Dr. JOSÉ AUGUSTO BEZERRA DE MEDEIROS (1884/

 



Há obras que não se deixam enquadrar nos limites estritos do método histórico ou da erudição acadêmica, porque nascem de uma necessidade mais funda: a de preservar a memória como forma de existência. Seridó Biográfico, tal como evocado no excerto oral transcrito de um vídeo do YouTube, insere-se nessa tradição da escrita memorialística que antecede e, por vezes, suplanta a história científica. Não se trata apenas de um livro ou de um conjunto de dados, mas de um gesto de permanência, um esforço consciente de resguardar nomes, datas, linhagens e vozes diante do avanço silencioso do esquecimento.

A fala fragmentada, marcada por hesitações, repetições e expressões coloquiais, revela que estamos diante de uma narrativa nascida da oralidade. É nesse terreno instável, porém profundamente humano, que surge a figura de José Augusto Bezerra de Medeiros, referido como “doutor” e, paradoxalmente, apresentado como alguém que “não era pesquisador”. Essa negativa, longe de diminuir sua obra, ilumina o seu verdadeiro alcance: José Augusto escreve não apenas porque investiga, mas porque pertence; não apenas porque consulta documentos, mas porque carrega consigo a memória viva do Seridó. Seu livro Seridó — e, de modo mais amplo, Famílias Seridoenses — constitui-se como um grande arquivo afetivo, no qual a genealogia se confunde com identidade, e o dado histórico se entrelaça à lembrança compartilhada.

As datas mencionadas no discurso oral — um nascimento ocorrido em 21 de janeiro de 1709, outro batismo em 19 de janeiro de 1716, em Portugal — não surgem como meros registros burocráticos. Elas funcionam como marcos simbólicos de origem, quase como atos fundadores. Pouco importa, nesse contexto, a precisão absoluta do local ou da circunstância; o que se afirma é o desejo de ancorar o Seridó num tempo longo, que ultrapassa o sertão e se projeta até a antiga matriz lusitana. Ao fazê-lo, a narrativa constrói uma ponte imaginária entre Portugal e o interior nordestino, entre o século XVIII e a experiência sertaneja, fundindo história e mito numa mesma corrente memorial.

Essa lógica está no cerne de Famílias Seridoenses, obra publicada em 1940 e considerada um clássico da genealogia potiguar. José Augusto Bezerra de Medeiros, nascido em Caicó em 22 de outubro de 1884, foi herdeiro direto das oligarquias que moldaram a vida política, econômica e cultural do Rio Grande do Norte. Neto de José Bernardo de Medeiros, chefe político do Seridó por mais de três décadas, e de Silvino Bezerra de Araújo Galvão, deputado estadual, líder republicano e vice-governador do estado, José Augusto cresceu imerso numa tradição em que a vida pública e a memória familiar se entrelaçavam de forma indissociável. Seu percurso intelectual e político — bacharel em Direito pela Faculdade do Recife, professor, magistrado, deputado estadual e federal, senador da República e governador do Rio Grande do Norte entre 1924 e 1927 — reflete essa formação profundamente enraizada no serviço público e na reflexão sobre o destino coletivo.

Entretanto, é na condição de memorialista e genealogista que sua obra adquire singular relevância para a compreensão do Seridó. Em Famílias Seridoenses, José Augusto demonstra que a pecuária foi o fator econômico decisivo para o povoamento da região, funcionando como verdadeiro eixo civilizador do sertão. Inspirado em autores como Capistrano de Abreu, ele identifica a chamada “época do couro” como fundamento material da vida sertaneja, período em que o gado não apenas sustentava a economia, mas moldava costumes, relações sociais e formas de ocupação do território. O Rio Grande do Norte, nesse contexto, desempenhou papel estratégico ao abastecer capitanias vizinhas, especialmente Pernambuco, cuja expansão populacional dependeria do gado potiguar.

