JOSELITO JESUS DE ARAÚJO nasceu em 1971.  O 'Jesus de Miúdo'  é acariense, poeta, prosador, escritor de inúmeros livros e autor do fotoblog "Acari do meu amor - A reunião virtual diária de uma ruma de amigos acarienses".  

    Membro da Associação Sertão Raiz Seridó e grande incentivador da cultura estimulou o seu primo e também genealogista 'Bezerrinha' a também publicar livros. Por oportuno, ao presente esboço, é importante destacar que o escritor é descendente direto do Padre Tomaz Pereira de Araújo, bem como dos grandes patriarcas do Seridó tais como do Cel. Cipriano Bezerra Galvão, do Coronel de Milícias Caetano Dantas Correia (1701/1797), do português Rodrigo de Medeiros Rocha e tantos outros.    

    O português Rodrigo de Medeiros Rocha, por sua vez, era natural da Freguesia de São Pedro da Ribeira Seca/Conselho da Ribeira Grande/Ilha de São Miguel/Região dos Açores/ Portugal,   e que veio para o Brasil,   casando em 1738 no Estado da Paraíba com Apolônia Barbosa de Araújo (1714/1802) natural do Estado da Paraíba. Posteriormente, migrou para a região do Seridó, local de seu falecimento.

    Palavras do poeta: "Acari é uma cidade quase tri-centenária. Na verdade já o somos em existência, digo, de fato. De direito estamos quase chegando lá. Bom, se voltarmos no tempo e fizermos uma leitura sobre a educação em Acari  veremos que sempre tivemos o privilégio do saber. Pelos homens que nos colonizaram, pela forma como o adquirir conhecimento sempre foi incentivado em nossa sociedade. Você veja que nos idos de mil oitocentos e quê já tínhamos professores em nossa sociedade. Nosso Grupo Escolar é uma entidade de ensino com cem anos! Pois bem, a educação em Acari, outrora ganhadora de alguns prêmios até em nível nacional, é um trabalho bi-centenário enraizado na cultura do nosso povo. Não é uma realidade com menos de cinquenta anos, como alguns querem deixar parecer." 

    Para o consagrado radialista Eliel Bezerra, o primeiro livro de Joselito Jesus é praticamente um diário de sua infância e juventude, estando presentes a maioria dos adultos e idosos que lhe davam atenção. Para ele, são os seus verdadeiros heróis. E, sobre o fotoblog na internet (Acari do meu amor) de desmedido sucesso constou no contador o número 1.705.000 visitas! Estrondoso se observarmos que a página dedica-se a uma pequena cidade, canalizando o interesse dos conterrâneos. 

    Segundo o próprio escritor, escrever requer tempo e paciência, raciocínio e 'checagem' das informações. Alega não dispor de tempo e ser muito cobrado para manter o fotoblog atualizado.  E segue com as seguintes palavras: "Não existe um modo diferente na comunicação. Existe o saudosismo pelo qual todos nós somos contagiados. As pessoas entram para matar a saudade. Dizem que eu escrevo bem. Até gente de coturno alto me parabeniza pelos meus textos. Quer saber? É o único lucro que tenho com o fotoblog (risos). Mas é uma recompensa incrível encontrar alguém e ouvir essa pessoa dizer “chorei lendo tal texto seu”. As pessoas de Acari, os 'causos', os fatos, as tolices de meio de rua... mas, no final, sempre, as pessoas me inspiram." 


