Dr. JOSÉ AUGUSTO BEZERRA DE MEDEIROS (1884/
Há obras que não se deixam enquadrar nos limites estritos do método histórico ou da erudição acadêmica, porque nascem de uma necessidade mais funda: a de preservar a memória como forma de existência. Seridó Biográfico, tal como evocado no excerto oral transcrito de um vídeo do YouTube, insere-se nessa tradição da escrita memorialística que antecede e, por vezes, suplanta a história científica. Não se trata apenas de um livro ou de um conjunto de dados, mas de um gesto de permanência, um esforço consciente de resguardar nomes, datas, linhagens e vozes diante do avanço silencioso do esquecimento.
A fala fragmentada, marcada por hesitações, repetições e expressões coloquiais, revela que estamos diante de uma narrativa nascida da oralidade. É nesse terreno instável, porém profundamente humano, que surge a figura de José Augusto Bezerra de Medeiros, referido como “doutor” e, paradoxalmente, apresentado como alguém que “não era pesquisador”. Essa negativa, longe de diminuir sua obra, ilumina o seu verdadeiro alcance: José Augusto escreve não apenas porque investiga, mas porque pertence; não apenas porque consulta documentos, mas porque carrega consigo a memória viva do Seridó. Seu livro Seridó — e, de modo mais amplo, Famílias Seridoenses — constitui-se como um grande arquivo afetivo, no qual a genealogia se confunde com identidade, e o dado histórico se entrelaça à lembrança compartilhada.
As datas mencionadas no discurso oral — um nascimento ocorrido em 21 de janeiro de 1709, outro batismo em 19 de janeiro de 1716, em Portugal — não surgem como meros registros burocráticos. Elas funcionam como marcos simbólicos de origem, quase como atos fundadores. Pouco importa, nesse contexto, a precisão absoluta do local ou da circunstância; o que se afirma é o desejo de ancorar o Seridó num tempo longo, que ultrapassa o sertão e se projeta até a antiga matriz lusitana. Ao fazê-lo, a narrativa constrói uma ponte imaginária entre Portugal e o interior nordestino, entre o século XVIII e a experiência sertaneja, fundindo história e mito numa mesma corrente memorial.
Essa lógica está no cerne de Famílias Seridoenses, obra publicada em 1940 e considerada um clássico da genealogia potiguar. José Augusto Bezerra de Medeiros, nascido em Caicó em 22 de outubro de 1884, foi herdeiro direto das oligarquias que moldaram a vida política, econômica e cultural do Rio Grande do Norte. Neto de José Bernardo de Medeiros, chefe político do Seridó por mais de três décadas, e de Silvino Bezerra de Araújo Galvão, deputado estadual, líder republicano e vice-governador do estado, José Augusto cresceu imerso numa tradição em que a vida pública e a memória familiar se entrelaçavam de forma indissociável. Seu percurso intelectual e político — bacharel em Direito pela Faculdade do Recife, professor, magistrado, deputado estadual e federal, senador da República e governador do Rio Grande do Norte entre 1924 e 1927 — reflete essa formação profundamente enraizada no serviço público e na reflexão sobre o destino coletivo.
Entretanto, é na condição de memorialista e genealogista que sua obra adquire singular relevância para a compreensão do Seridó. Em Famílias Seridoenses, José Augusto demonstra que a pecuária foi o fator econômico decisivo para o povoamento da região, funcionando como verdadeiro eixo civilizador do sertão. Inspirado em autores como Capistrano de Abreu, ele identifica a chamada “época do couro” como fundamento material da vida sertaneja, período em que o gado não apenas sustentava a economia, mas moldava costumes, relações sociais e formas de ocupação do território. O Rio Grande do Norte, nesse contexto, desempenhou papel estratégico ao abastecer capitanias vizinhas, especialmente Pernambuco, cuja expansão populacional dependeria do gado potiguar.