A partir desse pano de fundo econômico, o autor reconstrói a genealogia das grandes famílias que se fixaram às margens do rio Seridó e de seus afluentes. Nomes como Araujo Pereira, Dantas Correia, Azevedo Maia, Baptista, Medeiros, Lopes Galvão e Bezerra de Menezes não aparecem apenas como linhagens, mas como verdadeiros agentes históricos. São famílias cuja trajetória se confunde com a fundação de vilas, a construção de capelas, a organização da vida política e a consolidação do poder regional. A figura de Thomaz de Araujo Pereira, sesmeiro e presidente da Província no início do Império; de Caetano Dantas Correia, fundador de Cuité; de Antonio de Azevedo Maia, pioneiro de Jardim do Seridó; de Cypriano Lopes Galvão, idealizador da capela que daria origem a Currais Novos; e de José Bernardo de Medeiros, o “colosso do Seridó”, ilustra como a história regional se estruturou a partir dessas famílias interligadas por alianças, casamentos e interesses comuns.

O discurso oral que inspira Seridó Biográfico reflete exatamente essa tradição: uma história contada mais pela voz do que pelo documento, mais pela lembrança do que pela crítica das fontes. Expressões truncadas, datas imprecisas e frases interrompidas não são falhas, mas marcas de autenticidade. Elas revelam uma forma de narrar em que a verdade não se mede apenas pela exatidão factual, mas pela fidelidade à experiência vivida e transmitida. Trata-se de uma historiografia afetiva, na qual cada erro aparente carrega uma verdade simbólica, e cada nome pronunciado reafirma a pertença a uma comunidade histórica.

Nesse sentido, José Augusto, mesmo quando se declara “não pesquisador”, ergue uma obra de extraordinária densidade cultural. Sua escrita simples, atravessada pela memória familiar e pelo compromisso com a educação e a democracia — evidentes também em seus inúmeros livros sobre ensino, parlamentarismo e organização do Estado — constrói um monumento invisível, porém duradouro: o da lembrança compartilhada. Ao aproximar o Seridó do Portugal setecentista, ao ligar o vaqueiro ao senador, o fundador de fazenda ao legislador da República, ele afirma que o sertão não é periferia da história, mas um de seus núcleos mais antigos e persistentes.

Assim, Seridó Biográfico e Famílias Seridoenses não devem ser lidos apenas como compilações genealógicas ou relatos regionais. São, antes, exercícios de filiação simbólica, tentativas de dizer que “aqui estivemos” e que continuamos a existir enquanto formos capazes de narrar. No Seridó, a história não se escreve apenas com documentos, mas com vozes; não se preserva apenas em arquivos, mas na palavra dita e redita. E é nessa palavra, frágil e resistente ao mesmo tempo, que a memória sertaneja encontra sua forma mais duradoura de sobrevivência.

Famílias Seridoenses: História e Genealogia

1 fonte

O texto apresenta extensos excertos de "Famílias Seridoenses", um clássico da genealogia escrito por Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros e publicado originalmente em 1940. A obra é uma história do Seridó, uma região do Rio Grande do Norte, e foca na formação das famílias locais, detalhando suas origens e proeminência social e política. O autor traça o histórico de várias famílias — como Araújo Pereira, Dantas Correia, Medeiros, Lopes Galvão e Azevedo Maia — e afirma que a pecuária foi o fator econômico preponderante para o povoamento da zona. Além de perfis genealógicos, o texto fornece biografias detalhadas de membros notáveis dessas famílias, incluindo figuras políticas importantes do Nordeste brasileiro.

Principais Ideias de "Famílias Seridoenses"

Sumário Executivo

Este documento sintetiza os temas centrais e as informações genealógicas apresentadas na obra "Famílias Seridoenses" de José Augusto Bezerra de Medeiros. A tese fundamental do livro argumenta que a pecuária foi o fator socioeconômico preponderante que impulsionou o povoamento da região do Seridó, no Rio Grande do Norte. A obra demonstra como a necessidade de terras para a criação de gado atraiu colonizadores de outras regiões do Nordeste, estabelecendo as bases econômicas e sociais da área.

