OLAVO DE MEDEIROS FILHO

  Olavo de Medeiros Filho, carinhosamente chamado de “Olavinho”, nasceu em Caicó, no Rio Grande do Norte, em 1934, filho de Olavo Silva de Medeiros e de Severina Dantas de Medeiros. Embora natural do Seridó, fixou residência em Natal ainda na infância, aos seis anos de idade, onde construiu sua trajetória pessoal e intelectual. Casou-se, em 29 de setembro de 1952, com Maria Iria Nóbrega de Medeiros, também caicoense, filha de Nilton Gorgônio da Nóbrega e Doralice de Brito Nóbrega. O matrimônio foi abençoado com cinco filhos, constituindo o núcleo familiar que acompanharia sua vida dedicada ao trabalho, às letras e à preservação da memória histórica potiguar.

Durante três décadas, entre 1952 e 1982, exerceu a função de bancário no Banco do Brasil, atividade que lhe assegurou estabilidade financeira, sem, contudo, afastá-lo de sua grande vocação: a pesquisa histórica e a escrita. Participante assíduo de seminários, simpósios e congressos, tornou-se conferencista respeitado, versando sobre temas relacionados à história do Seridó, do Rio Grande do Norte e do Nordeste como um todo. Como pesquisador, genealogista e historiador, destacou-se pelo rigor metodológico e pela erudição, sendo reconhecido como um dos mais criteriosos autores da historiografia potiguar. Sua produção literária e intelectual influenciou toda uma geração de estudiosos, a ponto de se poder afirmar, sem exagero, que ocupa na cultura norte-rio-grandense posição análoga à de Fernando Pessoa na literatura portuguesa.

Intelectual de vasta inserção acadêmica, Olavo foi membro de inúmeras instituições culturais, tanto no Rio Grande do Norte quanto em outros estados e capitais do país. Entre elas, a Academia Norte-Rio-Grandense de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, a Sociedade Brasileira de Estudos do Século XVIII (Brasília), o Colégio Brasileiro de Genealogia (Rio de Janeiro), a Academia de História do Amazonas (Manaus), a Associação Brasileira de Pesquisadores de História e Genealogia (São Paulo) e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (Rio de Janeiro), do qual foi sócio correspondente. Também integrou entidades como o Instituto Cultural do Vale Caririense (Juazeiro do Norte/CE), a Sociedade Cearense de Geografia e História (Fortaleza), o Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (Recife), o Instituto do Ceará (Fortaleza), o Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo (Vitória), o Instituto Cultural do Oeste Potiguar (Mossoró), a Academia de Letras de Campina Grande (PB), o Instituto Paraibano de Genealogia e Heráldica, a Academia Mossoroense de Letras, o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (SP) e o Instituto Histórico e Geográfico de Campina Grande (PB). Além disso, exerceu papel de relevo como membro do Conselho Diretor da Fundação Hélio Galvão (1988–2005) e da Fundação José Augusto (1988–1995).

Jornalista e colaborador frequente da imprensa, publicou inúmeros artigos e uma vasta coleção de livros, entre os quais se destacam: Velhas Famílias do Seridó (1981), Velhos Inventários do Seridó (1983), Índios do Açu e Seridó (1984), Caicó, Cem Anos Atrás (1988), Naufrágios no Litoral Potiguar (1988), No Rastro dos Flamengos (1989), Terra Natalense (1991), O Engenho Cunhaú à Luz de um Inventário (1994), Aconteceu na Capitania do Rio Grande (1997), Os Holandeses na Capitania do Rio Grande do Norte (1998), Joaquim Estanislau de Medeiros – Major Quinca Berto do Fechado (1998), Notas para a História do Rio Grande do Norte (2001), Gênese Natalense (2002), Cronologia Seridoense (2002), Ribeiras do Açu e Mossoró – Notas para sua História (2003), Os Fenícios do Professor Chovenágua (2004), a segunda edição de Caicó, Cem Anos Atrás (2004) e Os Barões do Ceará-Mirim e Mipibu (2005).

Entre suas obras, destaca-se Os Holandeses na Capitania do Rio Grande do Norte, cuja primeira edição data de 1965. Trata-se de uma investigação histórica minuciosa sobre a ocupação flamenga no território potiguar entre 1633 e 1654, analisando a conquista do Forte dos Reis Magos, a administração implantada pela Companhia das Índias Ocidentais, as relações entre holandeses, colonos e indígenas, bem como os conflitos e massacres que marcaram o período. Com base em cartas, mapas e relatos de viajantes, Olavo Medeiros Filho reconstrói um dos capítulos mais decisivos da história do Nordeste, evidenciando a importância estratégica da Capitania do Rio Grande no contexto da Insurreição Pernambucana e da luta pela restauração do domínio português no Brasil.