A partir desse pano de fundo econômico, o autor reconstrói a genealogia das grandes famílias que se fixaram às margens do rio Seridó e de seus afluentes. Nomes como Araujo Pereira, Dantas Correia, Azevedo Maia, Baptista, Medeiros, Lopes Galvão e Bezerra de Menezes não aparecem apenas como linhagens, mas como verdadeiros agentes históricos. São famílias cuja trajetória se confunde com a fundação de vilas, a construção de capelas, a organização da vida política e a consolidação do poder regional. A figura de Thomaz de Araujo Pereira, sesmeiro e presidente da Província no início do Império; de Caetano Dantas Correia, fundador de Cuité; de Antonio de Azevedo Maia, pioneiro de Jardim do Seridó; de Cypriano Lopes Galvão, idealizador da capela que daria origem a Currais Novos; e de José Bernardo de Medeiros, o “colosso do Seridó”, ilustra como a história regional se estruturou a partir dessas famílias interligadas por alianças, casamentos e interesses comuns.
O discurso oral que inspira Seridó Biográfico reflete exatamente essa tradição: uma história contada mais pela voz do que pelo documento, mais pela lembrança do que pela crítica das fontes. Expressões truncadas, datas imprecisas e frases interrompidas não são falhas, mas marcas de autenticidade. Elas revelam uma forma de narrar em que a verdade não se mede apenas pela exatidão factual, mas pela fidelidade à experiência vivida e transmitida. Trata-se de uma historiografia afetiva, na qual cada erro aparente carrega uma verdade simbólica, e cada nome pronunciado reafirma a pertença a uma comunidade histórica.
Nesse sentido, José Augusto, mesmo quando se declara “não pesquisador”, ergue uma obra de extraordinária densidade cultural. Sua escrita simples, atravessada pela memória familiar e pelo compromisso com a educação e a democracia — evidentes também em seus inúmeros livros sobre ensino, parlamentarismo e organização do Estado — constrói um monumento invisível, porém duradouro: o da lembrança compartilhada. Ao aproximar o Seridó do Portugal setecentista, ao ligar o vaqueiro ao senador, o fundador de fazenda ao legislador da República, ele afirma que o sertão não é periferia da história, mas um de seus núcleos mais antigos e persistentes.
Assim, Seridó Biográfico e Famílias Seridoenses não devem ser lidos apenas como compilações genealógicas ou relatos regionais. São, antes, exercícios de filiação simbólica, tentativas de dizer que “aqui estivemos” e que continuamos a existir enquanto formos capazes de narrar. No Seridó, a história não se escreve apenas com documentos, mas com vozes; não se preserva apenas em arquivos, mas na palavra dita e redita. E é nessa palavra, frágil e resistente ao mesmo tempo, que a memória sertaneja encontra sua forma mais duradoura de sobrevivência.
Famílias Seridoenses: História e
Genealogia
1 fonte
O
texto apresenta extensos excertos de "Famílias Seridoenses", um
clássico da genealogia escrito
por Dr. José Augusto
Bezerra de Medeiros e publicado originalmente em 1940. A
obra é uma história
do Seridó, uma região do Rio Grande do Norte, e foca na formação das famílias locais,
detalhando suas origens e proeminência social e política. O autor traça o
histórico de várias famílias — como Araújo
Pereira, Dantas Correia, Medeiros, Lopes Galvão e Azevedo Maia —
e afirma que a pecuária foi
o fator econômico preponderante para o povoamento da zona. Além de perfis genealógicos,
o texto fornece biografias
detalhadas de membros notáveis dessas famílias, incluindo
figuras políticas importantes do Nordeste brasileiro.
Principais Ideias de "Famílias Seridoenses"
Sumário Executivo
Este documento sintetiza os temas centrais e as informações genealógicas
apresentadas na obra "Famílias Seridoenses" de José Augusto Bezerra
de Medeiros. A tese fundamental do livro argumenta que a pecuária foi o fator
socioeconômico preponderante que impulsionou o povoamento da região do Seridó, no
Rio Grande do Norte. A obra demonstra como a necessidade de terras para a
criação de gado atraiu colonizadores de outras regiões do Nordeste,
estabelecendo as bases econômicas e sociais da área.
Além da análise econômica, o livro oferece um estudo genealógico
detalhado das principais famílias que se fixaram no Seridó, traçando suas
origens, interligações e a influência duradoura que exerceram na vida política,
social e econômica da região. As famílias analisadas incluem Araujo Pereira,
Dantas Correia, Azevedo Maia, Baptista, Medeiros, Lopes Galvão, Bezerra de
Menezes e Fernandes Pimenta. A narrativa destaca a profunda interconexão entre
esses clãs por meio de casamentos, formando uma elite coesa que moldou a história
do Seridó por séculos. A autoridade do autor, José Augusto Bezerra de Medeiros
— ele mesmo um descendente dessas linhagens e uma figura proeminente na
história potiguar como governador, senador e magistrado — confere peso e
profundidade à análise.