Além da análise econômica, o livro oferece um estudo genealógico detalhado das principais famílias que se fixaram no Seridó, traçando suas origens, interligações e a influência duradoura que exerceram na vida política, social e econômica da região. As famílias analisadas incluem Araujo Pereira, Dantas Correia, Azevedo Maia, Baptista, Medeiros, Lopes Galvão, Bezerra de Menezes e Fernandes Pimenta. A narrativa destaca a profunda interconexão entre esses clãs por meio de casamentos, formando uma elite coesa que moldou a história do Seridó por séculos. A autoridade do autor, José Augusto Bezerra de Medeiros — ele mesmo um descendente dessas linhagens e uma figura proeminente na história potiguar como governador, senador e magistrado — confere peso e profundidade à análise.

A Pecuária como Fator de Povoamento do Seridó

O argumento central do autor é que a colonização e o desenvolvimento do Seridó foram diretamente impulsionados pela pecuária. A criação de gado não foi apenas uma atividade econômica, mas a força motriz que definiu a geografia humana, os costumes e a história da região.

• Fundamento Econômico: Citando historiadores como Capistrano de Abreu e Roberto Simonsen, a obra estabelece que toda colonização requer uma fonte de riqueza natural para se sustentar. No Seridó, essa fonte foi a multiplicação do gado.

• A "Época do Couro": A vida pastoril criou uma cultura material singular, descrita por Capistrano de Abreu como a "época do couro", onde quase todos os artefatos necessários à vida cotidiana — desde portas de cabanas e camas até alforjes, cordas e vestimentas — eram feitos de couro.

• Importância Estratégica para o Nordeste: A pecuária do Rio Grande do Norte foi essencial para a economia de toda a região, especialmente durante o domínio holandês. O autor cita Hermann Watjen, que afirma que o gado potiguar era o principal fornecedor de carne para Pernambuco, sendo crucial para a alimentação da população e dos soldados holandeses.

• Evidência em Documentos Históricos:

    ◦ Uma carta de 1694 do Governador Geral da Bahia, D. João de Lencastro, reforça que as capitanias de Pernambuco, Itamaracá e Paraíba dependiam "essencialmente" dos gados do Rio Grande.

    ◦ As concessões de terras e sesmarias na região tinham como propósito quase exclusivo a "acomodação" e "criação" de gados.

    ◦ Um documento de 1802, o "Mappa dos preços correntes na parochia da Villa do Principe", revela que, dos cinco principais produtos de exportação do Seridó, quatro derivavam diretamente da pecuária: sola, couro miúdo, bois e cavalos. O quinto era o algodão, cuja cultura ainda era incipiente.

• Origem dos Povoadores: Os fundadores das grandes famílias seridoenses, como Thomas de Araujo Pereira, Caetano Dantas Correia e Cypriano Lopes Galvão, eram "opulentos fazendeiros, proprietarios de grandes rebanhos". Inicialmente, as fazendas eram administradas por vaqueiros e procuradores, muitos dos quais ascenderam socialmente e se tornaram fazendeiros abastados.

Genealogia e Influência das Famílias Fundadoras

A obra detalha a origem e a trajetória das famílias que formaram o núcleo social e político do Seridó, destacando suas alianças e o papel de seus membros mais proeminentes.

Família Araujo Pereira

• Fundador: Thomaz de Araujo Pereira, que obteve terras no Seridó em 1734 para fundar uma fazenda de gado. A tradição aponta sua origem como portuguesa, casado com Maria da Conceição Mendonça, uma baiana.

• Característica Principal: É descrita como a família que mais proliferou, sendo a mais numerosa da região. O autor afirma que "raro será o seridoense que não tenha sangue de Araujo".

• Figura de Destaque: Thomaz de Araujo Pereira (o 3º), neto do fundador, exerceu enorme influência social e política. Foi nomeado pelo Imperador como o primeiro Presidente (Governador) da Província do Rio Grande do Norte em 1823. Ele assumiu o cargo com relutância em meio ao caos da Confederação do Equador e renunciou meses depois, adotando uma postura de conciliação para evitar uma guerra civil, apesar de ser posteriormente acusado de conivência com os revolucionários.