CARTA PARA JESUS DE MIÚDO

Dr. Paulo Balá, escritor acariense admirado mundo afora


Amigo Joselito, 

Temos algo mais em comum, além do fato de sermos da grande nação nordestina, amantes da boa prosa, da melhor poesia - a popular; dos causos, da linguagem escrita de Dr. Paulo Balá, das reminiscências de um passado para alguns - como um velho retrato desbotado na parede - mas presente para nós; das saudades que não doem porque são gostosas de serem sentidas em sorrisos que lhes são próprios; da paixão pelo Nordeste, por nosso lugar - cada um pelo seu; do gosto por fomentar amizades simples, mas verdadeiras; dos escritos nas paredes, dos ídolos, da admiração por um como Jessier Quirino; do amor pelas coisas do campo, pela fala simples do melhor povo do mundo - o nosso; pela natureza que nos rodeia, desde o canário desaparecendo, até a tacaca que fede só para alguns, passando pelo gosto de se regalar com uma comida sertaneja, ao som da zoada de um carro de boi passando dolente; o ruído da porteira que se abre, o cheiro da terra molhada - mormaço divino; da apreciação da assimetria de um torno de madeira ou de um tamborete velho, desconchavado, beliscoso, dançante, descascado, mas operante; da apreciação de coisas comuns e ao mesmo tempo tão singulares, do grita-grita da feira, do vaqueiro em seu traje de gala em couro, do aboiador de olhos semicerrados avistando a rês ao longe, da sabedoria do cantador de repente... pois bem, temos mais algo em comum.  Um ser passou os últimos sete meses do ano de setenta do século passado sugando as energias de sua mãe, numa gestação complicada d’uma criança esperada depois de sete anos sem choro de menino novo na casinha simples, onde o chefe-almoxarifo da usina de algodão vivia com a manicure de olhos lindos, azulados, mais um casal de filhos, em pleno amor e união. No primeiro mês de setenta e um, oitavo mês, num acompanhamento de rotina do bêbado, porém bom médico do meu interior, em toques sobre o barrigão se chegou à conclusão: a criança está sentada. Não pode nascer de parto normal. Era eu, pobrezinho, sem saber as dores que daria a mamãe, já dando sinais que seria como sou, um quase normal, louco para muitos, desafiando o estado natural das coisas sem ter ainda chegado, polemizando antes mesmo de encher os pulmões de ar para, assim, poder dar o primeiro grito no mundo. Pobre de mamãe. Na agonia da descoberta elevou as mãos aos céus e prometeu ao Nosso Senhor Jesus Cristo que se o quadro mudasse, milagre esperado, colocaria o nome da criança de Jesus. Parecia adivinhar que seria macho, aquele rebento que levava na barriga. Nasci macho! O padre da freguesia, no entanto, sabendo de tal intento, sequer cogitou que minha mãe ficasse em dívida com o Maior de Todos os Santos, e mandou o recado pela própria escrivã de registros civis: "Se registrar como Jesus, não faço o batismo". Daí meu pai, homem simples, preso aos dogmas e princípios da religião católica com sede em Roma, preferiu pôr outro nome e não pagar a promessa a ter que ficar sem poder dar as bênçãos matinais a um filho pagão. Por sugestão de minha irmã recebi o nome de Joselito, em homenagem ao menino mexicano fazendo sucesso naqueles dias pelas rádios e cinemas. Um Joselito Jesus que os pais, na tentativa de pelos menos ficarem adimplentes com o santo requisitado, teimaram em chamar de Jesus, apenas Jesus, depois que esse desceu à pia baptismal. Portanto, bom e novo amigo, sou mais um Joselito, como você. Só que um Joselito Jesus. Um Joselito Jesus de Araújo Silva que preferiu um dia se assinar apenas como Jesus de Miúdo. Miúdo meu pai. Porém, hoje tentando se redimir da falha em ocultar o nome daquela que se arriscou tanto em lhe pôr no mundo dando-lhe à luz e, assim, se fazendo conhecer por Jesus de Rita de Miúdo. Um grande abraço! Mas agora a coisa complicou, porque quero pagar pelos seus livros, de sua autoria, e enviar os meus três, escritos sem maiores pretensões, coisa de contar da minha gente e da minha Terra Amada. Que a nossa amizade seja profícua, ou, "de futuro" como dizemos por aqui. 

Inté!

Jesus de Rita de Miúdo. 