A Pecuária como Fator de Povoamento do Seridó
O argumento central do autor é que a colonização e o desenvolvimento do
Seridó foram diretamente impulsionados pela pecuária. A criação de gado não foi
apenas uma atividade econômica, mas a força motriz que definiu a geografia
humana, os costumes e a história da região.
• Fundamento Econômico: Citando historiadores como
Capistrano de Abreu e Roberto Simonsen, a obra estabelece que toda colonização
requer uma fonte de riqueza natural para se sustentar. No Seridó, essa fonte
foi a multiplicação do gado.
• A "Época do Couro": A vida pastoril criou
uma cultura material singular, descrita por Capistrano de Abreu como a
"época do couro", onde quase todos os artefatos necessários à vida
cotidiana — desde portas de cabanas e camas até alforjes, cordas e vestimentas —
eram feitos de couro.
• Importância Estratégica para o Nordeste: A pecuária
do Rio Grande do Norte foi essencial para a economia de toda a região,
especialmente durante o domínio holandês. O autor cita Hermann Watjen, que
afirma que o gado potiguar era o principal fornecedor de carne para Pernambuco,
sendo crucial para a alimentação da população e dos soldados holandeses.
• Evidência em Documentos Históricos:
◦ Uma carta de 1694 do Governador Geral da
Bahia, D. João de Lencastro, reforça que as capitanias de Pernambuco, Itamaracá
e Paraíba dependiam "essencialmente" dos gados do Rio Grande.
◦ As concessões de terras e sesmarias na
região tinham como propósito quase exclusivo a "acomodação" e
"criação" de gados.
◦ Um documento de 1802, o "Mappa dos
preços correntes na parochia da Villa do Principe", revela que, dos cinco
principais produtos de exportação do Seridó, quatro derivavam diretamente da
pecuária: sola, couro miúdo, bois e cavalos. O quinto era o algodão, cuja
cultura ainda era incipiente.
• Origem dos Povoadores: Os fundadores das grandes
famílias seridoenses, como Thomas de Araujo Pereira, Caetano Dantas Correia e
Cypriano Lopes Galvão, eram "opulentos fazendeiros, proprietarios de
grandes rebanhos". Inicialmente, as fazendas eram administradas por
vaqueiros e procuradores, muitos dos quais ascenderam socialmente e se tornaram
fazendeiros abastados.
Genealogia e Influência das Famílias Fundadoras
A obra detalha a origem e a trajetória das famílias que formaram o
núcleo social e político do Seridó, destacando suas alianças e o papel de seus
membros mais proeminentes.
Família Araujo Pereira
• Fundador: Thomaz de Araujo Pereira, que obteve terras
no Seridó em 1734 para fundar uma fazenda de gado. A tradição aponta sua origem
como portuguesa, casado com Maria da Conceição Mendonça, uma baiana.
• Característica Principal: É descrita como a família
que mais proliferou, sendo a mais numerosa da região. O autor afirma que
"raro será o seridoense que não tenha sangue de Araujo".
• Figura de Destaque: Thomaz de Araujo Pereira (o 3º),
neto do fundador, exerceu enorme influência social e política. Foi nomeado pelo
Imperador como o primeiro Presidente (Governador) da Província do Rio Grande do
Norte em 1823. Ele assumiu o cargo com relutância em meio ao caos da
Confederação do Equador e renunciou meses depois, adotando uma postura de
conciliação para evitar uma guerra civil, apesar de ser posteriormente acusado
de conivência com os revolucionários.
Família Dantas Correia
• Fundador: Caetano Dantas Correia, que chegou ao
sertão como vaqueiro de seu irmão e se estabeleceu na fazenda "Picos de Cima",
em Acary.
• Alianças: Casou-se com Josepha de Araujo Pereira,
filha do patriarca da família Araujo, solidificando a aliança entre os dois
clãs.
• Contribuições Notáveis: Foi o fundador da cidade de
Cuité, na Paraíba, doando terras para o patrimônio de sua capela em 1768. Seu
genro, Antonio de Azevedo Maia Junior, foi o fundador de Jardim do Seridó, no
Rio Grande do Norte.