Família Dantas Correia

• Fundador: Caetano Dantas Correia, que chegou ao sertão como vaqueiro de seu irmão e se estabeleceu na fazenda "Picos de Cima", em Acary.

• Alianças: Casou-se com Josepha de Araujo Pereira, filha do patriarca da família Araujo, solidificando a aliança entre os dois clãs.

• Contribuições Notáveis: Foi o fundador da cidade de Cuité, na Paraíba, doando terras para o patrimônio de sua capela em 1768. Seu genro, Antonio de Azevedo Maia Junior, foi o fundador de Jardim do Seridó, no Rio Grande do Norte.

Família Azevedo Maia

• Fundador no Seridó: Antonio de Azevedo Maia, que estabeleceu fazendas de gado no atual município de Jardim do Seridó.

• Figura de Destaque: Seu filho, Antonio de Azevedo Maia Junior, casou-se com Michaela Dantas Pereira (filha de Caetano Dantas Correia) e fundou a povoação "Conceição do Azevedo", que se tornou a cidade de Jardim do Seridó.

• Legado: A família produziu figuras de grande projeção, como o Coronel Felinto Elisio de Oliveira Azevedo, descrito pelo autor como o "verdadeiro e legitimo patriacha do Seridó" na época da escrita do livro.

Família Baptista

• Fundador: João Baptista dos Santos, casado com Maria Marcelina, filha do fundador de Jardim do Seridó.

• Característica Principal: Notabilizou-se pela longa rivalidade política com a família Medeiros em Caicó. Durante a Monarquia, os Medeiros eram Liberais e os Baptista, Conservadores. Essa rivalidade persistiu na República, com as famílias se alternando entre situação e oposição.

• Legado: A família participou ativamente de campanhas patrióticas, como o combate ao movimento de Pinto Madeira e a Guerra do Paraguai. É também conhecida pela longevidade de seus membros.

Família Medeiros

• Fundadores: Os irmãos portugueses Rodrigo e Sebastião de Medeiros, oriundos da Ilha de S. Miguel, que se fixaram na Paraíba no início do século XVIII.

• Origens e Lendas: O autor desmistifica a lenda de que os irmãos fugiram de Portugal por envolvimento no atentado contra o Rei D. José I em 1758, provando que já estavam no Brasil muito antes. A tradição local relata que casaram com irmãs de ascendência indígena.

• Figuras de Destaque:

    ◦ Manoel de Medeiros Rocha: Membro da Junta de Governo da Província no início da Independência.

    ◦ José Bernardo de Medeiros: Chefe político de enorme prestígio no Seridó e no estado, falecido como Senador Federal em 1907.

Família Lopes Galvão

• Origem: Descende de Manoel Lopes Galvão, um militar de destacada atuação no Brasil Colonial, condecorado por seus serviços de mais de 50 anos nas guerras contra os holandeses e na campanha contra os Palmares.

• Fixação no Seridó: Cypriano Lopes Galvão, casado com D. Adriana de Holanda de Vasconcellos (descendente de Arnal de Holanda), mudou-se para o Seridó, onde fundou grandes fazendas de gado.

• Contribuições Notáveis: O filho de Cypriano, o Capitão-mór Cypriano Lopes Galvão, foi o fundador de Currais Novos, ao erigir uma capela em sua fazenda em 1808.

• Descendência Ilustre: A família produziu figuras de projeção nacional, incluindo os ex-Presidentes da República, o Generalíssimo Deodoro da Fonseca e o Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca.

Família Bezerra de Menezes

• Origem: O tronco da família no Brasil é Antonio Bezerra Felpa de Barbuda, que chegou a Pernambuco com o donatário Duarte Coelho.

• Ramo Cearense: O ramo cearense da família teve grande destaque, especialmente durante a Confederação do Equador em 1824, com o comandante militar Antonio Bezerra de Souza e Menezes.

