MUIRAKYTAN KENNEDY DE MACÊDO
A formação histórica do Seridó constitui um dos exemplos mais expressivos da complexa interação entre economia colonial, ocupação territorial, relações sociais e construção de identidades regionais no interior do Nordeste brasileiro. Conforme demonstrado por Muirakytan Kennedy de Macêdo em A penúltima versão do Seridó, o regionalismo seridoense não se explica por essências culturais fixas ou por mitologias genealógicas idealizadas, mas resulta de processos históricos concretos, marcados por conflitos, adaptações ao meio semiárido e rearranjos contínuos de poder, trabalho e pertença social.A ocupação do sertão nordestino, e particularmente do Seridó, esteve diretamente vinculada à lógica do Antigo Sistema Colonial, cujo eixo econômico residia na monocultura açucareira do litoral pernambucano. A expansão da cana-de-açúcar, altamente lucrativa para o mercado europeu, relegou as atividades consideradas acessórias — entre elas a pecuária — a um plano secundário, voltado sobretudo à subsistência e ao suporte da economia açucareira. Com o avanço dos engenhos sobre as terras férteis do litoral, a criação de gado tornou-se progressivamente antieconômica nessas áreas, culminando na Carta Régia de 1701, que proibiu a pecuária num raio inferior a dez léguas da costa. Tal medida institucionalizou a separação espacial entre cana e gado, empurrando o criatório para os sertões do interior.
Nesse contexto, o Seridó emergiu como espaço privilegiado da economia pecuarista. A vastidão de terras pouco exploradas, associada à rusticidade dos pastos e à adaptação do gado às condições da caatinga, favoreceu a rápida difusão da criação extensiva a partir do século XVII. Embora integrada ao sistema colonial, a pecuária nunca alcançou a rentabilidade da economia açucareira, auferindo apenas uma pequena fração do valor das exportações do açúcar. Ainda assim, seu modelo produtivo apresentava vantagens específicas: dispensava elevados investimentos monetários, permitia a reposição natural do capital e favorecia a mobilidade social de vaqueiros, remunerados em espécie, que podiam, com o tempo, constituir seus próprios rebanhos e fazendas.
A conquista do interior nordestino deu-se por múltiplas frentes, sobretudo a partir de Pernambuco e da Paraíba, seguindo as ribeiras dos rios e, em menor escala, pelas rotas que partiam da Bahia, acompanhando o curso do São Francisco rumo aos chamados “sertões de dentro”. No território potiguar, o avanço da pecuária encontrou forte resistência indígena, materializada na chamada Guerra dos Bárbaros ou Confederação Cariri, que se estendeu do final do século XVII às primeiras décadas do XVIII. Povos como canindés, cariris, jenipapos, sucurus e pegas enfrentaram violentamente a ocupação portuguesa, sendo progressivamente derrotados por forças coloniais e milícias particulares, com destaque para a atuação de Domingos Jorge Velho. O resultado foi o extermínio, o aldeamento forçado e a subordinação dos grupos nativos, abrindo caminho para a fixação definitiva das fazendas de criar.
Superados os conflitos armados, o povoamento do Seridó consolidou-se a partir da instalação de vaqueiros e administradores de terras que, inicialmente, não eram proprietários, mas lugares-tenentes encarregados de preparar as fazendas. O baixo custo de implantação da atividade — bastando poucos animais para iniciar um criatório — e a reduzida exigência de mão de obra facilitaram a rápida disseminação das unidades produtivas. As ribeiras, ainda que intermitentes, tornaram-se eixos fundamentais de ocupação, influenciando tanto a localização das fazendas quanto a toponímia regional, que preserva referências aos rios, riachos e currais.