Família Azevedo Maia
• Fundador no Seridó: Antonio de Azevedo Maia, que
estabeleceu fazendas de gado no atual município de Jardim do Seridó.
• Figura de Destaque: Seu filho, Antonio de Azevedo
Maia Junior, casou-se com Michaela Dantas Pereira (filha de Caetano Dantas
Correia) e fundou a povoação "Conceição do Azevedo", que se tornou a
cidade de Jardim do Seridó.
• Legado: A família produziu figuras de grande
projeção, como o Coronel Felinto Elisio de Oliveira Azevedo, descrito pelo
autor como o "verdadeiro e legitimo patriacha do Seridó" na época da
escrita do livro.
Família Baptista
• Fundador: João Baptista dos Santos, casado com Maria
Marcelina, filha do fundador de Jardim do Seridó.
• Característica Principal: Notabilizou-se pela longa
rivalidade política com a família Medeiros em Caicó. Durante a Monarquia, os
Medeiros eram Liberais e os Baptista, Conservadores. Essa rivalidade persistiu
na República, com as famílias se alternando entre situação e oposição.
• Legado: A família participou ativamente de campanhas
patrióticas, como o combate ao movimento de Pinto Madeira e a Guerra do
Paraguai. É também conhecida pela longevidade de seus membros.
Família Medeiros
• Fundadores: Os irmãos portugueses Rodrigo e Sebastião
de Medeiros, oriundos da Ilha de S. Miguel, que se fixaram na Paraíba no início
do século XVIII.
• Origens e Lendas: O autor desmistifica a lenda de que
os irmãos fugiram de Portugal por envolvimento no atentado contra o Rei D. José
I em 1758, provando que já estavam no Brasil muito antes. A tradição local
relata que casaram com irmãs de ascendência indígena.
• Figuras de Destaque:
◦ Manoel de Medeiros Rocha: Membro da Junta
de Governo da Província no início da Independência.
◦ José Bernardo de Medeiros: Chefe político
de enorme prestígio no Seridó e no estado, falecido como Senador Federal em
1907.
Família Lopes Galvão
• Origem: Descende de Manoel Lopes Galvão, um militar
de destacada atuação no Brasil Colonial, condecorado por seus serviços de mais
de 50 anos nas guerras contra os holandeses e na campanha contra os Palmares.
• Fixação no Seridó: Cypriano Lopes Galvão, casado com
D. Adriana de Holanda de Vasconcellos (descendente de Arnal de Holanda),
mudou-se para o Seridó, onde fundou grandes fazendas de gado.
• Contribuições Notáveis: O filho de Cypriano, o
Capitão-mór Cypriano Lopes Galvão, foi o fundador de Currais Novos, ao erigir
uma capela em sua fazenda em 1808.
• Descendência Ilustre: A família produziu figuras de
projeção nacional, incluindo os ex-Presidentes da República, o Generalíssimo
Deodoro da Fonseca e o Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca.
Família Bezerra de Menezes
• Origem: O tronco da família no Brasil é Antonio
Bezerra Felpa de Barbuda, que chegou a Pernambuco com o donatário Duarte
Coelho.
• Ramo Cearense: O ramo cearense da família teve grande
destaque, especialmente durante a Confederação do Equador em 1824, com o
comandante militar Antonio Bezerra de Souza e Menezes.
• Fixação no Seridó: A família se estabeleceu na região
por meio de Thereza Maria José, filha de José Bezerra de Menezes (irmão do comandante
de 1824). Ela se casou com Cypriano Lopes Galvão Junior, e seus descendentes
formaram o ramo Bezerra do Seridó, entrelaçando-se com os Lopes Galvão e outras
famílias locais.
Família Fernandes Pimenta
• Fundador: Antonio Fernandes Pimenta, um dos três
parentes portugueses que emigraram para o Brasil. Ele se estabeleceu com uma
fazenda de gado no atual município de Augusto Severo (RN).
• Fixação no Seridó: O ramo seridoense descende de seu
filho, André José Fernandes, e do neto, Cosme Damião Fernandes, que se casou
com um membro da família Araujo Pereira.
• Alianças: A família se ligou intimamente aos Pereira
de Britto e aos Bezerra Galvão por meio de casamentos, fortalecendo sua posição
social e política, principalmente no município de Caicó.

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