• Fixação no Seridó: A família se estabeleceu na região por meio de Thereza Maria José, filha de José Bezerra de Menezes (irmão do comandante de 1824). Ela se casou com Cypriano Lopes Galvão Junior, e seus descendentes formaram o ramo Bezerra do Seridó, entrelaçando-se com os Lopes Galvão e outras famílias locais.

Família Fernandes Pimenta

• Fundador: Antonio Fernandes Pimenta, um dos três parentes portugueses que emigraram para o Brasil. Ele se estabeleceu com uma fazenda de gado no atual município de Augusto Severo (RN).

• Fixação no Seridó: O ramo seridoense descende de seu filho, André José Fernandes, e do neto, Cosme Damião Fernandes, que se casou com um membro da família Araujo Pereira.

• Alianças: A família se ligou intimamente aos Pereira de Britto e aos Bezerra Galvão por meio de casamentos, fortalecendo sua posição social e política, principalmente no município de Caicó. e documento sintetiza as informações contidas nos excertos da obra "Famílias Seridoenses" de José Augusto Bezerra de Medeiros. A análise revela que o livro, originalmente publicado em 1940 e reeditado como uma raridade bibliográfica em 2002, é um estudo aprofundado sobre a origem e a procedência das famílias que povoaram a região do Seridó, no Rio Grande do Norte. O tema central é a genealogia de clãs proeminentes, como os Araujo Pereira, Dantas Correia, Medeiros, Lopes Galvão, e outros, detalhando suas linhagens, alianças matrimoniais e a influência duradoura na vida política e social da região. Um argumento fundamental da obra é que a criação de gado foi o fator socioeconômico preponderante que impulsionou a colonização do Seridó, motivando a busca por terras e a fixação desses núcleos familiares, que se tornaram a base da economia e do poder local por séculos.