Falecido em 2 de julho de 2005, Olavo de Medeiros Filho deixou como legado um conjunto de obras fundamentais para a compreensão da história potiguar e nordestina. Sua escrita, que alia rigor documental, clareza narrativa e profundo enraizamento cultural, continua a ser referência obrigatória para historiadores, genealogistas e estudiosos que buscam compreender as origens, as transformações e a memória do povo norte-rio-grandense.  


    A leitura paciente 'Dos Velhos Inventários do Seridó', tal como reunidos, decifrados e interpretados por Olavo de Medeiros Filho (1934-2005) a partir de papéis amarelados e autos cartoriais dispersos por Caicó, Acari, Currais Novos e outras paragens do sertão seridoense, permite recompor com surpreendente riqueza de detalhes a vida material, social e simbólica da região entre meados do século XVIII e a segunda metade do XIX. 

Esses documentos judiciais, lavrados entre 1737 e 1875, não se restringem à fria enumeração de bens destinada à partilha sucessória; antes, desvelam um modo de viver inteiro, assentado na terra vasta, no gado errante, no couro curtido ao sol e na fé que ordenava o tempo e os gestos. 

Deles emerge um sertão estruturado muito mais pela prática cotidiana e pela experiência acumulada do que por códigos abstratos, um mundo regido por saberes transmitidos de geração em geração, moldados pela convivência íntima com a natureza agreste.

O espaço assim revelado correspondia à antiga freguesia da Gloriosa Senhora Santa Ana do Seridó, criada em 1748, território amplo que então abarcava áreas hoje pertencentes ao Rio Grande do Norte e à Paraíba. Seus limites eram traçados menos por linhas imaginárias do que por acidentes naturais bem definidos: ao norte, as serras que a separavam do vale do Açu; ao sul e a leste, os contrafortes da Borborema; a oeste, o curso do rio Piranhas. 

Muito antes da formalização administrativa da freguesia, o povoamento já avançava desde o final do século XVII, atraído pelas extensas pastagens naturais e por um clima que, embora castigado por secas cíclicas, favorecia a criação extensiva de gado. 

Dois grandes movimentos humanos marcaram essa ocupação que era justamente um que partia do litoral e do agreste rumo ao interior, atravessando o Boqueirão de Parelhas, e outro que descia das serras da Borborema em direção ao norte, compondo uma malha de caminhos, currais e fazendas que lentamente iam domando o sertão.

Nesse universo, a própria ideia de terra obedecia a uma lógica particular. O sítio designava o lugar descoberto, escolhido sobretudo pela existência de aguada certa, condição sem a qual não se criava gado nem se fixava moradia. A fazenda, por sua vez, era o sítio já ocupado e afirmado, onde se introduzia o primeiro plantel, simbolicamente um touro e três vacas, se levantava um rancho tosco e se armava uma caiçara para conter os animais. 

A posse se consolidava por meio da sesmaria, concedida pela Coroa, cujas dimensões máximas, fixadas por Carta Régia de 1697, alcançavam três léguas de comprimento por uma de largura, extensões hoje quase inimagináveis. O valor da propriedade, entretanto, não residia apenas na vastidão, mas sobretudo na qualidade das pastagens, na presença de água permanente, na fertilidade do solo e no relevo favorável.

As benfeitorias descritas nos inventários compõem uma paisagem rural austera e funcional, tais como casas térreas de taipa, currais de pau-a-pique, chiqueiros para criações miúdas, cercados destinados a resguardar pequenos roçados, casas de farinha onde a mandioca se transformava em sustento, e, apenas mais tarde, pequenos açudes, que começam a aparecer com maior frequência nos documentos a partir da década de 1840. 

Tudo gravitava em torno da pecuária, base do chamado ciclo do couro, que estruturava a economia e definia a riqueza. O gado bovino era criado solto, entregue aos campos abertos, “à lei da natureza”, e no inverno, as vacas paridas eram recolhidas para a ordenha, a produção de queijo e o cuidado com os bezerros; no início da seca, vinham a ferra e a castração, e os animais retornavam ao pasto. 

A luta contra a estiagem exigia engenho e resistência: cavavam-se cacimbas nos leitos secos dos rios e recorria-se ao xiquexique e a outras cactáceas, depois de queimados os espinhos, para sustentar o rebanho. A construção de açudes, solução mais duradoura, só se disseminaria com o passar do tempo.

Os inventários registram com rigor quase científico a classificação do gado por idade, sexo e função, distinguindo bezerros, garrotes, novilhos, vacas parideiras, bois de carga e bois de lote, cada categoria com valor próprio. 

A evolução desses preços, ao longo de mais de um século, revela a dinâmica econômica da região, marcada por inflação progressiva e por oscilações associadas às secas, ao crescimento populacional e à crescente inserção no mercado. 