LEMBRANÇAS DO MEU AVÔ
(Chiquinho – in memorian)
As pernas do meu avô, que logo cedo morreu
Vestidas em azul linho, estão em minha memória
Tesouros guardados, partes da minha história
Com vincos se destacando, naquele caminhar seu
Vai e vem que enfeitiçava o menino que era eu.
Sentado naquele chão, de pedras belas cortadas
Alheio até às pedrinhas, no meu colo separadas
As pernas do meu avô, simplesmente me encantavam
E eu as observava, enquanto elas passavam
Sacudindo o azul linho, em suas rápidas passadas.
As palavras do meu avô, tão belas quando faladas
Me abençoando entre risos, me augurando fortuna
Silenciaram tão cedo, deixaram enorme lacuna
Agora são como o vento, quando vindo em lufadas
Trazendo paz para mim, sempre que são relembradas
Perguntam pelo meu pai, em minha ímpar lembrança
Querendo saber do filho, naquela sua voz mansa.
As palavras do meu avô são canções em minha mente
São ecos puros de amor, do seu rosto sorridente
Encantando até hoje, os ouvidos daquela criança.
O caixão do meu avô, não me deixou esperança
Seu rosto sério e senil, mudo e sem expressão
– Perdera o belo sorriso, se calara o coração -
Confundia-me ainda cedo, eu não entendia a mudança.
Morrendo meu pobre avô, só me deixou por herança
Três momentos relembrados, tratados com tanto carinho
Ruminados de vez em quando, saudade posta em moinho:
Sua voz, a sua bênção, a pergunta por seu filho
Seu rosto mal barbeado, naquele caixão sem brilho
E as pernas do meu avô, vestidas em azul linho.


Dona Maria Do Céu abriu sua casa para receber o poeta e prosador Jesus de Miúdo. Aos noventa e dois anos em 2018, um doce de ser humano, lúcida, linda e feliz, segundo o autor que aludiu: "estou agarrada com seu livro desde ontem. Já ri demais." E continua "de sua alma esborra uma alegria contagiante. Conhecê-la me fez um bem danado de bom. O que deveria ser uma visita rápida se transformou em quase cinco horas de boas risadas ao lado dos seus filhos, filhas, nora e bisneto. Uma família que carregarei no peito. Obrigado Auxiliadora, pela tarde agradável. Sua mãe encanta!"






De onde nasceu Acari. Conta a lenda que um certo Felipe, ficou apaixonado por uma donzela de classe social bem mais além da sua, conseguindo conquistá-la. Contudo, a família da moça repudiou o rapaz de origem pobre. O namoro no entanto se deu e a moça engravidou, mas não pôde comunicar-se com o amante porque naqueles dias havia chovido bastante e o Rio Acauã os separava. Ela no norte da cidade, ele no sul. Esse rapaz, não podendo ter notícias de sua amada viajou em busca da fortuna que poderia lhe garantir prestígio e o acordo com a família da moça. Nesse espaço de tempo a moça se refugiou numa fazenda próxima da cidade apenas com uma mucamba como serviçal, e deu a luz a um belo menino. Mas como à época não se aceitava mães solteiras, principalmente pertencente a sociedade, deu ordens a velha senhora que lhe acompanhava que jogasse o menino nas águas do Rio Acauã, pois estava desiludida com o amante, de quem pensava ter fugido do seu amor covardemente. A serviçal fez com muito choro de tristeza e ali o menino morreu. Algum tempo depois voltava Felipe da sua viagem, rico e desejoso de encontrar-se com o antigo amor, quando parou para banhar-se nas águas de um poço. Ouviu o choro de uma criança vindo de dentro da água e se deixou levar afoito e endoidecido pela vontade de achar e ajudar a infeliz criança. Afogou-se também. Daí o nome "Poço do Felipe". (Colaboração na imagem de Foto Telma)


Joselito Jesus de Araújo

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