Sobre a Obra e o Autor
O Autor: José Augusto Bezerra de Medeiros
José Augusto Bezerra de Medeiros (1884-1971) foi uma figura proeminente nascido em Caicó-RN, pertencente às famílias tradicionais do Seridó. Sua trajetória abrangeu os campos da Magistratura, Educação, Administração Pública, Política e Letras. Sua carreira multifacetada incluiu os seguintes postos e afiliações:
• Formação: Bacharel em Direito (1905).
• Cargos Públicos: Juiz de Direito, Professor, Deputado Estadual, Deputado Federal, Senador da República e Governador (Presidente) do Estado do Rio Grande do Norte (1924-1927).
• Afiliações Acadêmicas: Sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, Sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e Membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras.
• Produção Intelectual: Autor de livros sobre Educação e Economia, e um dedicado cultor da Genealogia.
• Ascendência: Neto do Cel. Silvino Bezerra de Araújo Galvão (paterno) e do Senador José Bernardo de Medeiros (materno).
A Publicação: "Famílias Seridoenses"
A obra "Famílias Seridoenses" foi publicada pela primeira vez em 1940, no Rio de Janeiro, pela editora Irmãos Pongetti. O livro foi muito bem recebido pelos leitores potiguares, especialmente os ligados à região do Seridó. Com o tempo, a obra tornou-se uma raridade bibliográfica. Em junho de 2002, o Sebo Vermelho Edições publicou uma edição fac-similar, proporcionando novo acesso a este que é considerado um dos clássicos da biblioteca genealógica regional.
Ficha Técnica (Edição Fac-similar de 2002): | Função | Responsável | | :--- | :--- | | Editor | ABIMAEL SILVA | | Capa | ALEXANDRE OLIVEIRA | | Impressão | MIRO NETO | | Coordenação Gráfica | E. M. F. NETO | | Edição | FAC-SIMILAR |
O Fator Preponderante: A Pecuária no Povoamento do Seridó
A obra estabelece a criação de gado como o principal motor do povoamento do Seridó. O autor argumenta que a pecuária foi o "fator preponderante na povoação da zona" e o "motivo econômico que decidiu filhos de outras regiões nordestinas a procurarem as margens do Rio Seridó e seus afluentes e ahi se fixarem".
Fundamentação Histórica e Econômica
• Importância Estratégica: A pecuária no Rio Grande do Norte, durante o Brasil colônia, teve importância essencial para toda a economia nordestina. O autor cita Hermann Watjen, que afirma que o "maior fornecimento de rezes para o consumo era feito pelos criadores de gado do Rio Grande". Em 1635, conselheiros políticos exaltaram a conquista da capitania como um benefício inestimável, pois sem a alimentação do Rio Grande, a população de Pernambuco estaria condenada a morrer de fome.
• A "Época do Couro": A pecuária definiu um ciclo econômico e um modo de vida. O autor evoca a "época do couro", citando Capistrano de Abreu para descrever a onipresença do material: "De couro era a porta das cabanas, o rude leito aplicado ao chão duro, e mais tarde a cama para os partos; de couro todas as cordas, a borracha para carregar a agua, o mocó ou alforje para levar comida, a maca para guardar roupa, a mochila para milhar cavalo, a peia para prendel-o em viagem...".
• Base da Economia: O gado era o "suporte quase exclusivo, o alicerce de toda a vida economica". Um documento de janeiro de 1802, o "Mappa dos preços correntes na parochia da Villa do Principe", organizado por Cypriano Lopes Galvão, atesta que o Seridó exportava quase tudo derivado da pecuária: a sola, o couro miúdo, os bois e os cavalos. A predominância da pecuária na economia durou mais de um século, com cinco produtos de exportação no século XIX saindo diretamente dessa atividade.
• Ocupação Territorial: A história territorial do Rio Grande do Norte é marcada pelo exame de datas de terra e sesmarias concedidas aos que vieram povoar a região. O pensamento único era "a obtenção de terras para acomodar os gados, onde situar os gados, onde crear os gados". Os primeiros sesmeiros seridoenses, em sua maioria, não vieram pessoalmente tomar posse das terras, fazendo-o por intermédio de vaqueiros e procuradores.
Genealogia das Famílias Fundadoras
A obra detalha a origem e a descendência de várias famílias que se estabeleceram no Seridó, tornando-se os troncos de grande parte da população local.
Araujo Pereira
Considerada a família mais antiga e prolífera do Seridó, com descendentes em grande parte do território norte-rio-grandense.
