, cuja cartografia temática revela a riqueza e a complexidade do "Sertão de nunca-mais".
4. Cartografia do "Nunca-Mais": Uma Análise das Obras Centrais
A obra de Oswaldo Lamartine de Faria pode ser compreendida como um grande mosaico. Cada livro, cada ensaio, funciona como uma peça cuidadosamente lavrada que, em conjunto, compõe um mapa detalhado da geografia, da cultura material e do imaginário dos "sertões do Seridó". Não se trata de uma produção fragmentada, mas de um projeto intelectual coeso, dedicado a cartografar um modo de vida antes que ele se dissolvesse por completo na memória. A análise de seus eixos temáticos revela a profundidade e a abrangência desse empreendimento.
1. As Artes de Fazer e Sobreviver Livros como A caça nos sertões do Seridó e A.B.C. da Pescaria de açudes do Seridó documentam com rigor etnográfico as técnicas, os saberes e os rituais que garantiam a subsistência do homem sertanejo. Oswaldo transforma atividades cotidianas em objeto de estudo profundo, descrevendo desde a indumentária completa do caçador e os tipos de armadilhas até os múltiplos métodos de pesca adaptados ao ecossistema dos açudes. Ele não apenas lista os procedimentos, mas decifra a lógica por trás deles, revelando uma cultura pragmática e profundamente integrada à natureza.
2. A Arqueologia do Cotidiano Sua dedicação à cultura material o consagra como um verdadeiro "arqueólogo" do cotidiano sertanejo. Em obras como Vocabulário do criatório norte-rio-grandense, Encouramento e arreios do vaqueiro no Seridó e Ferro de ribeiras do Rio Grande do Norte, ele cataloga e preserva os objetos, as palavras e os símbolos de um modo de vida. Cada peça, da sela do vaqueiro ao desenho heráldico dos ferros de marcar gado, é dissecada, contextualizada e explicada. Seu trabalho funciona como um inventário que salva do esquecimento não apenas os artefatos, mas a própria linguagem e o conhecimento a eles associados.
3. O Sertão em Diálogo Oswaldo não foi apenas um pesquisador isolado; ele se tornou uma autoridade intelectual, uma fonte viva do saber sertanejo. A validação máxima desse conhecimento se deu em sua colaboração com a escritora Rachel de Queiroz na composição do romance Memorial de Maria Moura. Conforme documentado no arquivo da romancista, Oswaldo atuou como um "mestre sertanólogo", fornecendo informações essenciais para a verossimilhança da obra. Não se limitou a descrições genéricas: desenhou e detalhou armas específicas, como a pistola inglesa que os "cabras" chamavam de "Cotó"; elucidou a circulação de "troços de moeda" da época; e descreveu com precisão roupas, cachimbos e costumes. Mais do que um consultor, Oswaldo tornou-se um revisor de conteúdo: os manuscritos revelam que ele leu a obra e propôs correções linguísticas e toponímicas, com anotações como "onde se lê", "corrigir para". Este envolvimento profundo, que garantiu a autenticidade do sertão ficcional de Rachel de Queiroz, representa o reconhecimento definitivo de sua autoridade intelectual.
Seu profundo conhecimento, no entanto, não se limitava ao conteúdo do saber, mas se estendia à sua própria forma física e material: o livro.
5. O Arquiteto do Livro: Bibliografia como Paixão e Método
Uma faceta menos conhecida, mas essencial para compreender a integridade de seu projeto intelectual, é a paixão de Oswaldo Lamartine pelo livro como objeto. Para ele, a preservação do conhecimento não se esgotava no rigor da pesquisa e na precisão do texto; ela passava também pelo cuidado estético e material da publicação. Ele não era apenas um autor, mas um verdadeiro arquiteto do livro, que via na forma física da obra uma extensão de seu conteúdo e um ato de respeito ao saber e ao leitor.
Sua atuação como um "curtidor de livros raros" e bibliófilo meticuloso é evidente em diversas frentes. Preocupava-se com a padronização gráfica da prestigiosa Coleção Mossoroense, exigindo em cartas a Vingt-Un Rosado um esmero maior com a composição visual, advertindo de forma lapidar: "Vigie isso. Dá mais dignidade ao livro." Cuidava pessoalmente dos detalhes de suas próprias edições, da escolha do papel à tipografia, e fazia questão de incluir elementos como o colofão — que registra os detalhes da impressão — e seu ex-libris pessoal, uma marca de propriedade e apreço. Sua prática de "ferrar" os livros com a data e o preço da compra era mais que um hábito: era um ritual de bibliofilia que transformava cada exemplar de sua biblioteca em um documento de sua jornada intelectual.
Além de construtor, Oswaldo foi um exímio organizador de saberes. Sua obra Escriptos da agricultura do império do Brazil é a prova cabal de seu rigor como bibliógrafo. Neste "livro do livro", como ele mesmo o define, Oswaldo cataloga metodicamente a produção intelectual brasileira sobre agricultura e pecuária até o século XIX, demonstrando uma erudição vasta e um desejo de sistematizar e tornar acessível o conhecimento histórico. Este trabalho revela não apenas um pesquisador, mas um curador do pensamento nacional, empenhado em mapear as fontes que constituíram a reflexão sobre o Brasil rural.
Essa dedicação integral ao saber, desde a apuração minuciosa de seu conteúdo até o esmero com sua forma física, solidifica o lugar de Oswaldo Lamartine como um dos grandes e mais completos intelectuais brasileiros, cujo legado transcende os limites de sua própria produção.
6. Conclusão: A Permanência do Sertão de Nunca-Mais
O legado de Oswaldo Lamartine de Faria é o de um intelectual que, partindo de um recorte geográfico preciso, alcançou uma dimensão universal. Ele transcende a categoria de escritor regional para se firmar como um dos grandes "intérpretes do Brasil", ao lado daqueles que, como ele, se debruçaram sobre a complexidade da cultura nacional para decifrá-la em suas manifestações mais profundas e autênticas.
Sua obra é a cristalização de um mundo que, como ele mesmo anteviu, não existe mais. O "Sertão de nunca-mais" não é apenas uma expressão poética, mas a designação precisa de um território mítico e histórico que hoje sobrevive, com toda a sua riqueza de detalhes, exclusivamente em seus textos, desenhos, vocabulários e mapas. Ele não apenas registrou um sertão em desaparecimento; ele o salvou, conferindo-lhe, através da arte e da etnografia, uma forma de permanência.
Em um mundo de informações efêmeras e conhecimentos superficiais, o trabalho de Oswaldo Lamartine representa um monumento à memória, à cultura material e ao saber profundo. Sua obra é um testemunho eloquente de que a dedicação minuciosa ao particular pode revelar o universal e que, através da literatura e da pesquisa apaixonada, aquilo que "nunca-mais" existirá pode, de fato, permanecer para sempre.

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