A sociedade seridoense formada sob a égide da pecuária apresentou características próprias. A proximidade entre senhores, escravos e homens livres no cotidiano do trabalho pastoril produziu relações sociais mais fluidas do que aquelas observadas nas zonas açucareiras, embora não menos hierarquizadas. A escravidão esteve presente e foi essencial à economia pastoril, ainda que adaptada às condições locais. A possibilidade de acumulação de pecúlio, sobretudo entre vaqueiros escravizados, permitiu a compra da alforria em diversos casos, embora muitas libertações fossem condicionais. Ao lado da mão de obra cativa, proliferaram formas de trabalho livre baseadas em contratos verbais, agregação, meação e jornal, fortalecidas pela descapitalização rural, pela Lei de Terras de 1850 e pelo declínio progressivo do regime escravista.
A base material do poder social no Seridó assentou-se no latifúndio pecuarista, que estruturou uma complexa rede de dependências pessoais, reforçada por laços de compadrio e alianças familiares. A partir desse alicerce econômico, formaram-se elites rurais que exerceram controle político por meio da ocupação de cargos militares e administrativos. As patentes nas ordenanças e milícias coloniais, e posteriormente na Guarda Nacional, conferiam prestígio, autoridade e legitimidade social, funcionando como substitutos simbólicos da formação acadêmica no Império. Mesmo com o avanço da centralização estatal a partir da segunda metade do século XIX, essas elites conservaram influência local, dando origem ao fenômeno do coronelismo, cuja marca persistiria no imaginário político regional.
Paralelamente, a delimitação territorial do Seridó foi sendo construída de forma gradual, por meio da ação conjunta da Igreja e do Estado. A criação da Freguesia da Gloriosa Senhora Sant’Ana do Seridó, em 1748, com sede em Caicó, constituiu marco decisivo na institucionalização do território, articulando administração civil, controle eclesiástico e organização social. A elevação de povoados à condição de vila, como Caicó e Acari, reforçou o poder local e intensificou disputas de limites, sobretudo com a Paraíba. Tais conflitos foram resolvidos no âmbito legislativo imperial, consolidando o Seridó como parte integrante do Rio Grande do Norte, ainda que permanecessem vínculos econômicos e culturais com as províncias vizinhas.
Ao longo desse processo histórico, formou-se uma sociedade profundamente mestiça, composta por indígenas remanescentes, africanos e afrodescendentes, brancos pobres e proprietários, cuja diversidade foi sistematicamente apagada por narrativas regionais que exaltaram genealogias idealizadas e uma suposta homogeneidade racial. A obra de Muirakytan Kennedy de Macêdo rompe com esse paradigma ao demonstrar, com rigor documental, que o Seridó foi construído por populações diversas, muitas vezes pobres, submetidas às incertezas do clima, às secas recorrentes e às oscilações de uma economia frágil, mas capazes de desenvolver estratégias de sobrevivência, solidariedade e adaptação.
Assim, o regionalismo seridoense emerge não como herança imutável, mas como construção histórica, forjada na tensão entre dependência e autonomia, entre violência e convivência, entre tradição e reinvenção. A compreensão desse percurso revela um sertão plural, marcado por conflitos, desigualdades e resistências, cuja identidade se constituiu menos pela idealização das elites e mais pela experiência concreta de seus homens e mulheres comuns, protagonistas silenciosos da longa história do Seridó.
A História do Regionalismo
Seridoense
1 fonte
O
texto apresenta trechos de uma obra de Muirakytan K. de Macedo,
intitulada "A
PENÚLTIMA VERSÃO DO SERIDÓ: Uma história do regionalismo seridoense",
publicada em 2012 pela Universidade Estadual da Paraíba (EDUEPB) e pela Editora
da UFRN (EDUFRN). O material é focado na história da região do Seridó, no Rio Grande
do Norte, desde os séculos XVII ao XIX, detalhando o desenvolvimento da economia pecuária e
seu conflito com a monocultura da cana-de-açúcar. O autor explora a conquista e povoamento do sertão após
a Guerra dos Bárbaros contra os indígenas, a estrutura da sociedade e do trabalho rural,
incluindo a escravidão no criatório. Por fim, o texto examina a formação
das elites políticas
rurais através de patentes militares e a construção cartográfica e administrativa
do Seridó, que culminou em disputas de limites com a Paraíba.
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