• Fundador: Thomaz de Araujo Pereira, casado com Maria da Conceição Mendonça. Obteve uma data de terras em 23 de maio de 1734 para criar seus gados no riacho Juazeiro.
• Descendência Notável:
    ◦ Thomaz de Araujo Pereira (3º): Neto do fundador, foi um homem de grande influência social e política. Herdando o prestígio familiar, atuou nos conselhos governamentais do Rio Grande do Norte.
    ◦ Carreira Política: Em 1823, foi nomeado Presidente da Província do Rio Grande do Norte pelo Imperador D. Pedro I, conforme a "Carta Imperial" de 25 de novembro de 1823. Ele relutou em aceitar o cargo devido à idade avançada e enfermidades crônicas, mas assumiu em 5 de maio de 1824. Renunciou em 8 de setembro de 1824, em meio ao caos da Confederação do Equador, movimento que envolveu as províncias nordestinas. Sua atitude foi de conciliação, mantendo-se fiel ao Imperador e à Constituição.
• Falecimento: Thomaz de Araujo Pereira (3º) faleceu em 19 de março de 1847, aos oitenta e dois anos, e foi sepultado na Matriz de Acary.
Dantas Correia
• Fundador: Caetano Dantas Correia, que se fixou na fazenda "Picos de Cima", no Acary, e chegou ao sertão como vaqueiro de seu irmão. Era filho de José Dantas Correia e Izabel da Rocha Meirelles, da Paraíba.
• Alianças e Patrimônio: Casou-se com Joanna, irmã de Josepha de Araujo Pereira (filhas de Thomaz de Araujo Pereira). Em 17 de julho de 1768, juntamente com sua mulher, doou meia légua de terra para a constituição do patrimônio da Capela de Nossa Senhora das Mercês, na serra chamada Coyté, que deu origem à povoação e, posteriormente, cidade de Cuité, na Paraíba.
• Descendência: O casal teve 17 filhos, resultando em uma descendência de "alguns milhares de indivíduos". Seus descendentes desempenharam papéis de relevo na política e na sociedade, como Manoel Francisco Dantas e o jurista Manoel Gomes de Medeiros Dantas.
Azevedo Maia
• Fundador: O primeiro membro da família a chegar ao Seridó foi Antonio de Azevedo Maia, casado com Josepha de Almeida. Ele fundou uma fazenda de gado nas terras do atual município de Jardim do Seridó. Faleceu em 28 de novembro de 1796.
• Descendência Notável:
    ◦ Antonio de Azevedo Maia Junior: Filho do fundador, casado com Michaela Dantas Pereira (filha de Caetano Dantas Correia). Teve um papel progressista e de influência benéfica, fundando a povoação "Conceição do Azevedo", hoje a cidade de Jardim do Seridó.
    ◦ Coronel Felinto Elisio de Oliveira Azevedo: Neto do fundador, foi um proeminente político militante por mais de cinquenta anos. Chefe de prestígio, representou sua terra na Assembleia Provincial e, na República, foi guindado à presidência do Congresso do Estado. Ocupou interinamente o governo do Rio Grande do Norte por duas vezes e é descrito como o "verdadeiro e legitimo patriacha do Seridó".
Baptista
A família Baptista é notória por sua longa rivalidade política com a família Medeiros.
• Rivalidade Política: Durante o período monárquico e início do republicano, a vida política de Caicó foi marcada por um "antagonismo intransponível" entre Medeiros (Liberais) e Baptista (Conservadores). Com a República, os Medeiros se tornaram governistas e os Baptista, oposicionistas, e vice-versa. Essa dinâmica durou até 1897, quando Pedro Velho unificou as tradições partidárias.
• Membros Influentes: Lula Baptista, Salviano Baptista, Manoel Basilio de Araujo, Lindolpho Araujo e Joaquim Martiniano.
• Origem do Tronco Inicial: João Baptista dos Santos, residente no Catururé (atual Jardim do Seridó), casado com Maria Marcelina, filha de Antonio de Azevedo Maia.
• Participação Cívica: A família sempre participou de campanhas patrióticas, como o combate ao movimento restaurador de Pinto Madeira e a Guerra do Paraguai, para a qual voluntários como Manoel Basilio de Araujo se juntaram ao corpo de defesa da Pátria.
Medeiros
Procedem dos irmãos Rodrigo e Sebastião de Medeiros, que vieram de Portugal no início do século XVIII e se fixaram no município paraibano de Santa Luzia.
• Lendas de Origem: Existem lendas sobre a vinda dos irmãos, uma delas afirmando que fugiram de Portugal após um atentado contra a vida de D. José. O autor desmistifica essa versão, apontando inconsistências cronológicas.
• Alianças e Descendência: Rodrigo casou-se com Apollonia Barbosa e Sebastião com Antonia de Moraes Valcacer. Seus filhos e netos estabeleceram importantes laços matrimoniais com outras famílias seridoenses.