Ao lado do gado bovino, o cavalo ocupava lugar central no cotidiano do sertão. Pequeno, resistente e ágil, era companheiro inseparável do vaqueiro e principal meio de transporte. Os documentos detalham sua idade, estado de doma, utilidade e até a cor do pelo, enquanto o aumento gradual de seu valor evidencia sua importância estratégica.

Grande relevo assumiam também os rebanhos caprinos e ovinos. As cabras, extremamente resistentes à seca e altamente prolíficas, chegavam a representar metade da população bovina de algumas propriedades, fornecendo carne, leite, queijo e couro de excelente qualidade. 

As ovelhas, embora mais vulneráveis a predadores como as onças, eram igualmente valorizadas por sua carne e pele. O gado muar, por sua vez, só aparece tardiamente nos inventários, a partir da década de 1860, sinalizando mudanças nas rotas de transporte e na economia regional, com a ascensão das tropas de burros e a substituição progressiva do cavalo em longas distâncias.

A sociedade organizada em torno dessas fazendas era nitidamente hierarquizada. No topo figurava o proprietário, com sua família; ao redor, agregados e assistentes. 

A agricultura, embora presente, tinha caráter essencialmente complementar. A mandioca constituía a base da alimentação, sobretudo nas áreas de serra, sendo transformada em farinha nas casas de farinha equipadas com bolandeiras, prensas e fornos. 

Milho e feijão garantiam a subsistência cotidiana, enquanto o algodão, já no início do século XIX, despontava como produto de exportação, beneficiado em engenhos de descaroçar que evoluíram do trabalho manual para a tração animal. 

Ferramentas simples, como enxadas, foices, machados e ferros de marcar gado, compunham o arsenal cotidiano, ao lado de utensílios próprios de ofícios especializados, como a forja do ferreiro, a oficina do carapina e as estruturas das olarias, responsáveis pela produção de telhas e tijolos.

A moradia refletia a mesma sobriedade funcional que caracterizava o restante da vida material. As casas de taipa, cobertas de telha, organizavam-se em planta retangular, com copiar à frente, sala principal, corredor, quartos internos sem janelas, sala de jantar aos fundos e cozinha anexa, onde se cozinhava no chão, em trempes. 

Eram construções de valor econômico modesto quando comparadas ao gado, verdadeiro indicador de riqueza. O mobiliário era simples, composto de bancos, estrados, mesas de madeira pesada, caixas, malas e baús. As camas podiam ser armações com cortinados ou estruturas rudimentares de couro. 

Louças de estanho, pó-de-pedra e, mais raramente, do Porto, além de peças de prata nas casas mais abastadas, completavam o cenário doméstico. A iluminação vinha de candeias e candeeiros, alimentados a óleo.

A alimentação adaptava-se às contingências da caatinga. Carne-de-sol, leite, queijos, manteiga de garrafa e farinha de mandioca formavam a base da dieta, complementada por caça, peixe, mel de abelha jandaíra, rapadura, frutas e hortaliças. 

Nos períodos de seca extrema, a inventividade dos grotões chegava ao limite, recorrendo-se a raízes silvestres, gomas e até ao aproveitamento de couros e ossos de gado, numa luta diária pela sobrevivência.

A indumentária, as joias e as armas denunciavam distinções sociais e simbólicas. Tecidos de algodão predominavam, mas linho, lã e seda apareciam nos inventários das famílias mais ricas. 

Os homens vestiam o traje colonial completo em ocasiões formais e, no cotidiano, o inseparável chapéu-de-couro; as mulheres surgem menos detalhadas nos registros, mas associadas a mantos, pentes de ouro e joias. Anéis, brincos, colares e relicários eram sinais inequívocos de status. 

As armas de fogo eram poucas, destacando-se bacamartes e espingardas, enquanto espadins de prata simbolizavam patentes militares. A organização armada da bresca fazia-se inicialmente pelas Ordenanças e, mais tarde, pela Guarda Nacional, com capitães-mores, sargentos e coronéis que concentravam poder civil e militar.

A religiosidade atravessava toda a vida social. Testamentos repletos de pedidos de missas, a escolha de hábitos religiosos para o sepultamento, a construção de capelas particulares e a participação em irmandades revelam uma fé profundamente enraizada. Os enterramentos no interior das igrejas, em locais hierarquizados conforme o prestígio do morto, encerravam o ciclo da vida sob o signo da devoção.

Em suma, dos inventários coloniais às praças urbanas do século XX, emerge um sertão do Seridó vivo, complexo e coerente consigo mesmo, onde cada bem listado, cada animal contado, cada gesto político ou religioso integra uma engrenagem social que moldou a história regional. 

Esse mesmo sertão, feito de terra, gado, fé, memória e conflito, deixou marcas profundas na identidade nordestina e continua a falar, através dos documentos e dos lugares, a quem se dispõe a escutá-lo com atenção e respeito.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

JOSÉ BEZERRA GOMES (1911/1982)

JOSÉ OZILDO DOS SANTOS