JOSÉ WILSON PEREIRA DE AZEVEDO

 


Durante minha trajetória acadêmica no curso de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, tive o privilégio de conviver com José Wilson Pereira de Azevedo, cuja dedicação aos estudos e rigor intelectual o distinguiam entre os colegas. Era, sobretudo no campo do Latim, que sua competência se revelava com maior intensidade: suas explicações sobre as sutilezas morfológicas e sintáticas da língua iluminavam caminhos para muitos de nós, que travávamos árduas batalhas com uma disciplina de reconhecida complexidade. Wilson não era apenas um estudante aplicado, mas um verdadeiro mestre entre os pares, a quem recorríamos constantemente em busca de clareza, e que nos oferecia, com generosidade, o fruto de seu saber.

Aquele período foi também marcado pela efervescência cultural da Semana de Ciência, Tecnologia e Cultura da UFRN, a CIENTEC, evento anual que se convertia em vitrine e arena para o encontro entre universidade e sociedade. Ali, pavilhões abrigavam desde congressos e seminários até exposições de pôsteres, trabalhos de centros acadêmicos e órgãos suplementares, compondo um vasto mosaico transdisciplinar. O que mais nos encantava, no entanto, era a programação cultural: concertos, corais, espetáculos de dança, cinema e teatro, aos quais muitos estudantes, limitados em recursos, tinham acesso gratuito. Era nesse espaço que se evidenciava a universidade como organismo vivo, pulsante, capaz de articular ensino, pesquisa, extensão e cultura, estabelecendo um diálogo fecundo entre saber acadêmico e criação artística.

Entre as muitas contribuições de José Wilson, destaca-se de modo singular sua dissertação de mestrado, A Flauta e o Trapézio: um desconcerto político-literário na vida de José Gonçalves de Medeiros, defendida na própria UFRN. Trata-se de um estudo de rara densidade crítica, em que se entrelaçam a história política e a produção literária de José Gonçalves de Medeiros (1919–1951), figura que habitou as margens do cânone, mas que deixou marcas tanto na literatura fantástica — gênero ainda incipiente no Brasil da década de 1940 — quanto no cenário político potiguar e pernambucano. A dissertação percorre sua trajetória desde os embates contra o Estado Novo, em Recife, passando pela atuação como deputado estadual e pelo conflito com a UDN, até culminar no desfecho trágico de sua morte no acidente aéreo de Aracaju.

Além da dimensão política, o trabalho ilumina a fortuna literária de Medeiros, examinando seus contos, crônicas, poemas e críticas, tanto os publicados em vida quanto os póstumos, e organizando um inventário que inclui sua correspondência pessoal — fonte privilegiada para compreender-lhe o imaginário, as inquietações e o diálogo com o seu tempo. A análise de Wilson ancora-se em um arcabouço teórico robusto, evocando Antonio Candido, Arrigucci Jr., Goulart, Benjamin, Bourdieu, Adorno, Moraes e Seligmann-Silva, entre outros, para situar a obra de Medeiros na confluência entre literatura, política, cultura e memória.

Em outra vertente, o artigo Perfil na Penumbra: a imagem de José Gonçalves de Medeiros através de suas cartas amplia essa perspectiva, examinando a correspondência do escritor entre 1941 e 1949 e revelando, em suas entrelinhas, tanto a dimensão psicológica quanto a inserção histórica de um autor que viveu intensamente os dilemas de sua época. As cartas, tratadas não apenas como documentos biográficos, mas também como peças literárias e históricas, revelam a tessitura de um pensamento em constante embate com a modernidade e suas contradições.

O conjunto da produção acadêmica de José Wilson Pereira de Azevedo evidencia não apenas o rigor de seu método, mas também uma paixão profunda pelas letras e pela cultura potiguar. Seu trabalho confere visibilidade a um escritor cuja trajetória, marcada por tensões políticas e ousadias literárias, permanece como testemunho das complexidades do Nordeste brasileiro no século XX. Azevedo, ao resgatar e interpretar a vida e a obra de José Gonçalves de Medeiros, não apenas cumpre o papel de pesquisador, mas inscreve-se como partícipe de uma tradição crítica que busca compreender o entrelaçamento entre literatura e história, poder e criação, silêncio e memória.

Assim, sua contribuição transcende o espaço acadêmico e torna-se, em si, um gesto de preservação e valorização da cultura do Rio Grande do Norte — uma cultura que, ao se revelar nas páginas de suas análises, continua a dialogar com o presente e a convocar novas gerações a pensar, com seriedade e sensibilidade, os destinos da literatura e da sociedade nordestinas.




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