    ◦ Manoel de Medeiros Rocha: Filho de Rodrigo, destacou-se no início da Independência do Brasil, sendo membro da Junta do Governo da Província do Rio Grande do Norte.
    ◦ José Bernardo de Medeiros: Descendente de Sebastião, ocupou cargos de elevada significação, falecendo como Senador Federal em 1907. Foi uma força eleitoral de grande destaque no Seridó.
    ◦ Outros Membros: A família teve membros de projeção no cenário político-social, como o Padre Joaquim Felix de Medeiros e o Padre Sebastião Constantino de Medeiros.
Lopes Galvão
Grande parte da família reside hoje no Seridó (Currais Novos e Acary).
• Origem: Procedem de Manoel Lopes Galvão, que foi secretário das mercês no reinado de D. João IV em Portugal. Um segundo Manoel Lopes Galvão, seu descendente, transportou-se para o Brasil, onde teve destacada atuação militar no período colonial, lutando contra os holandeses e nas guerrilhas dos Palmares.
• Cypriano Lopes Galvão: Bisneto do segundo Manoel, adquiriu muitas terras na região do Seridó e fundou grandes fazendas de criação de gado. Perdeu sua primeira esposa, D. Adriana, e casou-se novamente com D. Thereza da Silva.
    ◦ Fundador de Currais Novos: O filho de seu primeiro casamento, capitão-mor Cypriano Lopes Galvão, é considerado o fundador de Currais Novos, uma das mais prósperas unidades administrativas do Rio Grande do Norte. Em 1808, ele concebeu a ideia de erguer uma capela dedicada a N. S. Sant’Anna em sua fazenda.
• Projeção Nacional: A família teve grande relevo no Brasil, com descendentes que serviram à Pátria em diversas áreas. O autor cita o Generalíssimo Deodoro da Fonseca e o Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca, ex-presidentes da República, como descendentes de Manoel Lopes Galvão.
Bezerra de Menezes
• Origem Remota: Alguns linhagistas ligam a família a Diogo Alvares Correia (Caramurú) e Catharina Alvares (Paraguassú). O tronco certo no Brasil é Antonio Bezerra Felpa de Barbuda, português que chegou a Pernambuco com o primeiro donatário, Duarte Coelho.
• Atuação Histórica: A família teve participação destacada na luta contra os holandeses.
• Ramo do Seridó: José Bezerra de Menezes, filho de Antonio Bezerra de Souza e Thereza Maria José, fixou-se em Santa Cruz, no Rio Grande do Norte. Sua filha Thereza Maria José casou-se com Cypriano Lopes Galvão Junior em 1794. Deste casal descendem todos os Bezerra da zona do Seridó, em número avultado.
• Participação em Revoltas: O coronel Antonio Bezerra de Souza e Menezes foi comandante das armas na revolução de 1824 e na Confederação do Equador no Ceará. Foi preso e condenado à morte, mas a dignidade com que se conduziu levou o coronel Jacob de Niemeyer a pedir clemência imperial.
Fernandes Pimenta
• Origem: Uma tradição familiar refere que a greação teve origem em três portugueses (dois irmãos e um primo) da Villa de Faral que emigraram para o Brasil nos fins do século XVII ou alvorecer do século XVIII.
• Ramo do Seridó: O ramo que se estabeleceu na região seridoense procede diretamente do casal Cosme Damião Fernandes-Izabel de Araujo, que residiu na fazenda "Cavalcanti", município de Caicó.
• Descendência Notável:
    ◦ Coronel Ezequiel Fernandes: Exerceu prestigiosa influência em Caicó, sendo um dos chefes da corrente liberal.
    ◦ Dr. Manuel José Fernandes: Magistrado, homem acatado e de função pública exemplar.
    ◦ Professor Apolinar: Lecionou gramática latina em Caicó, em cadeira criada em 1836, e seus dois irmãos seguiram a carreira eclesiástica.
Ensaio Genealógico (Exemplo da Família Godoy Bezerra)
A obra fornece um modelo de árvore genealógica para a descendente Marina de Godoy Bezerra, ilustrando os entrelaçamentos entre as famílias:
• Marina de Godoy Bezerra
    ◦ Filha de: José Augusto Bezerra de Medeiros e Alice de Godoy Bezerra
    ◦ Neta Paterna de: Manoel Augusto Bezerra de Araujo e Candida Olindina de Medeiros
    ◦ Neta Materna de: José Joaquim de Godoy e Cândido José de Godoy
    ◦ Bisavós Paternos:
        ▪ Silvino Bezerra de Araujo Galvão e Maria Feronha de Araujo
        ▪ José Bernardo de Medeiros e Paulina Engracia de Medeiros
    ◦ Trisavós: O ensaio continua, ligando a linhagem a figuras como Cypriano Lopes Galvão, João Phelippe de Medeiros, entre outros.

 


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